Aos 87 anos, Maricarmen Abascal foi retirada do apartamento em Madri onde havia vivido sete décadas — incapaz de arcar com um aluguel que havia triplicado desde que investidores adquiriram o imóvel. Ela morreu no Hospital Gregorio Marañón antes de poder retornar, tornando-se o rosto humano de uma crise habitacional que mobilizou ruas, derrubou decretos no Parlamento e antecipou eleições em toda a Espanha. Seu caso nos lembra que, quando o mercado avança mais rápido do que a compaixão, são as vidas mais longas e mais enraizadas que pagam o preço mais alto.
Morre Maricarmen Abascal, símbolo da crise habitacional espanhola
Uma solução chegou tarde demais. Totalmente evitável.
Por que o caso de uma mulher idosa despejada de seu apartamento mobilizou tantas pessoas na Espanha?
Porque Maricarmen não era apenas um caso individual. Ela representava décadas de estabilidade sendo destruídas por pressões de mercado. Sete décadas no mesmo lugar, um aluguel que refletia outro tempo, e de repente tudo desaparece porque uma empresa quer lucro.
Mas a lei estava do lado da empresa, certo? O Supremo Tribunal decidiu que o contrato antigo não podia ser renovado indefinidamente.
Sim, a lei estava do lado deles. Mas a lei não é a mesma coisa que justiça. Maricarmen pagava regularmente. Não era uma invasora. Ela simplesmente não conseguia acompanhar o mercado.
E o governo respondeu com decretos de urgência. Isso significa que a crise habitacional é realmente grave?
Tão grave que o presidente antecipou eleições. Os preços dos aluguéis explodiram, há escassez de oferta, apartamentos turísticos absorvem o mercado. Maricarmen era apenas o rosto visível de algo muito maior.
Mas precisamos ser claros: a empresa ofereceu um acordo depois que os protestos começaram. Isso não significa que a crise foi resolvida. Significa que a pressão pública funcionou em um caso.
E se Maricarmen não tivesse morrido? Ela teria conseguido voltar?
Sim. A Urbagestión aceitou que ela retornasse pagando um aluguel semelhante ao anterior. Mas chegou tarde demais.
O timing é importante aqui. Ela foi despejada em 23 de setembro e morreu dias depois. A empresa mudou de posição apenas depois que os protestos explodiram. Não sabemos se teria aceitado sem a pressão.
Então o que muda agora que ela morreu?
Nada para Maricarmen. Mas seu caso continua sendo o argumento mais poderoso para reformas na política habitacional espanhola.
Il Polso
- Uma idosa de 87 anos foi despejada após décadas de batalha judicial, incapaz de pagar um aluguel que saltou de 500 para até 2.650 euros mensais — uma diferença que sua pensão jamais poderia cobrir.
- A notícia do despejo acendeu uma faísca nacional: milhares foram às ruas na Puerta del Sol, em Madri, exigindo proteção para inquilinos vulneráveis em um mercado imobiliário fora de controle.
- O governo Sánchez reagiu com decretos de urgência habitacional, mas o Parlamento os rejeitou — uma derrota política tão grave que o presidente antecipou as eleições para 29 de novembro.
- Sob pressão dos protestos, a empresa proprietária recuou e aceitou o retorno de Maricarmen com aluguel acessível — mas o acordo chegou tarde demais: ela morreu internada sem voltar para casa.
- O Sindicato de Inquilinas declarou que a morte foi 'totalmente evitável', deixando no ar uma pergunta que a Espanha ainda tenta responder: até quando o mercado pode se mover mais rápido do que a lei e a dignidade humana?
Aos 87 anos, Maricarmen Abascal foi retirada do apartamento em Madri onde havia vivido sete décadas — incapaz de arcar com um aluguel que havia triplicado desde que investidores adquiriram o imóvel. Ela morreu no Hospital Gregorio Marañón antes de poder retornar, tornando-se o rosto humano de uma crise habitacional que mobilizou ruas, derrubou decretos no Parlamento e antecipou eleições em toda a Espanha. Seu caso nos lembra que, quando o mercado avança mais rápido do que a compaixão, são as vidas mais longas e mais enraizadas que pagam o preço mais alto.
Maricarmen Abascal havia vivido no mesmo apartamento de 92 metros quadrados no bairro do Retiro, em Madri, desde 1956 — quando seu pai assinou o contrato de aluguel durante a ditadura franquista. Sete décadas depois, ela pagava 500 euros por mês, um valor que refletia aquele tempo distante. Mas quando o imóvel foi vendido em 2018 e passou por uma cadeia de transações até chegar à empresa de investimentos Urbagestión, as pressões foram aumentando. A empresa queria entre 1.650 e 2.650 euros mensais. A pensão de Maricarmen era de 1.350 euros. A diferença era intransponível.
O Supremo Tribunal espanhol havia decidido que o contrato antigo não poderia ser renovado indefinidamente — ela havia herdado o direito de sua mãe, que o herdara de seu pai, configurando uma segunda sucessão não amparada pela lei. A Urbagestión chegou a oferecer a compra do imóvel por 247 mil euros em 2020. Maricarmen não tinha esse dinheiro. Recusou. Na quarta tentativa de despejo, em 23 de setembro, a ordem foi finalmente executada.
O que se seguiu surpreendeu o país. O caso de uma mulher idosa, sozinha, incapaz de pagar o aluguel em uma cidade onde os preços explodiram, tornou-se símbolo de uma crise muito maior. Milhares foram às ruas na Puerta del Sol, onde um acampamento de protesto foi instalado. O governo de Pedro Sánchez apresentou decretos de urgência habitacional ao Parlamento — que os rejeitou. A derrota foi tão significativa que Sánchez antecipou as eleições para 29 de novembro. Uma mulher de 87 anos havia movido as engrenagens políticas de um país.
Sob pressão dos protestos, a Urbagestión recuou e aceitou que Maricarmen retornasse ao apartamento com um aluguel semelhante ao que pagava antes. Era uma vitória — mas chegou tarde. Ela morreu internada no Hospital Gregorio Marañón sem conseguir voltar para casa. O Sindicato de Inquilinas, que havia lutado ao seu lado, foi direto: 'Trata-se de uma situação totalmente evitável após um processo torturante.' O apartamento no Retiro permaneceu vazio, e a Espanha ficou com a pergunta que o caso de Maricarmen deixou sem resposta: o que acontece quando o mercado imobiliário se move mais rápido do que a compaixão?
Maricarmen Abascal tinha 87 anos quando foi retirada do apartamento onde havia passado sete décadas. Ela morreu no Hospital Gregorio Marañón, em Madri, sem voltar para casa.
O despejo aconteceu em 23 de setembro, após uma batalha judicial que se estendeu por anos. Abascal não conseguia pagar o novo aluguel exigido pela Urbagestión, a empresa de investimentos que havia adquirido o imóvel. Ela recebia uma pensão mensal de 1.350 euros — a empresa queria cobrar entre 1.650 e 2.650 euros. A diferença era intransponível. Seu caso, porém, não era apenas sobre números. Era sobre sete décadas em um mesmo lugar, sobre um contrato de aluguel antigo que remontava a 1956, quando seu pai assinou o documento durante a ditadura franquista. Ela pagava 500 euros por mês, um valor que refletia aquele tempo distante. Quando o proprietário original vendeu o imóvel em 2018, a cadeia de transações começou: primeiro para a Renta Corporación, depois para a Urbagestión. Em cada mudança, as pressões aumentavam.
O Supremo Tribunal da Espanha havia decidido que o contrato antigo de Maricarmen não poderia ser renovado indefinidamente por se tratar de uma segunda sucessão — ela havia herdado o direito de sua mãe, que havia herdado de seu pai. A lei estava do lado da empresa. A Urbagestión ofereceu-lhe a compra do apartamento por 247 mil euros em 2020. Maricarmen não tinha esse dinheiro. Recusou. A empresa então reivindicou o aluguel atualizado. Quando ela não conseguiu pagar, veio o despejo — na quarta tentativa, finalmente executado.
O que aconteceu depois foi inesperado. Seu despejo provocou uma onda de protestos que se estendeu por toda a Espanha. Milhares de pessoas se mobilizaram na Puerta del Sol, em Madri, onde um acampamento de protesto foi instalado. O caso de uma mulher idosa, sozinha, incapaz de pagar o aluguel em uma cidade onde os preços explodiram, tornou-se o rosto visível de uma crise muito maior. Os preços dos aluguéis na Espanha aumentaram exponencialmente nos últimos anos — uma combinação de escassez de oferta, crescimento populacional nas grandes cidades e a pressão dos apartamentos de aluguel turístico de curta duração.
O governo do presidente Pedro Sánchez respondeu com urgência. Apresentou decretos ao Parlamento para aliviar a crise habitacional. Mas o Parlamento rejeitou os dois decretos na semana anterior à morte de Maricarmen. A rejeição foi tão significativa que Sánchez antecipou as eleições para 29 de novembro. Uma mulher de 87 anos, despejada de seu apartamento, havia movido as engrenagens políticas de um país.
Depois que os protestos explodiram, a Urbagestión mudou de posição. Aceitou que Maricarmen retornasse ao apartamento pagando um aluguel semelhante ao que vinha pagando, embora sob um novo contrato. Era uma vitória tardia. O Sindicato de Inquilinas, que havia lutado para impedir seu despejo, divulgou um comunicado após sua morte: "Embora tenha sido alcançado um acordo histórico que teria permitido seu retorno à moradia, essa solução chegou tarde demais. Trata-se de uma situação totalmente evitável após um processo torturante."
Maricarmen Abascal morreu internada. O apartamento de 92 metros quadrados no bairro de Retiro, onde ela havia vivido desde 1956, permaneceu vazio. Seu caso expôs não apenas a gravidade da crise habitacional espanhola, mas também a velocidade com que uma vida pode ser desfeita quando o mercado imobiliário se move mais rápido que a compaixão ou a lei.
Citazioni salienti
Embora tenha sido alcançado um acordo histórico que teria permitido seu retorno à moradia, essa solução chegou tarde demais. Trata-se de uma situação totalmente evitável após um processo torturante.— Sindicato de Inquilinas