Mistura de vacinas na 3ª dose contra Covid é segura, mas faltam estudos completos

Segurança da mistura parece estabelecida, mas a terceira dose é um experimento em larga escala
O Brasil avança com reforços heterólogos enquanto pesquisas específicas sobre terceira dose ainda estão em andamento.
Mark

Por que o Brasil está misturando vacinas se os estudos ainda não cobrem a terceira dose especificamente?

Mimi

Porque a situação é urgente. A variante delta está se espalhando, a proteção das vacinas diminui com o tempo, e os idosos — que foram vacinados primeiro — têm sistemas imunológicos mais fracos. Não é ideal fazer isso sem dados completos, mas esperar pelos estudos significa deixar pessoas vulneráveis desprotegidas.

Mark

Mas a OMS está dizendo que faltam evidências. Isso não deveria nos fazer pausar?

Mimi

A OMS tem razão sobre a falta de evidências. Mas ela também está argumentando que as vacinas deveriam ir para países pobres em vez de serem usadas como reforço em países ricos. É uma questão de prioridades globais, não apenas de segurança científica.

Mark

Os estudos que existem — sobre primeira e segunda doses — eles realmente mostram que misturar é melhor?

Mimi

Mostram que funciona. Gera respostas imunológicas robustas, às vezes até mais potentes do que usar a mesma vacina duas vezes. Mas "melhor" é uma palavra grande. Não sabemos se é melhor do que três doses da mesma vacina, por exemplo.

Mark

E quanto aos efeitos colaterais? As pessoas vão sofrer mais?

Mimi

Pode haver um pouco mais de calafrios e reações leves a moderadas, mas nada que mude o perfil de segurança. O corpo consegue lidar com isso.

Mark

Então basicamente o Brasil está apostando que o padrão que funcionou em primeira e segunda doses vai funcionar em terceira?

Mimi

Exatamente. É uma extrapolação razoável, mas ainda é uma extrapolação. Por isso estão fazendo pesquisas enquanto aplicam as doses.

Mark

Quem está correndo mais risco aqui — as pessoas que recebem a terceira dose ou a sociedade em geral?

Mimi

Provavelmente ninguém está correndo risco real. O risco maior é não fazer nada e deixar a variante delta se espalhar entre os idosos. É um cálculo de qual incerteza é mais aceitável.

  • Brasil inicia terceira dose em setembro para maiores de 70 anos (Ministério) e 60 anos (São Paulo)
  • Estudos mostram respostas imunológicas robustas em misturas de primeira e segunda doses, mas faltam dados para terceira dose
  • Maioria dos brasileiros recebeu Coronavac nas primeiras doses e receberá Pfizer, Janssen ou Astrazeneca como reforço
  • OMS questiona necessidade de reforço sem evidências científicas suficientes
  • Variante delta e redução de proteção com o tempo motivam a estratégia de reforço

Aplicação heteróloga (mistura de vacinas) mostrou respostas imunes robustas em estudos, mas pesquisas focaram em primeira e segunda doses. OMS questiona necessidade de reforço sem evidências científicas suficientes e defende distribuição de vacinas para países pobres.

Brasil aplicará terceira dose com vacinas diferentes das primeiras doses. Estudos apontam segurança na combinação, mas faltam dados completos sobre terceira dose heteróloga.

Em setembro, o Brasil começará a aplicar uma terceira dose de vacina contra a Covid em seus cidadãos mais velhos e vulneráveis. O Ministério da Saúde planeja iniciar no dia 15 com pessoas acima de 70 anos e imunossuprimidas, enquanto São Paulo antecipará para o dia 6 e expandirá a faixa etária para maiores de 60 anos. O que torna essa campanha particularmente complexa é que a maioria dos brasileiros que receberão esse reforço tomou a Coronavac nas duas primeiras doses e agora poderá receber um imunizante diferente — provavelmente a Pfizer, embora Janssen e Astrazeneca também estejam na lista de opções.

Essa estratégia de misturar fabricantes de vacinas tem um nome técnico: aplicação heteróloga. E embora a prática não seja nova — pesquisadores testam combinações de imunizantes desde os anos 1990 na tentativa de combater o HIV — a comunidade científica ainda está reunindo dados sobre sua segurança e eficácia quando aplicada como terceira dose. Os estudos disponíveis até agora focaram principalmente em misturas entre primeira e segunda doses, não em reforços posteriores.

O que se sabe é promissor. Pesquisas publicadas em revistas de prestígio como The Lancet e Nature Communications indicam que combinar vacinas de diferentes fabricantes gera respostas imunológicas robustas. Um estudo com mais de 600 participantes que receberam Astrazeneca como primeira dose e Pfizer como segunda mostrou uma combinação potente de resposta celular e de anticorpos. Outro, com 830 pessoas acima de 50 anos, testou a mistura de Pfizer com Astrazeneca em ambas as ordens e os resultados apoiaram a estratégia. Um pequeno estudo ainda em fase de pré-print, realizado na Tailândia com 77 pessoas que combinaram Coronavac com Astrazeneca, também observou uma resposta imunológica forte. Esses dados sugerem que o corpo consegue montar uma defesa eficaz mesmo quando as vacinas vêm de fabricantes diferentes.

Mas há um porém importante: nenhum desses estudos examinou especificamente o que acontece quando uma terceira dose heteróloga é aplicada. O Brasil está, de fato, conduzindo uma pesquisa que observará exatamente isso — como o corpo responde a um reforço de um imunizante diferente após duas doses iniciais de Coronavac. Os resultados ainda não estão disponíveis. A Organização Mundial da Saúde tem sido cautelosa, afirmando que faltam evidências científicas suficientes sobre a segurança e eficácia de terceiras doses em geral. A cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan, sugeriu que uma dose extra poderia ser um desperdício sem comprovação de necessidade, especialmente quando vacinas ainda são necessárias em países mais pobres.

A razão pela qual o Brasil e outros países estão avançando com reforços apesar dessa incerteza é dupla. Primeiro, a variante delta se mostrou mais transmissível e com capacidade de escapar parcialmente da proteção vacinal, levando a aumentos expressivos de casos e hospitalizações mesmo em países com vacinação avançada. Segundo, há evidências de que a proteção oferecida pelas vacinas diminui com o tempo, particularmente em populações idosas cujos sistemas imunológicos são naturalmente mais frágeis. Dados de vida real mostram que a Coronavac, em especial, oferece eficácia consideravelmente menor em pessoas acima de 80 anos.

Outros países já estão usando essa abordagem. O Canadá recomenda desde junho que pessoas que receberam Covishield como primeira dose recebam uma vacina de mRNA, como Pfizer ou Moderna, como segunda dose, baseado em dados que mostram melhor resposta imunológica com a mistura. A Alemanha recomenda combinar Astrazeneca com Pfizer ou Moderna — a chanceler Angela Merkel, aos 66 anos, recebeu exatamente essa combinação. Israel, com uma das campanhas de vacinação mais avançadas do mundo, foi um dos primeiros a implementar doses de reforço em julho, embora mantenha a mesma vacina (Pfizer) para todos.

Quanto aos efeitos colaterais, os dados disponíveis indicam que a combinação de vacinas pode gerar uma frequência ligeiramente maior de reações adversas leves a moderadas, como calafrios, mas o perfil de segurança permanece aceitável. Ainda não está claro se misturar vacinas é superior a receber três doses do mesmo imunizante — Israel está testando a segunda abordagem com resultados promissores até agora.

O Brasil está, portanto, em um território parcialmente mapeado. A segurança da mistura de vacinas em primeira e segunda doses parece estabelecida. Mas a terceira dose heteróloga é um experimento em larga escala, com dados sendo coletados conforme a campanha avança. Os brasileiros elegíveis receberão proteção adicional contra uma doença que continua a evoluir, mas com base em evidências que ainda estão sendo consolidadas.

Uma dose extra de vacina pode ser um desperdício e ainda ser ineficiente sem comprovação científica de que seja necessário o reforço
— Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS
As vacinas disponíveis oferecem proteção contra adoecimento severo, hospitalização e morte, que são o grande prejuízo desta pandemia
— Kate O'Brien, diretora de imunização da OMS
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