Paris é uma sauna: crônica de calor extremo e lições climáticas

Milhares evacuados de suas casas devido a incêndios florestais; mortes provocadas pelo calor extremo registradas na França.
Paris é uma sauna, mas é uma sauna que tenta se reinventar
A colunista contrasta a adaptação climática de Paris com a inércia de São Paulo diante da crise.
Mark

Por que você escolheu comparar Paris com São Paulo neste momento?

Mimi

Porque o contraste é brutal. Ambas as cidades enfrentam o calor extremo, mas uma está tentando se reinventar enquanto a outra segue presa aos mesmos padrões de sempre.

Mark

A Paris que você descreve parece estar sofrendo tanto quanto qualquer outra cidade neste calor.

Mimi

Verdade. Mas o sofrimento dela tem uma direção. Há ciclovias sendo construídas, o Sena está aberto para banho. São Paulo tem o Tietê — um rio que poderia ser transformado — e ninguém faz nada.

Mark

Você menciona os incêndios e as mortes. Como isso muda a forma como você vê a cidade?

Mimi

Muda tudo. De repente, reclamar do suor em um café parece trivial quando milhares estão sendo evacuados de suas casas. A crise climática deixa de ser abstrata.

Mark

E Simone de Beauvoir? Por que ela aparece na sua coluna?

Mimi

Porque ela representa uma Paris que já foi. A Paris dos cafés, das ideias, da liberdade intelectual. Agora estamos em uma Paris que precisa lidar com a realidade física do planeta aquecendo.

Mark

Você conseguiu escrever a coluna?

Mimi

Sim. Debaixo de uma árvore, finalmente. Às vezes a solução não é ar-condicionado ou champanhe. É apenas um pouco de sombra e a clareza de saber o que importa.

  • Termômetros marcam 35°C em Paris e o calor não cede nem ao entardecer — ao contrário dos trópicos, ele se acumula hora após hora, tornando a cidade irrespirável.
  • Hotéis centenários sem ar-condicionado transformam-se em armadilhas térmicas, e parisienses chegam a deitar colchões sob as marquises por não suportarem o calor dos próprios tetos.
  • Incêndios florestais devastam regiões da França, mortes pelo calor são registradas e milhares são evacuados — a crise climática estampa as páginas do Le Monde sem eufemismos.
  • Paris reage investindo em mobilidade sustentável, ampliação de áreas verdes e reabertura do Sena para banho, esboçando uma adaptação urbana que contrasta com a inércia de outras grandes cidades.
  • São Paulo surge como contraponto sombrio: refém da carrocracia e com distribuição precária de áreas verdes, ignora o potencial climático do rio Tietê enquanto o planeta aquece.

Em pleno verão europeu de 2026, Paris enfrenta uma onda de calor que transforma a cidade-luz em um forno a céu aberto, com 35°C, ar deteriorado e incêndios florestais que forçam milhares a abandonar suas casas. A crise climática, antes abstrata nos discursos, torna-se visceral nas ruas históricas onde a arquitetura secular foi erguida para um clima que já não existe. A cidade responde com ciclovias, espaços verdes e um Sena reaberto ao banho — enquanto outras metrópoles, como São Paulo, permanecem presas a modelos urbanos que agravam o problema.

Hemingway conheceu uma Paris de festa. A colunista da Folha conhece uma Paris de sauna. Sentada em seu quarto de hotel — um edifício de séculos projetado para reter calor, não para dissipi-lo —, ela tenta escrever enquanto o suor escorre e os termômetros marcam 35°C. A qualidade do ar está deteriorada, e o calor, diferente do brasileiro, não cede ao entardecer: acumula-se até que a tarde seja o momento mais sufocante do dia.

Em busca de inspiração e de algum frescor, ela se refugia no Café de Flore, onde Simone de Beauvoir escreveu parte de sua obra. O lugar está lotado. Franceses e turistas disputam lugares à sombra ou perto de ventiladores com a devoção de quem adora uma divindade. Ninguém abandona a mesa, mesmo que o preço seja uma garrafa a mais de champanhe. Sobre o balcão, o Le Monde traz incêndios florestais que assolam diversas regiões da França, mortes pelo calor e evacuações em massa — a crise climática impressa em preto e branco, sem metáforas.

De volta às ruas, a colunista encontra parisienses bem-vestidos deitados em colchões sob as marquises, incapazes de suportar o calor dos próprios tetos de zinco. Mas encontra também o Sena cheio de banhistas — símbolo de uma cidade que, apesar do sofrimento, vem reduzindo carros, ampliando ciclovias, multiplicando áreas verdes e devolvendo o rio à população. O contraste com São Paulo é inevitável: uma metrópole ainda refém da carrocracia, com pouca e mal distribuída área verde, ignorando o que o Tietê poderia oferecer diante da crise climática.

Sentada à sombra de uma árvore, entre o frescor improvável e a urgência do tema, a colunista finalmente sabe o que escrever.

Hemingway conheceu uma Paris que era festa. Eu conheço uma que é sauna. Estou sentada na cadeira do meu quarto de hotel, tentando escrever enquanto o suor escorre pela testa, e a ironia não me escapa: a mesma cidade que inspirou gerações de escritores agora me deixa com o cérebro tão derretido quanto escargot saído do forno.

Os termômetros marcam 35 graus. A qualidade do ar está deteriorada. O hotel, construído há séculos, não tem ar-condicionado — sua arquitetura foi pensada para reter calor, porque ninguém no século 19 imaginava que seríamos estúpidos o bastante para queimar mais combustível fóssil. Saio para arejar a cabeça e descubro que arejar aqui significa virar carne na grelha. Diferente do Brasil, onde o calor atinge o pico ao meio-dia e depois cai, aqui ele se acumula. São cinco da tarde e nunca esteve tão quente.

Busco refúgio no Café de Flore, onde Simone de Beauvoir escreveu alguns de seus livros. A escolha é conveniente — talvez o espírito da francesa vague por aqui e me inspire algo decente para o maior jornal do Brasil. O lugar está lotado. Franceses e turistas disputam à tapa um lugar à sombra, ou melhor ainda, perto de um ventilador. Executivos sufocados em ternos e gravatas olham para as pás girando com a adoração que os maias dedicavam ao Sol. Ninguém abandona uma mesa, nem que seja ao custo de muito champanhe.

Me encosto no balcão e tento invocar a sororidade de Simone, mas imagino que ela se recuse a entrar em uma pele tão pegajosa, com rodelas úmidas sob os braços e um bigodinho de suor digno de Dalí. Pego o Le Monde que o café oferece gentilmente. Nas páginas, os incêndios florestais que assolam diversas regiões da França, obrigando milhares a evacuarem suas casas. As mortes provocadas pelo calor. Uma charge mostra um homenzinho com um ventilador precário contra uma onda de fogo imenso.

Volto para a rua ainda sem conseguir escrever. Sob as marquises, vejo parisienses bem-vestidos deitados em colchões — moradores que não suportaram ficar debaixo de seus tetos de zinco. Também vejo o rio Sena lotado de banhistas. Paris é uma sauna, mas é uma sauna que vem reduzindo a circulação de carros, aumentando espaços verdes, ciclovias e ruas para pedestres, além de habilitar parte do Sena para banho. Diferente de São Paulo, refém da carrocracia, ignorando o potencial do Tietê no enfrentamento climático e com pouca e má distribuição de área verde por habitante.

Sento-me debaixo de uma árvore. Não sei se é o súbito frescor na moleira ou a crise climática que sempre rende assunto, mas de repente já sei o que vou escrever nesta suada coluna.

Meu cérebro mal consegue funcionar, minha massa cinzenta parecendo uma porção de escargots gelatinosos recém tirados do forno
— Giovana Madalosso, colunista
São Paulo segue refém na carrocracia, ignorando o potencial do Tietê no enfrentamento climático
— Giovana Madalosso, colunista
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