Em pleno verão europeu de 2026, Paris enfrenta uma onda de calor que transforma a cidade-luz em um forno a céu aberto, com 35°C, ar deteriorado e incêndios florestais que forçam milhares a abandonar suas casas. A crise climática, antes abstrata nos discursos, torna-se visceral nas ruas históricas onde a arquitetura secular foi erguida para um clima que já não existe. A cidade responde com ciclovias, espaços verdes e um Sena reaberto ao banho — enquanto outras metrópoles, como São Paulo, permanecem presas a modelos urbanos que agravam o problema.
Paris é uma sauna: crônica de calor extremo e lições climáticas
Paris é uma sauna, mas é uma sauna que tenta se reinventar
Por que você escolheu comparar Paris com São Paulo neste momento?
Porque o contraste é brutal. Ambas as cidades enfrentam o calor extremo, mas uma está tentando se reinventar enquanto a outra segue presa aos mesmos padrões de sempre.
A Paris que você descreve parece estar sofrendo tanto quanto qualquer outra cidade neste calor.
Verdade. Mas o sofrimento dela tem uma direção. Há ciclovias sendo construídas, o Sena está aberto para banho. São Paulo tem o Tietê — um rio que poderia ser transformado — e ninguém faz nada.
Você menciona os incêndios e as mortes. Como isso muda a forma como você vê a cidade?
Muda tudo. De repente, reclamar do suor em um café parece trivial quando milhares estão sendo evacuados de suas casas. A crise climática deixa de ser abstrata.
E Simone de Beauvoir? Por que ela aparece na sua coluna?
Porque ela representa uma Paris que já foi. A Paris dos cafés, das ideias, da liberdade intelectual. Agora estamos em uma Paris que precisa lidar com a realidade física do planeta aquecendo.
Você conseguiu escrever a coluna?
Sim. Debaixo de uma árvore, finalmente. Às vezes a solução não é ar-condicionado ou champanhe. É apenas um pouco de sombra e a clareza de saber o que importa.
The Pulse
- Termômetros marcam 35°C em Paris e o calor não cede nem ao entardecer — ao contrário dos trópicos, ele se acumula hora após hora, tornando a cidade irrespirável.
- Hotéis centenários sem ar-condicionado transformam-se em armadilhas térmicas, e parisienses chegam a deitar colchões sob as marquises por não suportarem o calor dos próprios tetos.
- Incêndios florestais devastam regiões da França, mortes pelo calor são registradas e milhares são evacuados — a crise climática estampa as páginas do Le Monde sem eufemismos.
- Paris reage investindo em mobilidade sustentável, ampliação de áreas verdes e reabertura do Sena para banho, esboçando uma adaptação urbana que contrasta com a inércia de outras grandes cidades.
- São Paulo surge como contraponto sombrio: refém da carrocracia e com distribuição precária de áreas verdes, ignora o potencial climático do rio Tietê enquanto o planeta aquece.
Em pleno verão europeu de 2026, Paris enfrenta uma onda de calor que transforma a cidade-luz em um forno a céu aberto, com 35°C, ar deteriorado e incêndios florestais que forçam milhares a abandonar suas casas. A crise climática, antes abstrata nos discursos, torna-se visceral nas ruas históricas onde a arquitetura secular foi erguida para um clima que já não existe. A cidade responde com ciclovias, espaços verdes e um Sena reaberto ao banho — enquanto outras metrópoles, como São Paulo, permanecem presas a modelos urbanos que agravam o problema.
Hemingway conheceu uma Paris de festa. A colunista da Folha conhece uma Paris de sauna. Sentada em seu quarto de hotel — um edifício de séculos projetado para reter calor, não para dissipi-lo —, ela tenta escrever enquanto o suor escorre e os termômetros marcam 35°C. A qualidade do ar está deteriorada, e o calor, diferente do brasileiro, não cede ao entardecer: acumula-se até que a tarde seja o momento mais sufocante do dia.
Em busca de inspiração e de algum frescor, ela se refugia no Café de Flore, onde Simone de Beauvoir escreveu parte de sua obra. O lugar está lotado. Franceses e turistas disputam lugares à sombra ou perto de ventiladores com a devoção de quem adora uma divindade. Ninguém abandona a mesa, mesmo que o preço seja uma garrafa a mais de champanhe. Sobre o balcão, o Le Monde traz incêndios florestais que assolam diversas regiões da França, mortes pelo calor e evacuações em massa — a crise climática impressa em preto e branco, sem metáforas.
De volta às ruas, a colunista encontra parisienses bem-vestidos deitados em colchões sob as marquises, incapazes de suportar o calor dos próprios tetos de zinco. Mas encontra também o Sena cheio de banhistas — símbolo de uma cidade que, apesar do sofrimento, vem reduzindo carros, ampliando ciclovias, multiplicando áreas verdes e devolvendo o rio à população. O contraste com São Paulo é inevitável: uma metrópole ainda refém da carrocracia, com pouca e mal distribuída área verde, ignorando o que o Tietê poderia oferecer diante da crise climática.
Sentada à sombra de uma árvore, entre o frescor improvável e a urgência do tema, a colunista finalmente sabe o que escrever.
Hemingway conheceu uma Paris que era festa. Eu conheço uma que é sauna. Estou sentada na cadeira do meu quarto de hotel, tentando escrever enquanto o suor escorre pela testa, e a ironia não me escapa: a mesma cidade que inspirou gerações de escritores agora me deixa com o cérebro tão derretido quanto escargot saído do forno.
Os termômetros marcam 35 graus. A qualidade do ar está deteriorada. O hotel, construído há séculos, não tem ar-condicionado — sua arquitetura foi pensada para reter calor, porque ninguém no século 19 imaginava que seríamos estúpidos o bastante para queimar mais combustível fóssil. Saio para arejar a cabeça e descubro que arejar aqui significa virar carne na grelha. Diferente do Brasil, onde o calor atinge o pico ao meio-dia e depois cai, aqui ele se acumula. São cinco da tarde e nunca esteve tão quente.
Busco refúgio no Café de Flore, onde Simone de Beauvoir escreveu alguns de seus livros. A escolha é conveniente — talvez o espírito da francesa vague por aqui e me inspire algo decente para o maior jornal do Brasil. O lugar está lotado. Franceses e turistas disputam à tapa um lugar à sombra, ou melhor ainda, perto de um ventilador. Executivos sufocados em ternos e gravatas olham para as pás girando com a adoração que os maias dedicavam ao Sol. Ninguém abandona uma mesa, nem que seja ao custo de muito champanhe.
Me encosto no balcão e tento invocar a sororidade de Simone, mas imagino que ela se recuse a entrar em uma pele tão pegajosa, com rodelas úmidas sob os braços e um bigodinho de suor digno de Dalí. Pego o Le Monde que o café oferece gentilmente. Nas páginas, os incêndios florestais que assolam diversas regiões da França, obrigando milhares a evacuarem suas casas. As mortes provocadas pelo calor. Uma charge mostra um homenzinho com um ventilador precário contra uma onda de fogo imenso.
Volto para a rua ainda sem conseguir escrever. Sob as marquises, vejo parisienses bem-vestidos deitados em colchões — moradores que não suportaram ficar debaixo de seus tetos de zinco. Também vejo o rio Sena lotado de banhistas. Paris é uma sauna, mas é uma sauna que vem reduzindo a circulação de carros, aumentando espaços verdes, ciclovias e ruas para pedestres, além de habilitar parte do Sena para banho. Diferente de São Paulo, refém da carrocracia, ignorando o potencial do Tietê no enfrentamento climático e com pouca e má distribuição de área verde por habitante.
Sento-me debaixo de uma árvore. Não sei se é o súbito frescor na moleira ou a crise climática que sempre rende assunto, mas de repente já sei o que vou escrever nesta suada coluna.
Notable Quotes
Meu cérebro mal consegue funcionar, minha massa cinzenta parecendo uma porção de escargots gelatinosos recém tirados do forno— Giovana Madalosso, colunista
São Paulo segue refém na carrocracia, ignorando o potencial do Tietê no enfrentamento climático— Giovana Madalosso, colunista