Em um momento em que o mundo buscava respostas para a pandemia, a Universidade de Oxford decidiu não aceitar o silêncio regulatório como resposta definitiva: em junho de 2021, incluiu a ivermectina — um antiparasitário já usado informalmente em vários países — em seu grande ensaio clínico Principle, financiado pelo governo britânico. A iniciativa reconhece que a distância entre o que as agências recomendam e o que as populações praticam só pode ser reduzida com evidências rigorosas, não com proibições. Oxford apostou que a ciência, feita com método, tem o dever de iluminar até as controvérsias
Oxford testa ivermectina contra Covid-19 apesar de recomendações contrárias de OMS
Gerar evidências robustas para determinar quão eficaz é esse tratamento
Por que Oxford decidiria testar algo que a OMS já recomendou contra?
Porque os dados de laboratório mostravam algo promissor — redução viral em culturas, e um pequeno piloto sugeriu benefício em sintomas leves. Quando há uma lacuna entre o que funciona no tubo de ensaio e o que sabemos clinicamente, ensaios rigorosos são a forma de resolver isso.
Mas espera — o piloto foi pequeno. Quanto pequeno? E quem financiou? Porque há uma diferença entre "promissor" e "pronto para um grande ensaio".
O texto não especifica o tamanho exato do piloto. Sabemos que foi pequeno, que mostrou redução de carga viral e duração de sintomas em alguns pacientes com Covid leve. Mas você está certo — não temos os números.
E quanto aos países que já estavam usando? Isso não deveria ter gerado dados que Oxford pudesse analisar?
Teoricamente sim. Mas dados de uso no mundo real — especialmente em países com sistemas de vigilância menos robustos — não são a mesma coisa que um ensaio clínico controlado. Oxford queria evidências que pudessem ser comparadas diretamente.
Então a questão real é: por que a OMS disse não, mas Oxford disse talvez? Qual é a diferença no padrão de prova que cada um está usando?
A OMS estava olhando para o conjunto de evidências disponível e disse que não havia base suficiente. Oxford estava dizendo: há sinais suficientes para justificar um teste maior e mais rigoroso. Não é que uma esteja certa e a outra errada — é que estão respondendo perguntas ligeiramente diferentes.
O Pulso
- A ivermectina já era usada amplamente no Brasil, na Índia e na Argentina sem respaldo científico sólido, criando uma tensão crescente entre prática popular e orientação oficial.
- A OMS, o FDA e agências europeias haviam recomendado explicitamente contra o uso do antiparasitário para Covid-19, tornando a decisão de Oxford uma ruptura visível com o consenso internacional.
- Estudos laboratoriais mostraram redução na replicação viral, e um pequeno ensaio piloto sugeriu possível encurtamento dos sintomas — evidências preliminares suficientes para justificar uma investigação mais ampla, mas não para validar o uso clínico.
- Oxford estruturou o ensaio com critérios rígidos de segurança, excluindo pacientes com problemas hepáticos graves ou em uso de varfarina, sinalizando que a pesquisa levava a sério os riscos potenciais.
- O objetivo declarado era duplo: medir a eficácia real do tratamento e identificar possíveis danos — uma tentativa de transformar uma questão politicamente carregada em dado científico verificável.
- O ensaio Principle avançava em território já marcado por fracassos: azitromicina e doxiciclina haviam sido descartadas pelo mesmo programa em janeiro, e a ivermectina se tornava o sétimo tratamento a enfrentar o escrutínio rigoroso de Oxford.
Em um momento em que o mundo buscava respostas para a pandemia, a Universidade de Oxford decidiu não aceitar o silêncio regulatório como resposta definitiva: em junho de 2021, incluiu a ivermectina — um antiparasitário já usado informalmente em vários países — em seu grande ensaio clínico Principle, financiado pelo governo britânico. A iniciativa reconhece que a distância entre o que as agências recomendam e o que as populações praticam só pode ser reduzida com evidências rigorosas, não com proibições. Oxford apostou que a ciência, feita com método, tem o dever de iluminar até as controvérsias mais incômodas.
Em junho de 2021, a Universidade de Oxford anunciou que adicionaria a ivermectina ao seu ensaio clínico Principle, um amplo programa financiado pelo governo britânico para testar tratamentos contra a Covid-19 em pacientes nos estágios iniciais da doença, fora do ambiente hospitalar. A decisão chamou atenção imediata: a OMS, o FDA e agências reguladoras europeias já haviam se posicionado contra o uso do antiparasitário para tratar a doença.
A base científica para a inclusão era modesta, mas existia. Testes laboratoriais haviam indicado redução na replicação viral, e um estudo piloto anterior sugeriu que, administrado precocemente, o medicamento poderia diminuir a carga viral e encurtar a duração dos sintomas em casos leves. Esses dados preliminares foram suficientes para que Oxford justificasse uma investigação em larga escala — a sétima do programa, conduzida em paralelo com testes do antiviral favipiravir.
Chris Butler, vice-chefe do Principle, foi direto sobre o propósito: gerar evidências robustas que respondessem, de forma definitiva, se a ivermectina funcionava e se havia riscos associados ao seu uso. Era uma aposta de que o rigor científico poderia resolver o que o debate regulatório não havia conseguido encerrar na prática — afinal, o medicamento já era amplamente utilizado no Brasil, na Índia e na Argentina, independentemente das recomendações oficiais.
Para garantir a segurança dos participantes, Oxford estabeleceu critérios de exclusão claros: pessoas com problemas hepáticos graves ou em uso de varfarina e outros medicamentos com interações conhecidas não poderiam participar. O ensaio representava, assim, uma divergência calculada entre a pesquisa acadêmica britânica e o consenso das principais autoridades de saúde globais — uma aposta de que dados rigorosos valem mais do que posições institucionais, mesmo quando essas posições já apontam para o mesmo destino.
A Universidade de Oxford anunciou na quarta-feira que incluiria a ivermectina, um antiparasitário conhecido, entre os medicamentos testados contra a Covid-19 em um grande ensaio clínico financiado pelo governo britânico. O medicamento seria administrado em ambientes fora do hospital, focando em pacientes nos estágios iniciais da doença.
Os pesquisadores de Oxford apontaram que testes de laboratório haviam demonstrado uma redução na replicação viral quando a ivermectina era usada. Um pequeno estudo piloto anterior sugeriu que quando administrado cedo, o medicamento poderia diminuir a carga viral e encurtar a duração dos sintomas em alguns pacientes com Covid-19 leve. Esses resultados preliminares forneceram a base científica para incluir a droga no ensaio mais amplo.
O projeto, chamado Principle, já havia testado outros tratamentos. Em janeiro, o mesmo estudo havia revelado que dois antibióticos — azitromicina e doxiciclina — não se mostraram eficazes contra a Covid-19 nos estágios iniciais. A ivermectina seria o sétimo tratamento investigado no programa, sendo avaliada simultaneamente com o antiviral favipiravir.
Mas havia uma tensão clara no anúncio. A Organização Mundial da Saúde, junto com agências reguladoras dos Estados Unidos e da União Europeia, havia recomendado explicitamente contra o uso da ivermectina para tratar Covid-19. Apesar dessa orientação internacional, o medicamento estava sendo usado para esse fim em vários países — Brasil, Índia e Argentina entre eles — onde havia demanda por tratamentos e menos restrições regulatórias.
Chris Butler, vice-chefe do projeto Principle, explicou o raciocínio por trás da decisão. Ao incluir a ivermectina em um ensaio clínico de grande escala, Oxford esperava gerar evidências sólidas que pudessem responder definitivamente duas perguntas: quão eficaz era realmente o tratamento contra Covid-19, e se havia benefícios ou danos associados ao seu uso. Em outras palavras, a universidade estava tentando resolver uma questão que as agências reguladoras já haviam respondido negativamente, usando dados rigorosos.
A universidade estabeleceu critérios claros para quem poderia participar do teste. Voluntários com problemas hepáticos graves seriam excluídos. O mesmo valia para quem estivesse tomando varfarina, um medicamento para afinar o sangue, ou outros fármacos conhecidos por interagir com a ivermectina. Essas restrições refletiam preocupações legítimas sobre segurança e possíveis efeitos colaterais.
O ensaio representava um momento de divergência entre a pesquisa acadêmica britânica e o consenso das principais autoridades de saúde global. Oxford estava apostando que dados clínicos rigorosos poderiam esclarecer uma questão que permanecia aberta na prática médica real, mesmo que as agências internacionais tivessem se posicionado contra o medicamento.
Citações Notáveis
Ao incluir a ivermectina em um ensaio clínico de grande escala como o Principle, o que esperamos é gerar evidências robustas para determinar quão eficaz esse tratamento contra a Covid-19 é e se há benefícios ou danos associados ao seu uso— Chris Butler, vice-chefe do projeto Principle