Longevidade redefine papel dos avós, que assumem cuidados e gastos com netos

Idosos nas periferias trabalham além da aposentadoria para sustentar famílias sem receber cuidados equivalentes, enfrentando descompasso entre longevidade e qualidade de vida.
É vó 24 horas, sem satisfação maior
Izede Zago, aos 77 anos, descreve sua vida dedicada aos cuidados contínuos com os netos.
Mark

Por que essa mudança está acontecendo agora, especificamente?

Mimi

A longevidade aumentou, mas o custo de vida disparou ao mesmo tempo. Moradia, educação, saúde — tudo ficou mais caro. Os pais trabalham mais, ganham menos em termos reais. Os avós, que vivem mais e têm mais saúde, viram-se como a solução natural.

Mark

E por que recai principalmente sobre as mulheres?

Mimi

Porque o cuidado sempre recaiu sobre as mulheres. Quando a responsabilidade se estende além do casal, procura-se a mãe da mãe, a sogra. Os avôs aparecem muito menos. É uma continuação de um padrão antigo em um contexto novo.

Mark

Há benefícios reais para os avós nessa situação?

Mimi

Sim, a ciência mostra que há. A convivência com os netos melhora a saúde emocional, a memória, até a função pulmonar. Mas isso não significa que o custo não exista. É um benefício que vem junto com uma sobrecarga.

Mark

E nas periferias, é diferente?

Mimi

Completamente. Lá, os avós sustentam as famílias com aposentadoria ou trabalho informal, mas não recebem o mesmo retorno de cuidado. Vivem mais, mas sem qualidade de vida equivalente. É um descompasso brutal.

Mark

O que os especialistas dizem que deveria acontecer?

Mimi

Que o apoio tenha limites. Que as responsabilidades sejam divididas entre outros familiares. Que os avós tenham tempo para lazer e autocuidado. Mas a realidade é que muitos não têm essa escolha.

  • A proporção de brasileiros acima de 50 anos que cuida de alguém saltou de 37% para 57% em apenas oito anos, sinalizando uma reconfiguração silenciosa e acelerada das famílias.
  • O custo de vida elevado, as jornadas longas de trabalho e o crescimento das famílias monoparentais empurram avós para funções que vão muito além do afeto — eles pagam faculdades, aluguel e alimentação.
  • A carga recai de forma desproporcional sobre mulheres idosas, enquanto 17% das mães entrevistadas afirmam não contar com nenhum tipo de apoio familiar.
  • Nas periferias, idosos sustentam famílias inteiras com aposentadoria ou trabalho informal, mas raramente recebem cuidados equivalentes — criando um descompasso cruel entre longevidade e qualidade de vida.
  • Especialistas alertam que, sem limites claros e divisão de responsabilidades, o amor intergeracional pode se converter em sobrecarga invisível e adoecimento dos mais velhos.

No Brasil contemporâneo, a longevidade transformou silenciosamente o lugar dos avós na família: não mais apenas guardiões da memória e do afeto, eles se tornaram pilares financeiros e cuidadores permanentes de filhos e netos. Uma pesquisa de 2026 revela que 57% dos brasileiros acima de 50 anos cuidam de alguém — reflexo de um tempo em que viver mais não significa, necessariamente, viver melhor. O desafio que emerge é antigo em sua essência: como uma sociedade honra aqueles que, por amor ou necessidade, sustentam as gerações seguintes sem que ninguém os sustente de volta.

Izede Zago tem 77 anos e ainda prepara marmitas para o neto de 21, que dorme em seu apartamento quando precisa chegar cedo ao trabalho. Irani Calegari Silva, aos 70, e seu marido, aos 76, pagam a faculdade de arquitetura da neta e viajam com ela regularmente. Esses casos não são exceção — são o retrato de uma transformação profunda nas famílias brasileiras, onde avós deixaram de ser figuras de sabedoria e afeto para se tornarem sustentáculos financeiros e cuidadores permanentes.

Os números confirmam a tendência. A pesquisa Tsunami Prateado, realizada em 2026 com mais de 3 mil brasileiros, mostra que 57% dos acima de 50 anos cuidam de alguém — ante 37% em 2018. Quatro em cada dez apoiam financeiramente os filhos, frequentemente para a criação dos netos. O fenômeno responde a mudanças estruturais: longevidade maior, custo de vida mais alto, jornadas de trabalho mais longas e crescimento das famílias monoparentais. Quando o cuidado se expande além do casal, ele recai sobretudo sobre outras mulheres — mães e sogras —, enquanto 17% das entrevistadas afirmam não contar com nenhum apoio.

A ciência aponta benefícios reais nessa convivência: participar da vida dos netos melhora a saúde física e emocional dos mais velhos, com reflexos na memória, na função pulmonar e no bem-estar geral. Mas a realidade não é uniforme. Nas periferias, idosos sustentam famílias inteiras com aposentadoria ou trabalho informal sem receber cuidados equivalentes. Sete em cada dez acima dos 50 anos nessas regiões convivem mais com netos, e cerca de 41% vivem do trabalho autônomo, muitas vezes informal. Pesquisadores descrevem um descompasso entre três tempos: viver mais, manter a saúde e ter autonomia financeira.

Especialistas defendem que o apoio precisa ter limites, com preservação do tempo de lazer e autocuidado dos avós. A coordenadora da pesquisa Tsunami Prateado observa que nunca na história humana a expectativa de vida foi tão longa — mas a questão central permanece aberta: como garantir que esses anos extras sejam vividos com qualidade, e não convertidos em sobrecarga silenciosa para aqueles que, por amor ou necessidade, continuam sustentando as gerações que chegam depois.

Izede Zago tem 77 anos e passa os dias em seu apartamento preparando marmitas para o neto Theo, que aos 21 trabalha e às vezes dorme lá quando precisa chegar cedo à empresa. Ela criou duas filhas, ajudou a criar três netos que passavam as tardes em sua casa enquanto os pais trabalhavam, e agora continua tecendo o dia a dia deles com pequenos gestos — a comida pronta, o espaço disponível, a presença. "Não tem satisfação maior. É vó 24 horas", diz ela.

Em outra casa, Irani Calegari Silva, aos 70 anos, e seu marido José Alberto, aos 76, pagam a faculdade de arquitetura da neta Rebecca, de 20 anos. Os três vão juntos à academia, viajam juntos, e tudo é custeado pelos avós. "Dissemos: 'Se você quiser fazer, pode fazer que a gente assume'", conta Irani. Esses dois casos não são exceção. Eles ilustram uma transformação profunda na estrutura das famílias brasileiras, onde avós deixaram de ser apenas figuras de sabedoria e afeto para se tornarem pilares financeiros e cuidadores permanentes.

Os números confirmam o que essas histórias sugerem. Uma pesquisa chamada Tsunami Prateado, realizada pela data8 em 2026 com mais de 3 mil brasileiros, mostra que a proporção de pessoas acima dos 50 anos que cuida de alguém saltou de 37% em 2018 para 57% em 2026. Desses, quatro em cada dez apoiam financeiramente os filhos — muitas vezes para a criação dos netos — e dois em cada dez dizem ter como maior medo ver filhos ou netos mal sucedidos na profissão. A pesquisa ouviu brasileiros em todo o país entre 8 e 12 de fevereiro, com margem de erro de 1,7 ponto percentual.

O fenômeno responde a mudanças estruturais na sociedade. A longevidade aumentou, deixando avós fisicamente mais aptos e disponíveis por mais tempo. Simultaneamente, o custo de vida disparou — moradia, alimentação, educação e saúde ficaram mais caros. As jornadas de trabalho dos pais se estenderam. Cresceram as famílias monoparentais, as separações conjugais, as dificuldades econômicas. Alisson Guiotto, psicólogo e mestre em ciências do envelhecimento pela Universidade Cruzeiro do Sul, explica que muitos avós hoje assumem funções permanentes no cuidado dos netos e até no orçamento doméstico por conta dessas mudanças na dinâmica social. Quando o cuidado se estende para além do casal, ele recai principalmente sobre outras mulheres: 31% contam com a ajuda da própria mãe e 10% da sogra. Avôs, sogros, irmãos e outros familiares aparecem com participação muito menor. Dezessete por cento das mulheres entrevistadas afirmam não contar com nenhum tipo de apoio, enfrentando sozinhas a maior parte dos cuidados.

A ciência mostra que há impactos positivos nessa convivência. A participação dos avós na vida dos netos traz benefícios para a saúde física e emocional dos mais velhos, com reflexos no bem-estar psicológico, na memória, na função pulmonar e na percepção geral de qualidade de vida. Mirian Rodrigues, presidente do CineMaterna, uma organização que promove sessões de cinema para mães, ressalta a convivência entre gerações como um fator positivo. "As avós são, muitas vezes, um porto seguro para as mães. Celebrar o Dia dos Avós é reconhecer esse trabalho de cuidado, que tantas vezes acontece de forma silenciosa e pouco valorizada."

Mas a realidade não é uniforme. Um estudo chamado "Velhices Periféricas: o descompasso entre os tempos de viver, trabalhar, cuidar e sustentar", também da data8, revela uma divisão brutal. Nas periferias, o envelhecer faz com que os mais velhos permaneçam como sustento das famílias com a renda da aposentadoria ou do trabalho informal, mas sem ter o mesmo retorno do cuidado. Sete em cada dez pessoas acima dos 50 anos nas periferias afirmam ter mais netos e conviver mais com eles, e cerca de 41% vivem do trabalho autônomo, muitas vezes informal. Adriana de Queiroz, administradora pública e uma das coordenadoras do levantamento, descreve um descompasso entre três tempos: viver mais, manter a saúde e ter autonomia financeira. A longevidade aumentou, mas a qualidade de vida e a renda não acompanharam esse avanço.

Os especialistas defendem que o apoio precisa ter limites, com divisão das responsabilidades entre outros familiares e preservação do tempo de lazer e autocuidado dos avós. Lívia Hollerbach, coordenadora da pesquisa Tsunami Prateado, que estuda o envelhecimento e o comportamento na maturidade em toda a América Latina em parceria com o BID, observa que nunca na história da humanidade o ser humano atingiu expectativa de vida tão longa. "Mas uma coisa é como a gente vai gerenciar esses anos para que a gente viva com mais qualidade", diz. O desafio agora é garantir que essa longevidade não se converta em sobrecarga silenciosa para aqueles que, por amor ou necessidade, continuam sustentando as gerações que vêm depois.

Dissemos: 'Se você quiser fazer, pode fazer que a gente assume'
— Irani Calegari Silva, avó que paga a faculdade da neta
As avós são, muitas vezes, um porto seguro para as mães. Celebrar o Dia dos Avós é reconhecer esse trabalho de cuidado, que tantas vezes acontece de forma silenciosa e pouco valorizada
— Mirian Rodrigues, presidente do CineMaterna
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