NYT identifica Adam Back como Satoshi Nakamoto após investigação de um ano

Um roteiro soterrado para o Bitcoin, escrito com uma década de antecedência
Como o NYT descreve as postagens de Back nas listas criptográficas entre 1997 e 1999.
Mark

Por que o New York Times decidiu gastar um ano inteiro investigando a identidade de alguém que pode estar morto ou simplesmente desaparecido?

Mimi

Porque Satoshi Nakamoto criou algo que vale hoje US$ 73 bilhões e permanece completamente anônimo. Saber quem é essa pessoa muda a narrativa do Bitcoin — de um invento coletivo para uma criação individual. É uma história de poder e origem.

Mark

A análise linguística parece muito precisa — 34 mil usuários reduzidos a um nome. Mas como você reduz 34 mil pessoas a 620 e depois a uma?

Mimi

Primeiro, a maioria das pessoas não postava o suficiente ou não falava sobre moeda digital. Depois, aplicaram filtros muito específicos — dois espaços entre frases, hifenização estranha, mistura de grafia britânica e americana. Padrões que uma pessoa repete sem perceber.

Mark

E se Back simplesmente imitou esses padrões depois de ler os escritos de Satoshi?

Mimi

É possível, mas improvável em escala. Você teria que imitar inconsistências muito sutis — confundir "it's" e "its" de forma consistente, hifenizar palavras compostas de um jeito específico. Pessoas não fazem isso conscientemente.

Mark

Back nega tudo. Ele diz que a coincidência não prova nada. Ele está certo?

Mimi

Tecnicamente, sim. A evidência é circunstancial. Até o próprio linguista que fez a análise estilométrica disse que o resultado foi inconclusivo — Hal Finney ficou em segundo lugar com diferença quase imperceptível. Mas a soma das coisas — o padrão de desaparecimento, as expressões raras, o Hashcash — começa a pesar.

Mark

Qual é o deslize que o jornal captou?

Mimi

Back estava ouvindo uma citação de Satoshi dizendo que prefere código a palavras, e respondeu algo como "Eu falei bastante para alguém que… quer dizer, não estou dizendo que sou bom com palavras, mas eu realmente tagarelei muito nessas listas." Como se estivesse reconhecendo que foi ele quem escreveu aquilo. Back negou depois que foi um deslize.

Mark

Se Back é Satoshi, por que ele não simplesmente move alguns bitcoins para provar que não é?

Mimi

Porque se ele mover qualquer coisa, confirma que é Satoshi. Se não mover, pode sempre dizer que perdeu as chaves. É um jogo sem saída. A única prova definitiva é também a prova que o incriminaria.

  • Análise de 34 mil usuários de listas criptográficas reduziu candidatos a um único nome através de padrões linguísticos
  • Back desapareceu das discussões sobre moeda digital em 2008 quando Bitcoin foi lançado e retornou em junho de 2011, seis semanas após Satoshi desaparecer
  • Back compartilha 67 dos 325 erros de hifenização identificados no corpus de Satoshi; o segundo colocado tinha 38
  • Estoque de Satoshi vale atualmente cerca de US$ 73 bilhões e nunca foi movimentado

Análise estilométrica de 34 mil usuários de listas criptográficas reduziu candidatos a um único nome através de padrões linguísticos únicos de Satoshi. Back desapareceu das discussões sobre moeda digital exatamente quando Bitcoin foi lançado em 2008 e retornou semanas após Satoshi desaparecer em 2011.

O New York Times afirma ter identificado Adam Back, criptógrafo britânico, como Satoshi Nakamoto após investigação de um ano usando análise linguística e registros históricos. Back nega repetidamente a acusação.

O New York Times publicou nesta quarta-feira uma investigação de mais de um ano que aponta Adam Back, criptógrafo britânico de 55 anos e CEO da Blockstream, como Satoshi Nakamoto, o criador anônimo do Bitcoin. O trabalho, conduzido pelo repórter Joe Rodota, combinou análise linguística computacional, rastreamento de arquivos históricos de listas de discussão criptográficas e um confronto direto com Back em um hotel em El Salvador em janeiro deste ano. Back negou ser Satoshi mais de seis vezes durante o encontro e voltou a negar publicamente após a publicação, afirmando no X que, embora não seja Satoshi, foi precoce em explorar as implicações sociais positivas da criptografia e da privacidade online.

O cerne da investigação repousa em postagens que Back fez entre 1997 e 1999 nas listas de discussão dos Cypherpunks, um grupo de ativistas criptográficos que debatia moeda digital nos anos 1990. Nessas mensagens, Back teria proposto praticamente todos os elementos que viriam a compor o Bitcoin: uma moeda eletrônica desconectada do sistema bancário, distribuída por uma rede de computadores independentes, com emissão controlada por resolução de problemas computacionais e um registro público imutável de transações. O jornal descreve esse histórico como um roteiro soterrado para o Bitcoin, escrito com uma década de antecedência. Back também é o inventor do Hashcash, um sistema de prova de trabalho citado diretamente por Satoshi no white paper do Bitcoin publicado em 2008.

Para identificar Satoshi de forma sistemática, o NYT levantou os arquivos das listas Cypherpunks, Cryptography e Hashcash entre 1992 e outubro de 2008, véspera da publicação do white paper. O banco de dados reuniu mais de 34 mil usuários. Após filtrar contas com menos de dez postagens e excluir quem nunca discutiu moeda digital, restaram 620 candidatos. A equipe do jornal aplicou então uma sequência de filtros baseados em peculiaridades linguísticas identificadas nos escritos de Satoshi: uso de dois espaços entre frases, grafia britânica, confusão entre "it's" e "its", uso de "also" ao fim de orações, hifenização irregular de palavras compostas, alternância entre "e-mail" e "email", entre "cheque" e "check" e entre grafias britânicas e americanas de certas palavras. Ao final de todos os filtros, restou um único nome: Adam Back.

O linguista forense Robert Leonard, da Universidade Hofstra, classificou essas marcas como indicadores de variação sociolinguística, capazes de apontar a origem geográfica e o treinamento ocupacional de um autor. Um levantamento separado de erros de hifenização mostrou que Back compartilha 67 dos 325 erros identificados no corpus de Satoshi, enquanto o segundo colocado na comparação tinha apenas 38. Três expressões raras reforçam a tese: "proof-of-work" grafado com hífens no uso como substantivo, "partial pre-image" e "burning the money". Back é o único usuário das listas a ter mencionado a moeda russa WebMoney e também hifenizado "proof-of-work" como substantivo.

O NYT aponta também uma coincidência comportamental notável. Back, que por mais de uma década foi um dos participantes mais ativos dos debates sobre moeda eletrônica nas listas criptográficas, deixou de comentar o assunto exatamente quando o Bitcoin foi lançado em 2008. Voltou a se manifestar publicamente sobre o tema em junho de 2011, seis semanas após Satoshi fazer sua última aparição conhecida em abril daquele ano. Em abril de 2013, no mesmo dia em que o criptógrafo argentino Sergio Demian Lerner publicou um texto revelando a fortuna acumulada por Satoshi, Back criou sua conta no Bitcointalk, fórum oficial da comunidade Bitcoin. Em 2015, durante uma disputa sobre o tamanho dos blocos da rede, um e-mail atribuído a Satoshi, o último registro conhecido do criador, defendeu posição idêntica à que Back sustentava publicamente na mesma semana, com vocabulário semelhante.

Na reunião em El Salvador, acompanhado de dois executivos de sua nova empresa de tesouraria em Bitcoin, Back disse ao NYT que a coincidência de evidências não provava nada. Quando pressionado sobre sua ausência nas discussões do fim de 2008, respondeu que estava ocupado com trabalho, sem oferecer detalhes. O NYT diz ter captado um possível deslize na gravação do encontro. Ao ouvir uma citação de Satoshi em que o criador do Bitcoin diz preferir código a palavras, Back teria respondido: "Eu falei bastante para alguém que… quer dizer, não estou dizendo que sou bom com palavras, mas eu realmente tagarelei muito nessas listas." Back, em e-mail posterior, negou que fosse um deslize. O jornal pediu a Back os metadados dos e-mails que ele trocou com Satoshi em 2008, apresentados durante o processo judicial contra Craig Wright, australiano que alegou falsamente ser o criador do Bitcoin. Back não respondeu ao pedido.

O NYT reconhece que toda a evidência reunida é circunstancial. A análise estilométrica formal, conduzida pelo linguista computacional Florian Cafiero, da École Nationale des Chartes, da França, apontou Back como o candidato com escrita mais próxima à de Satoshi, mas o resultado foi considerado inconclusivo pelo próprio especialista: Hal Finney, programador americano morto em 2014, ficou em segundo lugar com diferença quase imperceptível. A única prova definitiva, segundo o jornal, seria Satoshi mover parte de seus bitcoins usando uma chave privada associada aos primeiros blocos minerados. Segundo a casa de análise Arkham, o estoque de Satoshi vale atualmente cerca de US$ 73 bilhões. Esse saldo nunca foi movimentado.

Não sou Satoshi, mas fui precoce no foco nas implicações sociais positivas da criptografia, da privacidade online e do dinheiro eletrônico
— Adam Back, em resposta no X após publicação da reportagem
Claramente não sou Satoshi, essa é minha posição
— Adam Back, durante encontro com o NYT em El Salvador
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