Em meio à pandemia que continua ceifando vidas, a Organização Mundial da Saúde posicionou-se diante de uma das tensões mais antigas da medicina: o equilíbrio entre risco e benefício. Após doze países europeus suspenderem temporariamente a vacina Oxford/AstraZeneca diante de casos raros de distúrbios de coagulação — incluindo duas mortes de profissionais de saúde na Noruega —, o diretor europeu da OMS, Hans Kluge, defendeu a continuidade do imunizante, argumentando que seus benefícios superam amplamente os riscos ainda sob investigação. A incerteza científica, neste caso, não é sinal de falha,
OMS defende uso de vacina de Oxford apesar de casos raros de coagulação
Os benefícios superam em muito os riscos — e o uso deve continuar
Por que a OMS insistiu em defender a vacina naquele momento específico, quando havia mortes sendo investigadas?
Porque a incerteza não era a mesma coisa que culpa. Duas pessoas morreram, sim, mas ninguém conseguia provar que a vacina as matou. Enquanto isso, a covid-19 continuava matando milhares. Para a OMS, parar de vacinar era um risco maior do que continuar.
Mas como você pede a pessoas que confiem quando há corpos?
Você não pede. Você explica o contexto. Kluge lembrou que distúrbios de coagulação já existem no mundo — são comuns, na verdade. O que era raro era que agora estavam sendo investigados tão rapidamente, tão publicamente. O sistema de vigilância estava funcionando.
Então a suspensão dos 12 países foi um erro?
Não necessariamente. Foi cautela. Mas cautela indefinida vira abandono. A questão era quanto tempo investigar antes de voltar a vacinar.
E as famílias dos que morreram? O que eles ouviam naquela declaração?
Provavelmente ouviam que a morte de seus entes queridos era um risco aceitável. Isso é duro de dizer, mas é o que estava sendo dito.
A vacina acabou sendo segura?
Investigações posteriores sugeriram que os casos eram extremamente raros e que o benefício continuava superando o risco. Mas naquele momento, em março de 2021, ninguém tinha certeza de nada.
El Pulso
- Duas profissionais de saúde norueguesas morreram após receberem a vacina Oxford/AstraZeneca, com casos de coágulos e baixa contagem de plaquetas que deixaram autoridades sem respostas definitivas.
- Doze países — entre eles Alemanha, França, Itália, Portugal e Espanha — suspenderam o imunizante como medida de precaução, criando uma onda de desconfiança no coração da campanha de vacinação europeia.
- A OMS reconheceu abertamente a incerteza: ninguém sabe ainda se os distúrbios foram causados pela vacina ou por fatores coincidentes, mas isso não impediu a organização de defender a continuidade da vacinação.
- Hans Kluge reposicionou a narrativa: a detecção e investigação dos casos adversos é prova de que os mecanismos regulatórios estão funcionando, não de que a vacina é perigosa.
- A pandemia segue matando enquanto o debate se arrasta — e a OMS alerta que abandonar a vacina por precaução pode custar mais vidas do que os riscos que se tenta evitar.
Em meio à pandemia que continua ceifando vidas, a Organização Mundial da Saúde posicionou-se diante de uma das tensões mais antigas da medicina: o equilíbrio entre risco e benefício. Após doze países europeus suspenderem temporariamente a vacina Oxford/AstraZeneca diante de casos raros de distúrbios de coagulação — incluindo duas mortes de profissionais de saúde na Noruega —, o diretor europeu da OMS, Hans Kluge, defendeu a continuidade do imunizante, argumentando que seus benefícios superam amplamente os riscos ainda sob investigação. A incerteza científica, neste caso, não é sinal de falha, mas de um sistema de vigilância que funciona — embora para as famílias enlutadas, essa distinção ofereça pouco consolo.
Na manhã de 18 de março de 2021, Hans Kluge, diretor europeu da OMS, fez uma declaração que cortou o ruído de semanas de incerteza: a vacina Oxford/AstraZeneca deveria continuar em uso. Os benefícios superavam os riscos, e os países precisavam manter a vacinação para salvar vidas durante a pandemia.
O pano de fundo era perturbador. Uma semana antes, casos de coágulos sanguíneos haviam surgido em países europeus. A Dinamarca pausou as aplicações por 14 dias após um caso confirmado. A Áustria bloqueou um lote específico para investigar uma morte por coagulação e um caso de embolia pulmonar. Na Noruega, o cenário era ainda mais grave: três profissionais de saúde relativamente jovens foram hospitalizados com trombocitopenia, sangramento e coágulos — e dois deles morreram. Uma mulher com menos de 50 anos faleceu de hemorragia cerebral. Outra, nos seus 30 anos, morreu dez dias após receber a vacina.
Steinar Madsen, chefe da Agência Norueguesa de Medicamentos, foi cauteloso: "Não podemos descartar ou confirmar que isso tem relação com a vacina." Era exatamente essa incerteza que Kluge tentava contextualizar. Ele reconheceu que ninguém sabia se os distúrbios foram causados pelo imunizante ou por fatores coincidentes — mas argumentou que a própria detecção e investigação dos casos era sinal de que os sistemas de vigilância regulatória estavam funcionando como deveriam.
Kluge também lembrou um dado frequentemente esquecido: o tromboembolismo venoso já é a terceira doença cardiovascular mais comum no mundo, independentemente de qualquer vacina. Até aquele momento, doze países haviam suspendido o uso do imunizante — entre eles Alemanha, França, Itália, Espanha e Portugal. Cada suspensão era uma pausa para investigar, não necessariamente uma condenação.
Mas a tensão permanecia. Duas pessoas haviam morrido. Os investigadores não conseguiam estabelecer causalidade. E a pandemia continuava. A OMS pedia confiança na ciência e na proteção que as vacinas oferecem. Para muitos, porém — especialmente para as famílias das vítimas —, essa confiança era algo muito mais difícil de sustentar.
Na quinta-feira, 18 de março, Hans Kluge, diretor europeu da Organização Mundial da Saúde, fez uma declaração clara: a vacina de Oxford/AstraZeneca contra a covid-19 deveria continuar sendo usada. Seus benefícios, afirmou, superavam em muito qualquer risco — e os países precisavam manter o imunizante em circulação para salvar vidas durante a pandemia. A declaração chegava em um momento de turbulência. Vários países europeus haviam suspendido temporariamente a vacina após relatos de um pequeno número de casos de distúrbios raros de coagulação sanguínea em pessoas que a receberam.
O debate havia começado uma semana antes, quando casos de coágulos no sangue surgiram em países da Europa. A Dinamarca, onde um caso foi confirmado, pausou a aplicação por 14 dias. A Áustria foi além: bloqueou doses de um lote específico (ABV5300) para investigar uma morte por problemas de coagulação e um caso de embolia pulmonar. Mas o número total de problemas de saúde relatados permanecia incerto. No sábado anterior, 13 de março, a Noruega havia reportado algo mais alarmante: três profissionais de saúde hospitalizados com trombocitopenia — um número anormalmente baixo de plaquetas — além de sangramento e coágulos. Todos eram relativamente jovens e haviam recebido a vacina de Oxford/AstraZeneca.
Dois deles morreram. Uma mulher com menos de 50 anos, descrita como de "boa saúde", morreu no domingo de hemorragia cerebral. Outra profissional de saúde, nos seus 30 anos, morreu na sexta-feira anterior, dez dias depois de receber a mesma vacina. Steinar Madsen, chefe da Agência Norueguesa de Medicamentos, foi cauteloso em uma coletiva de imprensa: "Não podemos descartar ou confirmar que isso tem relação com a vacina." A incerteza era o ponto central. Ninguém sabia se esses distúrbios haviam sido causados pelo imunizante ou por outros fatores que coincidiram com a vacinação.
Kluge reconheceu essa incerteza. "No momento, não sabemos se algumas ou todas essas doenças foram causadas pela vacina ou por outros fatores coincidentes", disse. Mas ele enquadrou a situação de forma diferente: a detecção, investigação e avaliação desses casos era, na verdade, um sinal de que os mecanismos de vigilância e regulamentação estavam funcionando. "Nas campanhas de vacinação, é rotina sinalizar possíveis eventos adversos. Isso não significa necessariamente que os eventos estejam relacionados à vacinação", pontuou. Ele também lembrou um contexto maior: o tromboembolismo venoso é a terceira doença cardiovascular mais comum no mundo. "A vacinação contra a covid-19 não reduzirá doenças ou mortes por outras causas."
Até o momento da declaração de Kluge, doze países haviam suspendido o uso da vacina: Áustria, Dinamarca, Islândia, Noruega, Bulgária, Tailândia, República Democrática do Congo, Alemanha, França, Espanha, Portugal e Itália. Cada suspensão era uma medida de precaução, uma pausa para investigar. Mas Kluge argumentava que a pausa não deveria se tornar abandono. "Vacinas funcionam e, eventualmente, permitirão um retorno a um novo normal. Mas, para que isso aconteça, precisamos confiar na ciência e na incrível proteção proporcionada pelas vacinas contra todas as doenças que elas evitam, incluindo a covid-19."
A tensão no centro dessa história era real. Duas pessoas haviam morrido. Outras estavam hospitalizadas. Os investigadores não conseguiam estabelecer com certeza se a vacina era culpada. E enquanto isso, a pandemia continuava matando. A OMS estava dizendo: confiem na ciência, continuem vacinando. Mas para muitos, especialmente para as famílias dos que morreram, a confiança não era tão simples de manter.
Citas Notables
No momento, não sabemos se algumas ou todas essas doenças foram causadas pela vacina ou por outros fatores coincidentes— Hans Kluge, diretor europeu da OMS
Não podemos descartar ou confirmar que isso tem relação com a vacina— Steinar Madsen, chefe da Agência Norueguesa de Medicamentos