Maricarmen Abascal viveu 70 anos no mesmo apartamento em Madri antes de ser despejada aos 87 anos — e morreu semanas depois, no hospital para onde foi levada de maca no dia da remoção. Sua história, que começou como a de uma aposentada incapaz de pagar um aluguel triplicado, tornou-se o espelho de uma crise habitacional que afeta milhões de espanhóis e forçou um governo a agir, um parlamento a reagir e um país inteiro a se perguntar o que significa ter um lar. Ela pediu, ainda do leito hospitalar, que as pessoas continuassem lutando — e sua morte transformou esse pedido em legado.
Morre Maricarmen, símbolo da crise habitacional espanhola após despejo
Lutem, continuem lutando pelo que é de vocês
Por que o caso de Maricarmen se tornou tão importante? Havia algo único em sua situação?
Não era única, na verdade. Mas ela tinha 87 anos, havia vivido no mesmo lugar por 70 anos, e quando a removeram, as imagens dela sendo levada de maca foram transmitidas por todo o país. As pessoas viram seus pais, seus avós naquela cena.
Certo, mas precisamos ser precisos: ela morreu duas semanas depois do despejo. Sabemos se o despejo causou diretamente sua morte, ou se ela já estava em declínio?
O relatório não especifica a causa médica da morte. Sabemos que ela foi levada ao hospital no dia do despejo devido ao seu estado de saúde, e morreu duas semanas depois.
E o governo respondeu rapidamente?
Sim. Após os protestos, Sánchez aprovou medidas emergenciais — suspensão de despejos até 2030, fim da renovação automática de aluguéis. Mas o Congresso rejeitou os decretos.
Então as medidas não passaram. O que ele fez depois?
Convocou eleições antecipadas para 29 de novembro e agora está apresentando novos decretos com empréstimos sem juros para compra de imóvel.
Isso resolve o problema de pessoas como Maricarmen — inquilinos que não podem comprar?
Não, não resolve. Empréstimos para compra ajudam quem tem renda estável e pode pagar uma hipoteca. Maricarmen recebia 1.350 euros por mês. Ela nunca teria se qualificado para um empréstimo de 50 mil euros.
Verdade. O problema dela era o aluguel — aumentou 275% em um ano. Ela continuou pagando, mas não conseguiu acompanhar.
Então qual é a crise real aqui?
Em dez anos, o preço do metro quadrado quase dobrou. Os aluguéis subiram. Há poucos imóveis novos sendo construídos. Muitos estão vazios ou alugados por temporada para turistas.
E ninguém sabe quantas pessoas estão na situação de Maricarmen — quantos despejos estão acontecendo, quantas famílias foram afetadas. Os números não estão no relatório.
Não estão. Mas sabemos que os protestos ocorreram em mais de 50 cidades. Isso sugere que é um problema nacional, não local.
E agora? O que muda com a morte dela?
O sindicato diz que seu legado é a luta contínua. Os protestos continuam. Os sindicatos convocaram uma greve geral para 11 de novembro.
Mas politicamente, Sánchez está em uma posição fraca. Não tem maioria no Congresso. Seus decretos foram rejeitados. Ele está apostando que as eleições mudarão o equilíbrio de poder.
E a oposição — a presidente de Madri — chamou suas propostas de "sectárias" e "ideológicas". Então há uma divisão profunda sobre como resolver isso.
Le Pouls
- Uma mulher de 87 anos foi retirada de maca do único lar que conheceu em sete décadas, depois que o aluguel saltou de €500 para €1.650 — valor superior à sua própria pensão.
- As imagens do despejo incendiaram a Espanha: manifestantes tomaram as ruas de mais de 50 cidades, exigindo proteção para inquilinos vulneráveis diante de um mercado imobiliário fora de controle.
- A pressão das ruas forçou o governo Sánchez a aprovar medidas emergenciais, incluindo a suspensão de despejos de pessoas vulneráveis até 2030 — mas o Congresso derrubou os decretos, precipitando eleições antecipadas.
- Maricarmen morreu no Hospital Gregorio Marañón duas semanas após o despejo, e seu nome passou a simbolizar não apenas uma tragédia pessoal, mas um teste político sobre o futuro da moradia na Espanha.
- Com greve geral convocada para novembro e novos decretos habitacionais em debate, o país enfrenta eleições marcadas pela pergunta que Maricarmen personificou: a quem pertence o direito de ter um teto?
Maricarmen Abascal viveu 70 anos no mesmo apartamento em Madri antes de ser despejada aos 87 anos — e morreu semanas depois, no hospital para onde foi levada de maca no dia da remoção. Sua história, que começou como a de uma aposentada incapaz de pagar um aluguel triplicado, tornou-se o espelho de uma crise habitacional que afeta milhões de espanhóis e forçou um governo a agir, um parlamento a reagir e um país inteiro a se perguntar o que significa ter um lar. Ela pediu, ainda do leito hospitalar, que as pessoas continuassem lutando — e sua morte transformou esse pedido em legado.
Maricarmen Abascal chegou ao apartamento no bairro do Retiro, em Madri, em 1956, ainda criança. Quando os pais morreram, assumiu o contrato e permaneceu no mesmo endereço por sete décadas. Em 2018, tudo mudou: o prédio foi vendido a uma incorporadora que tentou convencê-la a comprar o imóvel por 247 mil euros. Ao recusar, viu o aluguel saltar de €500 para €1.650 mensais — mais do que sua pensão de €1.350. Mesmo assim, continuou pagando.
A disputa chegou aos tribunais. O Sindicato de Inquilinos a apoiou em diferentes instâncias, e até o Comitê da ONU pediu a suspensão do despejo. Três tentativas anteriores foram impedidas por vizinhos e ativistas. Na quarta, em 23 de setembro, a ordem foi cumprida. Maricarmen saiu de maca, levada de ambulância ao Hospital Gregorio Marañón. As imagens correram o país.
O que se seguiu foi uma onda de protestos em mais de 50 cidades espanholas. A pressão levou o governo de Pedro Sánchez a aprovar medidas emergenciais — suspensão de despejos de vulneráveis até 2030 e fim da renovação automática de aluguéis. Do hospital, Maricarmen enviou uma mensagem aos manifestantes: pediu coragem e que continuassem lutando.
O Congresso, porém, rejeitou os decretos. A derrota forçou Sánchez a antecipar eleições para 29 de novembro. O premier voltou com novos textos, agora incluindo empréstimos sem juros de até 50 mil euros para compra de imóvel, a serem debatidos em comissão especial. Os principais sindicatos convocaram greve geral para 11 de novembro.
Maricarmen morreu duas semanas após o despejo. O Sindicato de Inquilinos publicou sua última mensagem como legado: "Lutem, continuem lutando pelo que é de vocês." Em dez anos, o preço do metro quadrado quase dobrou na Espanha. Idosos e famílias de baixa renda são os mais atingidos. O que começou como a história de uma mulher que queria apenas permanecer em sua casa tornou-se o centro de um debate político que pode definir os rumos do país.
Maricarmen Abascal tinha 87 anos quando morreu no Hospital Gregorio Marañón em Madri, na quarta-feira passada. Duas semanas antes, ela havia sido removida de seu apartamento no bairro do Retiro — o único lugar onde havia vivido nos últimos 70 anos. A notícia de sua morte foi anunciada pelo Sindicato de Inquilinos e Inquilinas de Madri, a organização que havia acompanhado sua luta e coordenado os protestos que explodiram nas ruas espanholas após seu despejo.
A história de Maricarmen começou muito antes de se tornar o rosto mais visível da crise habitacional espanhola. Ela chegou ao apartamento em 1956, ainda criança, quando seu pai assinou o contrato de aluguel. Após a morte dos pais, assumiu a locação e permaneceu no mesmo endereço por sete décadas. Tudo mudou em 2018, quando o prédio foi vendido para uma incorporadora que a pressionou para comprar o imóvel por 247 mil euros — uma quantia impossível para uma aposentada. Quando recusou, o aluguel foi aumentado em 275%. O valor mensal saltou de aproximadamente 500 euros para 1.650 euros, enquanto sua pensão era de cerca de 1.350 euros. Mesmo assim, ela continuou pagando.
O imóvel passou depois para a Urbagestión, e a disputa sobre a validade do contrato chegou aos tribunais. Maricarmen, apoiada pelo Sindicato de Inquilinos, conquistou decisões favoráveis em diferentes momentos, mas a empresa recorreu persistentemente até obter uma vitória no Tribunal Supremo. A primeira tentativa de despejo ocorreu em outubro de 2025 e foi impedida pela mobilização de vizinhos e ativistas. Outras duas tentativas, marcadas para junho, também foram adiadas. O Comitê da ONU solicitou a suspensão do despejo até que fosse garantida uma alternativa habitacional adequada. Na quarta tentativa, em 23 de setembro, as autoridades chegaram ao prédio para cumprir a ordem judicial. Vizinhos e ativistas se reuniram para tentar impedir a remoção. Por volta das 13h05, Maricarmen foi retirada de maca e levada de ambulância para o hospital devido ao seu estado de saúde. As imagens da operação provocaram forte repercussão em todo o país.
O despejo desencadeou uma onda de protestos massivos. Milhares de pessoas saíram às ruas em mais de 50 cidades espanholas para denunciar as dificuldades enfrentadas por inquilinos diante do aumento dos custos de moradia. A pressão foi tão intensa que o governo do premier Pedro Sánchez agiu com urgência. Após dias de mobilizações em Madri, Barcelona e outras cidades, aprovou medidas emergenciais, incluindo a suspensão de despejos de pessoas vulneráveis até 2030 e o fim da renovação automática de aluguéis. Ainda do hospital, Maricarmen enviou uma mensagem aos manifestantes: pediu coragem e que continuassem lutando pelo que era deles.
O Congresso, porém, rejeitou os dois decretos. A derrota levou Sánchez a convocar eleições gerais para 29 de novembro, antecipando em vários meses uma votação que estava prevista para 2027. Na última terça-feira, o premier anunciou que apresentaria novamente ao Congresso dois decretos sobre habitação, desta vez incluindo empréstimos de até 50 mil euros sem juros para a compra de casa própria. Os textos serão debatidos por uma comissão especial, não pelo plenário de 350 deputados que os derrubou anteriormente. Também nesta quarta-feira, os principais sindicatos espanhóis convocaram uma greve geral para 11 de novembro — menos de três semanas antes das eleições — para lutar por melhores salários e moradia digna.
O caso de Maricarmen expôs um problema muito mais amplo. Em dez anos, o preço do metro quadrado quase dobrou na Espanha, enquanto os custos de aluguel também avançaram significativamente. O baixo investimento em novas moradias, o crescimento dos aluguéis de temporada e o número elevado de imóveis desocupados estão entre os fatores apontados no debate sobre a crise. A situação tem afetado especialmente idosos e famílias de baixa renda. Em um dos acampamentos de protesto em Madri, uma manifestante relatou o caso de uma mulher de 65 anos que precisou voltar a morar com a filha depois de não conseguir mais pagar o aluguel.
O Sindicato de Inquilinos publicou uma mensagem após a morte de Maricarmen: "Agora, após a sua partida, ficamos com o exemplo de luta e o legado que Maricarmen deixou. E, acima de tudo, cumpriremos o que ela sempre nos pedia: lutem, continuem lutando pelo que é de vocês". Seu nome permanece no centro de um debate político que divide o país. Partidos próximos ao governo defendem congelamento de aluguéis e expropriações, enquanto Junts e PNV defendem medidas para facilitar a construção de moradias e oferecer benefícios fiscais aos proprietários. Na oposição, a presidente da Comunidade de Madri classificou as propostas como "sectárias" e "profundamente ideológicas". O que começou como a história de uma mulher idosa lutando para permanecer em sua casa se transformou em um teste político sobre como a Espanha enfrentará sua crise de moradia.
Citations marquantes
Agora, após a sua partida, ficamos com o exemplo de luta e o legado que Maricarmen deixou. E, acima de tudo, cumpriremos o que ela sempre nos pedia: lutem, continuem lutando pelo que é de vocês— Sindicato de Inquilinos e Inquilinas de Madri
Peço a todos coragem, lutar, defender o que é de vocês— Maricarmen Abascal, em mensagem do hospital