Em junho de 2022, a Organização Mundial da Saúde confrontou em Genebra uma das limitações mais profundas da saúde pública global: a impossibilidade de avaliar uma crise quando o país no seu centro recusa partilhar informação. Com 25 milhões de norte-coreanos sem vacinação e um sistema de saúde entre os mais frágeis do mundo, a OMS assumiu que a situação se deteriorava — não porque o pudesse provar, mas porque a lógica epidemiológica não deixava outra conclusão. Pyongyang continuava a gerir a narrativa da pandemia como geria tudo o resto: em opacidade.
OMS alerta para piora da COVID-19 na Coreia do Norte mas lamenta falta de dados
Não podemos fazer uma avaliação adequada quando faltam os dados
Porque é que a OMS não consegue simplesmente enviar pessoas para lá e ver o que está a acontecer?
A Coreia do Norte não deixa. Não é uma questão de capacidade técnica — é política pura. O regime controla quem entra, o que vê, o que sai. A OMS ofereceu ajuda várias vezes. Pyongyang recusou ou ignorou.
Mas se a população não está vacinada e o sistema de saúde é fraco, porque é que o regime não aceita ajuda?
Porque aceitar ajuda é admitir que há um problema. É admitir que o sistema não consegue lidar sozinho. Para um regime como aquele, isso é uma fraqueza que não pode mostrar.
Os números que reportam — os 3,7 milhões de casos — acreditam que são reais?
Provavelmente não. Ou são subestimados, ou estão a usar a palavra "febre" para esconder a verdadeira dimensão. A OMS não consegue verificar. É por isso que Ryan disse que não podem fazer uma avaliação adequada.
E se realmente estão a melhorar? Se os números estão a descer?
Mesmo que estejam, há um risco enorme. Uma população inteira sem imunidade, sem vacinas, com um sistema de saúde que não aguenta pressão. Basta uma onda para ser catastrófico.
Porque é que Kim Jong Un quer levantar as restrições agora?
Porque o país não consegue funcionar assim. A economia está parada, as pessoas têm fome. Eventualmente, o custo político de manter tudo fechado fica maior do que o risco da doença.
E as imagens de satélite que mostram que não havia confinamentos reais?
Isso é o mais revelador. Sugere que o regime nunca teve controlo real sobre o que estava a acontecer no terreno. Ou estava a mentir sobre as restrições, ou as pessoas simplesmente as ignoravam.
Il Polso
- A OMS não consegue avaliar a real dimensão da crise porque Pyongyang recusa partilhar dados fiáveis e cooperar com organismos internacionais.
- Uma população de 25 milhões de pessoas sem qualquer vacinação, exposta a transmissão intensa num sistema de saúde reconhecidamente débil, representa um risco que transcende as fronteiras norte-coreanas.
- O regime reporta uma descida dramática de casos — de 390 mil diários em maio para pouco mais de 100 mil — mas os números chegam fragmentados e sem possibilidade de verificação independente.
- Kim Jong Un discute o levantamento das restrições enquanto imagens de satélite contradizem os relatos oficiais de confinamentos, revelando uma contenção por sugestão e não por decreto.
- A OMS mantém a oferta de ajuda e vacinas, e vê com esperança os esforços de mediação da China e da Coreia do Sul, mas permanece à margem de uma crise que não consegue medir nem resolver.
Em junho de 2022, a Organização Mundial da Saúde confrontou em Genebra uma das limitações mais profundas da saúde pública global: a impossibilidade de avaliar uma crise quando o país no seu centro recusa partilhar informação. Com 25 milhões de norte-coreanos sem vacinação e um sistema de saúde entre os mais frágeis do mundo, a OMS assumiu que a situação se deteriorava — não porque o pudesse provar, mas porque a lógica epidemiológica não deixava outra conclusão. Pyongyang continuava a gerir a narrativa da pandemia como geria tudo o resto: em opacidade.
Em Genebra, em junho de 2022, a OMS deparava-se com um dilema que resumia os limites da saúde pública internacional: como avaliar uma emergência quando o país no centro dela fecha a porta. Michael Ryan, diretor de emergências da organização, foi claro — não havia informação suficiente para um diagnóstico real, mas havia razões para acreditar que a situação estava a piorar.
Pyongyang reportara 3,7 milhões de casos de "febre" — a palavra escolhida para evitar dizer COVID-19 — e os seus números oficiais apontavam para uma descida consistente, com pouco mais de 100 mil infecções num único dia, face aos 390 mil registados no início de maio. O número oficial de mortos era de 69. Maria van Kerkhove, responsável pela resposta pandémica da OMS, reconheceu que chegavam relatos de recuperações, mas que a informação era fragmentária.
O problema era estrutural e grave: os 25 milhões de norte-coreanos não estavam vacinados, e o sistema de saúde do país era um dos piores do mundo. A OMS tinha oferecido vacinas em três ocasiões distintas. A cooperação nunca chegou. Ryan via com esperança os esforços de mediação da China e da Coreia do Sul, mas o acesso real ao terreno permanecia vedado.
Entretanto, Kim Jong Un e altos funcionários discutiam o possível levantamento das restrições, depois de o Politburo ter feito uma "avaliação positiva" da situação. As preocupações com a alimentação e a economia pareciam pesar mais do que a ameaça viral. Mas imagens de satélite e relatos das fronteiras contradiziam os anúncios oficiais de confinamentos: não havia contenção real, apenas a sugestão de que os cidadãos saíssem de casa apenas quando absolutamente necessário.
A OMS ficava assim presa numa impossibilidade: não podia provar que as coisas estavam a piorar, mas a lógica epidemiológica não lhe permitia concluir o contrário. A verdade sobre o que acontecia na Coreia do Norte permanecia, como tantas coisas naquele país, inacessível ao resto do mundo.
Em Genebra, a Organização Mundial da Saúde enfrentava um dilema familiar aos tempos de pandemia: como avaliar uma crise quando quem está no centro dela recusa abrir a porta. Michael Ryan, diretor de emergências da OMS, foi direto na conferência de imprensa de junho de 2022. Não havia informação suficiente para fazer um diagnóstico real do que acontecia na Coreia do Norte. Mas havia motivos para suspeitar que as coisas estavam a piorar, não a melhorar.
O regime de Pyongyang tinha reportado 3,7 milhões de casos de "febre" — a palavra que usava para evitar dizer COVID-19 — mas os números que divulgava pareciam desenhar uma trajetória descendente. Na sexta-feira anterior, a agência de notícias oficial KCNA anunciara que os novos casos tinham caído pelo sétimo dia seguido, com pouco mais de 100 mil infecções naquele dia. Era uma melhoria dramática face aos 390 mil casos diários que o país tinha registado no início de maio. O número oficial de mortos era de 69, segundo o relato de 27 de maio. Maria van Kerkhove, responsável pela resposta à pandemia na OMS, notou que havia relatos de muitas recuperações, mas que a informação que chegava do país era fragmentária e limitada.
O problema era estrutural. Os 25 milhões de norte-coreanos não estavam vacinados. O sistema de saúde do país era reconhecidamente um dos piores do mundo. Qualquer transmissão intensa numa população tão vulnerável, com infraestrutura médica tão frágil, representava um risco não apenas para Pyongyang, mas para toda a região e além. Ryan explicou que a OMS tinha oferecido ajuda em múltiplas ocasiões, incluindo vacinas em três momentos diferentes. A organização continuava disponível. Mas a cooperação era difícil. Havia sinais de que a China e a Coreia do Sul estavam a tentar mediar, e Ryan via nisso uma "atitude muito positiva" para resolver o problema coletivamente.
Entretanto, o próprio regime norte-coreano estava a considerar relaxar as restrições. No domingo, a imprensa estatal reportou que Kim Jong Un e outros altos funcionários tinham discutido um possível levantamento das medidas de contenção. A reunião do Politburo do Comité Central do Partido dos Trabalhadores tinha feito uma "avaliação positiva" da situação pandémica, sugerindo que estava a ser controlada e melhorada em todo o país. As preocupações com a alimentação e a economia pareciam estar a pesar mais do que a ameaça viral.
Mas havia uma desconexão entre o que Pyongyang dizia estar a fazer e o que observadores externos conseguiam ver. No sábado, a KCNA tinha elogiado a resposta das autoridades, que incluía confinamentos em municípios e centros de trabalho. Porém, imagens de satélite e relatos de pessoas nas fronteiras com a Coreia do Sul e a China sugeriam uma realidade diferente. Não havia confinamentos reais. Os cidadãos tinham sido aconselhados a sair de casa apenas para trabalhar e quando fosse absolutamente necessário. Era uma contenção por sugestão, não por decreto.
A OMS estava presa numa situação sem saída fácil. Não podia fazer uma avaliação adequada porque não tinha acesso aos dados reais. Tinha de assumir que as coisas estavam a piorar porque a lógica epidemiológica assim o sugeria — uma população inteira sem vacinação, um sistema de saúde débil, um vírus que se propagava. Mas não podia prová-lo. E enquanto isso, o regime movia-se para aliviar as restrições, talvez porque acreditava que o pior tinha passado, ou talvez porque simplesmente não podia manter o país fechado por mais tempo. A verdade sobre o que estava realmente a acontecer na Coreia do Norte permanecia, como tantas coisas naquele país, opaca ao resto do mundo.
Citazioni salienti
Neste momento, não podemos fazer uma avaliação adequada da situação no terreno. Estamos a assumir que as coisas estão a piorar, não a melhorar.— Michael Ryan, diretor de emergências da OMS
Não queremos ver uma transmissão intensa numa população vulnerável com um sistema de saúde já enfraquecido. Não é bom para o povo da República Popular Democrática da Coreia, não é bom para a região e não é bom para o mundo.— Michael Ryan, OMS