O corpo de Xuxa e a inquisição moderna dos guardiões da moral

O incômodo é o corpo de uma mulher madura que continua a desejar
A colunista identifica o verdadeiro alvo da polêmica: não o figurino, mas a existência de sexualidade feminina após os 60 anos.
Mark

Por que você acha que essa polêmica ganhou tanta força? Não é só um figurino.

Mimi

Não é. É porque o corpo dela representa algo que a sociedade ainda não sabe como lidar: uma mulher madura que não desapareceu, que continua desejante e desejada. Isso quebra um contrato não escrito.

Mark

Qual contrato?

Mimi

O de que depois dos 60, você se torna invisível. Que sua sexualidade vira coisa de constrangimento. Xuxa recusou esse contrato.

Mark

E por que a virilha virou o centro da discussão? Parece tão específico.

Mimi

Porque é a fronteira. É o lugar onde o pudor público consegue instalar sua ira sem parecer estar falando sobre sexualidade. É mais fácil policiar um centímetro de tecido do que admitir que o problema é o desejo.

Mark

Ela poderia ter pedido desculpas?

Mimi

Poderia. Mas isso seria reconhecer que existe uma autoridade moral legítima para dizer quanto de corpo uma mulher pode mostrar. Ela recusou.

Mark

E agora?

Mimi

Agora ela segue voando. Os guardiões continuam em terra, preservando a própria banalidade.

  • Um body cavado usado por Xuxa em show desencadeou uma avalanche de queixas morais focadas na região inguinal do figurino — como se a anatomia de uma mulher madura fosse, por si só, uma transgressão.
  • A indignação pública revelou seu verdadeiro alvo: não a roupa, mas a existência de uma mulher de 63 anos que declara abertamente seu desejo, vive sua sexualidade e se recusa a desaparecer dos holofotes.
  • Críticos tentaram enquadrar a questão como 'erro de modelagem', mas o tribunal moral não buscava correção técnica — buscava submissão, o reconhecimento de que aquele corpo deveria ter se apagado.
  • Xuxa não pediu desculpas, não prometeu recato e não reconheceu a autoridade dos vigilantes, mantendo intactas tanto a virilha quanto a dignidade — e escancarando a fragilidade da inquisição que a queria de joelhos.

Quando uma mulher de 63 anos sobe ao palco com um figurino cavado e recusa-se a pedir desculpas pela própria existência desejante, o que se revela não é uma polêmica sobre moda, mas uma tensão antiga: a sociedade ainda não aprendeu a tolerar o corpo feminino maduro que insiste em ocupar espaço, brilhar e pertencer a si mesmo. A controvérsia em torno de Xuxa durante sua turnê 'O Último Voo da Nave' é menos sobre centímetros de tecido e mais sobre o desconforto coletivo diante de uma mulher que se recusa a encolher depois dos 60. O que os guardiões da decência chamam de escândalo, a artista chama de liberdade.

A controvérsia começou com um figurino: um body cavado que deixava à mostra a região inguinal de Xuxa durante sua turnê 'O Último Voo da Nave'. Não era nada que não se visse em praias ou desfiles de Carnaval. Mas algo naquele corpo específico, naquele palco específico, acendeu uma fogueira moral que não parecia disposta a se apagar.

Xuxa tem 63 anos, é independente, está casada com um homem mais jovem e declarou publicamente que sexo e tesão fazem parte de sua vida cotidiana. Cada um desses fatos já era combustível. Juntos, viraram lenha demais para os guardiões da decência suportarem. Uma legião de fiscais da alheia intimidade atacou horrorizada aquele pedaço de tecido cavado.

Mas o que realmente incomodava não era a carne — era o corpo de uma mulher madura que continuava a desejar e a ser desejada. Era a recusa de encolher, de se fazer invisível depois dos 60. Os acusadores tentaram argumentar que havia um 'erro de modelagem', como se a questão fosse técnica. O tribunal dos bons costumes, porém, não se importava com detalhes: o pecado era o corpo aparecendo, ponto final.

Quem foi ao show viu pessoas felizes, cantando e chorando, encantadas pelo carisma de uma artista que construiu sua carreira inteira sobre a capacidade de encantar. Enquanto isso, o país inteiro virou agente da moral, denunciando pela internet, aplaudindo a própria indignação.

Xuxa não pediu desculpas. Não prometeu recato. Aceitar a autoridade desse tribunal seria reconhecer que existe uma quantidade correta de tecido que torna uma mulher 'respeitável'. Ela decolou em outra nave, pilotada por ela mesma, com a virilha e a dignidade intactas — enquanto os tiranos da virtude continuam em terra firme, preservando com zelo a própria banalidade.

A controvérsia começou simples: uma mulher de 63 anos subiu ao palco usando um body cavado durante sua turnê "O Último Voo da Nave". O figurino deixava à mostra a região inguinal — aquele espaço anatômico entre a perna e o tronco, a dobradiça onde o corpo decide mudar de forma. Não era nada que não se visse em praias, em desfiles de Carnaval, em telas de cinema. Mas algo naquele corpo específico, naquele palco específico, acendeu uma fogueira moral que não parecia disposta a se apagar.

Xuxa tem 63 anos. É rica. É independente. Está casada com um homem mais jovem. Declarou publicamente que sexo e tesão fazem parte de sua vida cotidiana com Junno Andrade. E usou um figurino que mostrava sua virilha. Cada um desses fatos, isolado, já era combustível suficiente. Juntos, viraram lenha demais para os guardiões da decência suportarem. O Reclame Aqui da moral transbordou de queixas. Uma legião de fiscais da alheia intimidade, todos profundamente preocupados com os bons costumes, atacou horrorizada aquele pedaço de tecido cavado.

Mas o que realmente incomodava não era a carne. Carne existe em toda praia, em toda revista, em toda mente. O incômodo era muito mais específico: era o corpo de uma mulher madura que continuava a desejar e a ser desejada. Era a recusa de desaparecer, de encolher, de se fazer invisível depois dos 60. Era a ousadia de ocupar espaço, de brilhar sob os holofotes, de existir como sujeito de desejo e não como objeto de piedade ou nostalgia.

Os acusadores tentaram argumentar que havia um "erro de modelagem", como se a questão fosse técnica, como se alguns centímetros a mais de tecido resolvessem o problema. Mas o tribunal dos bons costumes não se importava com detalhes assim. O veredito era claro: o pecado era o corpo aparecendo, ponto final. Não importava se o decote era acidental ou calculado. A inquisição moderna não faz distinção entre dolo e culpa — apenas identifica o corpo que precisa ser queimado e segue em frente.

Quem foi ao show viu pessoas felizes. Viu gente cantando, algumas chorando, encantadas pelo carisma de uma artista que construiu sua carreira inteira sobre a capacidade de encantar. Mas enquanto isso, o país inteiro virou agente secreto da moral, denunciando pela internet, aplaudindo a própria indignação, usando megafone para ser ouvido pela multidão de outros vigilantes. É uma inversão estranha: crescemos vendo um agente espionar inimigos pelo sapato; agora, somos todos espiões, todos denunciantes, todos juízes.

Xuxa não pediu desculpas. Não prometeu recato. Não reconheceu a autoridade desse tribunal moral que define o pecado e impõe a penitência. Porque fazer isso seria aceitar a premissa de que existe uma quantidade correta de tecido que torna uma mulher "respeitável", de que existe um comprimento de cava que a redime. Ela decolou em outra nave, pilotada por ela mesma, com a virilha e a dignidade intactas. Os tiranos da virtude continuam em terra firme, preservando com zelo a própria banalidade, enquanto ela segue voando.

Xuxa não pediu desculpas nem prometeu recato, recusando reconhecer a autoridade de um tribunal moral que define o pecado e impõe a penitência
— Becky Korich, colunista
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