Brasil gasta 45 bilhões de dólares com diabetes em 2025, sendo o terceiro país no mundo; 10,2% da população tem diagnóstico médico da doença. Pesquisa mostra que usuários de sensor de glicose têm 38-42% menor chance de complicações microvasculares e macrovasculares comparado a não usuários.
Organizações promovem capacitação em diabetes para profissionais do SUS
Profissionais bem preparados fazem diferença na adesão ao tratamento
Por que uma capacitação de profissionais é a resposta certa para esse problema? Não seria mais direto investir em tecnologia para os pacientes?
Os dois são necessários, mas você não consegue distribuir tecnologia sem profissionais que entendam como usá-la e por quê. Um sensor de glicose nas mãos de alguém que não sabe interpretar os dados é apenas um aparelho caro.
Mas a pesquisa mostra correlação, não causalidade. Pessoas que usam sensores têm menos complicações — mas será que é porque o sensor previne complicações, ou porque pessoas com mais acesso a recursos já têm melhor controle?
Ótima pergunta. A pesquisa não responde isso completamente. Mas o ponto é que o acesso à tecnologia está ligado a melhores resultados, e os profissionais precisam saber disso para orientar seus pacientes.
Então a capacitação é sobre ensinar aos médicos e enfermeiros que essa tecnologia funciona?
Não só isso. É sobre entender diabetes em profundidade — complicações, como monitorar, quando intervir. Profissionais bem preparados fazem diferença na adesão.
Uma coisa me intriga: a pesquisa teve 1.411 participantes. Isso é uma amostra razoável, mas como foi selecionada? Pessoas que já usam sensores talvez sejam mais engajadas com o tratamento de forma geral.
É um viés possível, sim. Mas mesmo assim, os números são significativos o suficiente para justificar investir em melhor preparo dos profissionais.
E quanto aos gastos? 45 bilhões de dólares por ano — isso é sustentável?
Não. Por isso a lógica é: invista em prevenção de complicações agora, economize em hospitalizações depois. Profissionais bem treinados são parte dessa estratégia.
Mas ninguém sabe ainda se essa capacitação vai realmente mudar os números de adesão ou de complicações. Isso é uma aposta.
Verdade. Mas é uma aposta informada pelos dados que temos.
Le Pouls
- Brasil gasta 45 bilhões de dólares com diabetes em 2025, terceiro país no mundo
- 10,2% da população brasileira tem diagnóstico médico de diabetes; 11,1% entre mulheres, 9,1% entre homens
- Usuários de sensores de glicose têm 38-42% menor risco de complicações microvasculares e macrovasculares
- Capacitação ocorre em 12 de setembro, das 8h às 15h30, na Universidade Iguaçu em Nova Iguaçu
Brasil gasta 45 bilhões de dólares com diabetes em 2025, sendo o terceiro país no mundo; 10,2% da população tem diagnóstico médico da doença. Pesquisa mostra que usuários de sensor de glicose têm 38-42% menor chance de complicações microvasculares e macrovasculares comparado a não usuários.
Vozes do Advocacy e associações de diabéticos promovem projeto 'Educar para Salvar' em 12 de setembro para capacitar profissionais do SUS sobre diabetes e complicações, visando melhorar adesão ao tratamento.
No dia 12 de setembro, a Universidade Iguaçu em Nova Iguaçu sediará um encontro que reúne organizações de defesa de pacientes, associações comunitárias e a rede pública de saúde em torno de um objetivo comum: preparar melhor os profissionais que atendem pessoas com diabetes. O projeto Educar para Salvar, que funcionará das 8 da manhã até as 15h30, nasceu da constatação de que o conhecimento inadequado entre os profissionais do SUS contribui para a falta de adesão ao tratamento — e que essa falta de adesão, por sua vez, abre caminho para as complicações mais graves da doença.
O cenário que motiva essa iniciativa é impressionante em escala. Em 2025, o Brasil despendeu 45 bilhões de dólares com custos relacionados ao diabetes, posicionando o país como o terceiro maior investidor nessa condição em todo o mundo, segundo o Atlas 2025 da Federação Internacional do Diabetes. Ao mesmo tempo, dados da Pesquisa Vigitel mostram que 10,2% da população brasileira recebeu diagnóstico médico de diabetes — proporção que sobe para 11,1% entre as mulheres e cai para 9,1% entre os homens. Esses números revelam não apenas a magnitude do problema, mas também uma desigualdade de gênero que merece atenção.
O que torna a capacitação particularmente urgente é uma descoberta recente sobre como a tecnologia de monitorização pode mudar o curso da doença. Uma pesquisa inédita do Vozes do Advocacy, divulgada em maio e baseada em entrevistas com 1.411 adultos diagnosticados com diabetes, mapeou a relação entre acesso a sensores de glicose e o surgimento de complicações. Os números são reveladores: entre as pessoas que usam atualmente o sensor de glicose, 77,3% não apresentam complicações, enquanto apenas 12,4% têm uma complicação e 10,3% têm duas ou mais. Quando se compara com quem nunca usou a tecnologia, o quadro se inverte — apenas 53,3% não têm complicações, 24% têm uma e 22,8% têm duas ou mais.
Traduzindo esses percentuais em risco: os usuários atuais de sensores de glicose apresentam aproximadamente 38% menor chance de sofrer complicações microvasculares, como retinopatia, doença renal e neuropatia. A redução no risco de complicações macrovasculares — doenças cardiovasculares e amputações — é ainda mais expressiva, chegando a 42%. Para complicações crônicas em geral, a redução é de 34%. Essas diferenças não são triviais; elas representam a diferença entre uma vida com autonomia e uma vida marcada por internações recorrentes e perda de capacidade funcional.
A iniciativa reúne forças de múltiplos setores. O Vozes do Advocacy, a Associação dos Diabéticos e Familiares de Tanguá e a Associação de Diabetes de Nova Iguaçu trabalham em parceria com a Secretaria de Saúde de Nova Iguaçu e com ligas acadêmicas de Medicina da Família e Comunidade, Endocrinologia e Metabologia, Políticas Públicas em Saúde e Gestão em Saúde de Iguaçu. Seis empresas do setor farmacêutico e de saúde — Amgen, Bayer, Chiesi, Libbs, Merck e Sanofi — oferecem apoio financeiro.
Ana Maria Batista, presidente da Associação dos Diabéticos e Familiares de Tanguá, articula a lógica por trás do projeto com clareza: o diabetes é uma condição que demanda acesso simultâneo a insumos, medicamentos, tratamento multidisciplinar com profissionais bem preparados e educação contínua para o próprio paciente. Quando um desses elementos falha, toda a cadeia se quebra. A aposta é que, ao elevar o conhecimento dos profissionais de saúde — particularmente sobre diabetes, suas complicações, doença ocular da tireoide e lipodistrofia generalizada congênita — será possível melhorar a adesão ao tratamento. E melhor adesão significa menos hospitalizações, menos internações prolongadas e, portanto, menos pressão sobre os gastos do SUS.
O projeto representa uma tentativa de fechar uma lacuna que a pesquisa do Vozes do Advocacy identificou com precisão: a desigualdade social está profundamente entrelaçada com o acesso à tecnologia de monitorização. Quem tem acesso aos sensores de glicose consegue controlar melhor a glicemia no médio e longo prazos — e esse controle é exatamente o que previne as complicações mais incapacitantes. Profissionais de saúde melhor informados podem orientar seus pacientes com maior segurança, ajudá-los a navegar os sistemas de acesso aos insumos e reforçar a importância da adesão. No dia 12 de setembro, essa cadeia de conhecimento e cuidado tenta se fortalecer.
Citations marquantes
O diabetes é uma condição que requer acesso aos insumos e aos medicamentos, tratamento multidisciplinar com profissionais devidamente capacitados e educação em diabetes para as pessoas que convivem com a condição— Ana Maria Batista, presidente da Associação dos Diabéticos e Familiares de Tanguá