OMS pede moratória em reforços de vacinação até setembro para favorecer países pobres

Milhões de pessoas em países pobres, principalmente africanos, permanecem desprotegidas contra covid-19 devido à distribuição inequitativa de vacinas.
Necessitamos urgentemente de mudar as coisas
Tedros Adhanom Ghebreyesus pedindo redirecionamento de vacinas dos países ricos para os pobres.
Mark

Por que a OMS escolheu setembro como data limite para essa moratória? Parecia arbitrário?

Mimi

Não era arbitrário. Tedros havia estabelecido em maio um objetivo de ter 10% da população mundial vacinada até setembro. A moratória era uma tentativa de criar espaço para que isso fosse possível. Se os países ricos continuassem desviando doses para reforços, esse objetivo morreria.

Mark

Mas Israel já tinha começado com a terceira dose. Como pedir moratória quando alguns países já estavam avançando?

Mimi

Exatamente o problema. Tedros estava pedindo para que parassem algo que já tinha começado. Era um apelo a uma mudança de direção em tempo real, o que é muito mais difícil politicamente do que nunca ter começado.

Mark

O Covax tinha 92 países pobres como beneficiários. Por que não conseguiu cumprir sua missão?

Mimi

Porque não tinha doses. As farmacêuticas estavam priorizando contratos com países ricos, que pagavam mais e tinham poder de negociação. O Covax dependia de doações e de priorização voluntária. Nenhuma das duas coisas estava acontecendo em escala suficiente.

Mark

Tedros mencionou que precisava da cooperação de "um punhado de países e empresas". Isso significa que a solução era concentrada?

Mimi

Sim. A produção de vacinas estava nas mãos de poucas empresas. A capacidade de compra estava concentrada em países ricos. Se esses atores tivessem mudado de direção, a distribuição global teria mudado. Mas ninguém tinha incentivo para fazer isso.

Mark

Qual era o risco real de não ter 10% da população mundial vacinada até setembro?

Mimi

Deixar centenas de milhões de pessoas desprotegidas em um momento em que novas variantes estavam surgindo. Quanto mais pessoas não vacinadas, mais oportunidades o vírus tinha de mutar. Era um risco global disfarçado de problema local.

  • Com apenas 1,5% das populações pobres vacinadas, a corrida por doses de reforço nos países ricos aprofundava uma fratura global já alarmante.
  • Israel, Alemanha e Espanha avançavam com planos de terceiras doses enquanto África permanecia amplamente desprotegida — decisões soberanas que a OMS não tinha poder de travar.
  • Tedros apelou diretamente às farmacêuticas para que priorizassem o Covax, o mecanismo criado para distribuir vacinas a 92 países pobres, mas que havia falhado em cumprir sua missão fundamental.
  • A meta de vacinar 10% da população de todos os países até setembro tornava-se cada vez mais ilusória à medida que as doses eram absorvidas pelos reforços nos países ricos.
  • O apelo da OMS tinha peso moral, mas nenhum poder coercitivo — e enquanto Tedros falava em Genebra, as decisões já estavam sendo tomadas em Tel Aviv, Berlim e Madrid.

Em agosto de 2021, enquanto nações abastadas preparavam terceiras doses para seus cidadãos, o diretor-geral da OMS ergueu a voz em nome dos que ainda aguardavam a primeira: Tedros Adhanom Ghebreyesus pediu uma pausa nos reforços até setembro, para que a humanidade mais vulnerável pudesse, ao menos, começar a ser protegida. A disparidade era de uma crueza difícil de ignorar — 80% das doses globais concentradas em países que somam menos de metade da população mundial, enquanto continentes inteiros permaneciam quase inteiramente expostos. Era um apelo à equidade num momento em que a equidade estava, visivelmente, a perder.

Em agosto de 2021, com países ricos a planear doses de reforço contra a covid-19, o diretor-geral da OMS fez um pedido direto ao mundo: espere. Tedros Adhanom Ghebreyesus apelou a uma moratória nos reforços até ao final de setembro, para que os países pobres pudessem vacinar as suas populações pela primeira vez.

A realidade por detrás do apelo era brutal. De quatro mil milhões de doses administradas globalmente, 80% tinham chegado a países de médios e altos rendimentos — nações que representam menos de metade da população mundial. Nos países pobres, apenas 1,5 em cada 100 pessoas tinham recebido uma dose. África permanecia amplamente desprotegida.

Tedros falava numa videoconferência transmitida de Genebra, reagindo a movimentos concretos: Israel iniciara a administração de uma terceira dose a maiores de 60 anos para conter a variante Delta; a Alemanha anunciara reforços para idosos a partir de 1 de setembro; Espanha sinalizava intenção semelhante. O médico etíope via nessas decisões uma escolha que aprofundava a inequidade global.

O diretor-geral sabia onde residia o poder real. Apelou a um "punhado de países e empresas" que controlavam a produção mundial de vacinas, pedindo que priorizassem o Covax — o mecanismo de distribuição que beneficia 92 países pobres, mas que havia distribuído apenas uma fração do necessário. A meta que ele próprio lançara em maio — vacinar 10% da população de todos os países até setembro — tornava-se cada vez mais distante.

O pedido era simples em princípio e politicamente complexo na prática: que os países ricos esperassem alguns meses, redirecionando produção e recursos para cobrir os buracos mais profundos. Mas a OMS detinha autoridade moral, não poder coercitivo. E enquanto Tedros falava, as decisões já estavam a ser tomadas noutras capitais.

Em agosto de 2021, enquanto países ricos começavam a oferecer doses de reforço contra a covid-19 aos seus cidadãos, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde fez um apelo direto: pause. Tedros Adhanom Ghebreyesus pediu uma moratória nas doses de reforço, pelo menos até o final de setembro, para que os países pobres tivessem oportunidade de vacinar suas populações pela primeira vez.

O pedido não era teórico. Nos países ricos, praticamente toda a população tinha acesso a vacinas. Nos países pobres, apenas 1,5 pessoas em cada 100 tinham recebido uma dose. A disparidade era brutal e visível: de quatro mil milhões de doses aplicadas globalmente, 80% tinham ido para países de médios e altos rendimentos — nações que representavam menos de metade da população mundial. Enquanto isso, continentes inteiros, particularmente África, permaneciam amplamente desprotegidos.

Tedros falava durante uma videoconferência de imprensa da OMS transmitida de Genebra, reagindo a decisões que países ricos estavam tomando naquele momento. Israel tinha iniciado recentemente a administração de uma terceira dose da vacina Pfizer/BioNTech a pessoas com mais de 60 anos, buscando conter a variante Delta, mais contagiosa. A Alemanha anunciou que começaria a oferecer reforços a idosos e pessoas vulneráveis a partir de 1 de setembro. Espanha sinalizava intenção semelhante, sem datas definidas. O médico etíope via nesses movimentos uma escolha que aprofundava a inequidade.

"Necessitamos urgentemente de mudar as coisas", disse Tedros, descrevendo a urgência de passar "de uma maioria de vacinas para os países ricos para uma maioria para os países pobres". Ele havia lançado em maio um desafio ambicioso: ter 10% da população de todos os países do mundo vacinada até setembro. Mas aquele objetivo estava ficando cada vez mais distante, à medida que os países ricos desviavam doses para reforços.

O diretor-geral sabia onde estava o poder. Pediu cooperação de um "punhado de países e empresas que controlam a produção global de vacinas". Apelou especificamente aos grupos farmacêuticos para que priorizassem o Covax, o mecanismo de distribuição universal que beneficiava 92 países pobres. Mas o Covax, cogerido pela própria OMS, tinha fracassado em sua missão fundamental. Faltavam doses. Havia distribuído apenas uma pequena fração do que era necessário.

O que Tedros estava pedindo era simples em princípio, mas politicamente complexo: que os países ricos esperassem. Que deixassem as doses de reforço de lado por alguns meses. Que permitissem que farmacêuticas e governos redirecionassem produção e recursos para cobrir os buracos mais profundos. Era um apelo à equidade em um momento em que a equidade estava perdendo.

Mas havia uma questão implícita em tudo isso: quem obrigaria os países ricos a obedecer? A OMS tinha autoridade moral, não poder coercitivo. E enquanto Tedros falava em Genebra, as decisões já estavam sendo tomadas em Tel Aviv, Berlim e Madrid.

Necessitamos urgentemente de mudar as coisas: passar de uma maioria de vacinas para os países ricos para uma maioria para os países pobres
— Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS
Para chegar lá precisamos da cooperação de todos, especialmente de um punhado de países e empresas que controlam a produção global de vacinas
— Tedros Adhanom Ghebreyesus
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