Folha ignora controvérsia editorial sobre homenageada da Flip

Qual o poeta que teve tantas edições de sua obra completa?
Pergunta de Augusto Massi sobre a importância editorial do trabalho realizado com Orides Fontela.
Mark

Por que a omissão do livro de 2015 importa tanto? Parece um detalhe editorial entre muitos.

Mimi

Porque não é apenas um detalhe. Quando você está fazendo uma reportagem sobre o "resgate" de uma poeta do silêncio, e existe uma edição que foi feita especificamente para tornar a obra dela acessível, não mencioná-la é deixar de contar parte da história. É como contar a história de um resgate sem mencionar quem fez o resgate.

Mark

Mas o jornal disse que todos os cinco livros estavam citados em outras reportagens. Não é suficiente?

Mimi

Não, porque contexto importa. Se você está anunciando relançamentos separados, o leitor precisa saber que existe uma edição completa. Caso contrário, ele fica com uma visão fragmentada. É a diferença entre informar e informar bem.

Mark

E quanto ao caso da JBS? Parece mais grave—dados questionáveis sendo publicados.

Mimi

É grave de forma diferente. Aqui há uma questão de precisão. A ONG usou a palavra "possivelmente", mas a reportagem soou mais certa do que isso. Quando a empresa contestou, o jornal deveria ter sido mais claro sobre o grau de certeza dos dados. Em vez disso, a resposta da JBS foi publicada de um jeito que fez parecer que o jornal estava admitindo erro, quando na verdade não estava.

Mark

Então o problema é comunicação?

Mimi

É comunicação e integridade. Se você publica dados que depois precisam ser revistos, você tem obrigação de ser transparente sobre isso. E se uma fonte contesta, você não pode deixar a resposta dela ser publicada de forma que confunda o leitor sobre o que realmente aconteceu.

  • Editor Luis Dolhnikoff questionou omissão da edição de 2015 da 'Poesia Completa' de Orides Fontela em reportagens da Folha
  • Três edições completas da obra de Fontela foram publicadas: 1988, 2006 e 2015
  • JBS contestou dados de ONG publicados pela Folha sobre irregularidades na cadeia de carne bovina
  • Documento da ONG foi modificado dias após questionamento interno da Folha

Editor Luis Dolhnikoff questionou omissão da Folha ao não mencionar edição de 2015 da 'Poesia Completa' de Orides em reportagens sobre a poeta homenageada da Flip. Jornal também enfrentou contestação da JBS sobre dados de ONG publicados em reportagem sobre irregularidades na cadeia de carne bovina, com discrepâncias entre relatório original e versão modificada.

Coluna de ombudsman critica decisões editoriais da Folha sobre cobertura da poeta Orides Fontela na Flip e questiona tratamento dado a denúncias contra JBS.

A Folha de S.Paulo construiu sua reputação justamente pela capacidade de abrigar controvérsias em suas páginas. O jornal mantém até um verbete dedicado a "polêmicas" em seu Manual da Redação, não como exercício de disputa pela disputa, mas como ferramenta para examinar os múltiplos ângulos de uma história. Diante disso, causa estranheza a tranquilidade com que o jornal ignorou uma controvérsia que envolveu sua própria cobertura da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty que terminou no fim de julho.

A questão girava em torno de Orides Fontela, a poeta homenageada do evento. Uma semana antes do festival, Luis Dolhnikoff, editor responsável pela edição de 2015 da "Poesia Completa" de Fontela pela editora Hedra, publicou um questionamento sobre decisões editoriais relacionadas à obra da poeta. Ele apontava especificamente a ausência de menção ao seu livro em textos que a Folha havia publicado meses antes sobre Fontela. "Se a Flip resgata do silêncio a 'proleta' Orides Fontela, e se Orides foi aclamada pela crítica e é pouco conhecida do público, como não referir uma edição feita para tornar sua obra mais acessível do que jamais fora?", questionava Dolhnikoff, citando diretamente uma das reportagens que anunciava relançamentos em volumes separados.

O livro de 2015 não era desconhecido pela Folha nem insignificante no contexto de um "resgate" da poeta. Augusto Massi, editor e professor que trabalhou no jornal, relatou em entrevista que em 1986 havia feito uma matéria com Orides para a Folha, pedindo pessoalmente ao diretor de Redação Otavio Frias Filho para dedicar uma página inteira à poeta. Massi organizou posteriormente três edições completas da obra de Fontela: uma em 1988 pela Duas Cidades, outra em 2006 como "Poesia Reunida", e finalmente a "Poesia Completa" em 2015. "Qual o poeta que, ainda vivo ou pouco tempo depois de sua morte, teve tantas edições de sua obra completa?", perguntava Massi, sublinhando a importância do trabalho editorial realizado.

Walter Porto, editor de Livros da Folha, respondeu que embora pudessem ter citado o livro de 2015, não considerava isso uma omissão grave, já que todos os cinco livros da autora estavam mencionados em outras reportagens. Afirmou ainda que a coletânea anterior havia sido mencionada na matéria sobre a mesa de abertura da Flip. Mas reconhecer o trabalho anterior teria tido um efeito colateral: ajudar a dar conta da complexidade da própria poeta, que ela mesma descrevia como "às vezes me chamam de briguenta".

A controvérsia sobre Fontela não era mera picuinha acadêmica. Havia questões concretas em jogo: Dolhnikoff afirmava que a "Poesia Completa" não estava esgotada e havia sido retirada do mercado e apagada do site da editora. A Hedra contestou em nota, mas não a publicou em suas redes nem a distribuiu à imprensa—o texto circulou apenas a partir de um perfil pessoal no Facebook. A editora respondeu que tinha orgulho da edição de 2015, que sua tiragem estava esgotada, e que o título constava do site como esgotado, além de ser citado na bibliografia das novas edições. Durante a produção intensiva da nova coleção, explicava a Hedra, a página havia saído do ar, mas essa decisão operacional já havia sido revertida.

Em paralelo, a Folha enfrentava outra contestação editorial, desta vez da JBS sobre dados publicados em reportagem baseada em documento da ONG Mighty Earth sobre irregularidades na cadeia de carne bovina. A reportagem afirmava que a planta da JBS em Araguaína (TO) havia comprado gado indiretamente de seis fornecedores que figuravam na lista suja do trabalho análogo à escravidão entre 2016 e 2023. A empresa contestou, declarando que todas as compras citadas no relatório que puderam ser identificadas foram regulares. Quando a JBS voltou a cobrar provas e dados em réplica publicada no dia 17, o jornal afirmou que a Mighty Earth reafirmara a existência dos registros. Uma manifestação posterior da empresa saiu no Painel do Leitor no dia 18, mas o modo como foi publicada—no pé da seção e sem vinheta—deixou a situação confusa, com um cabeçalho que poderia levar a crer que o jornal estivesse admitindo problemas: "Folha admite desconhecer dados que usa para acusar JBS".

Houve, porém, ruído na reportagem original. O documento da ONG afirmava que os frigoríficos "possivelmente" tiveram como fornecedores indiretos fazendas que figuravam na Lista Suja, mas a reportagem da Folha soava mais assertiva. Quando questionada internamente sobre essa discrepância, a Redação levou a questão à ONG. O documento foi modificado dias depois, incorporando informações que haviam sido editadas na versão anterior e incluindo dados de 19 documentos oficiais de trânsito animal. Mas a frase final aparecia interrompida no documento. A ONG foi procurada para esclarecimentos, mas não respondeu.

Os dois casos revelam uma tensão entre os princípios editoriais declarados da Folha—a busca pela contradição e múltiplos ângulos—e as decisões práticas de cobertura que podem omitir contextos relevantes ou apresentar informações com imprecisões. Num momento em que o jornal mobiliza equipes inteiras para cobrir eventos como a Flip e mantém programação própria no festival, a questão é se essa intensidade de cobertura está sendo acompanhada pela mesma atenção aos detalhes e complexidades que definem o jornalismo de qualidade.

Se a Flip resgata do silêncio a 'proleta' Orides Fontela, como não referir uma edição feita para tornar sua obra mais acessível?
— Luis Dolhnikoff, editor
Qual o poeta que, ainda vivo ou pouco tempo depois de sua morte, teve tantas edições de sua obra completa?
— Augusto Massi, editor e professor
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