Menopausa foi libertadora, diz Rosa Montero aos 74 anos

Cada momento fica pintado de purpurina, de cores, de faíscas
Montero descreve como a consciência da finitude torna a vida mais intensa e bela com a idade.
Mark

Por que você acha que a reação ao livro — aquele elogio à "coragem" de escrever sobre desejo em uma mulher de 60 anos — a deixou tão estupefata?

Mimi

Porque não era coragem, era normalidade. Eu tenho amigas dessa idade, todas com namorados, amantes. Nunca paramos. Mas a sociedade ainda vê isso como transgressor, quando deveria ser óbvio.

Luke

Mas dez anos depois, você acha que mudou? Ou a reação seria a mesma hoje?

Mimi

Não sei. Dez anos não é muito tempo para mudar preconceitos profundos. Houve avanço, mas também cresceu uma força reacionária enorme.

Mark

Você fala muito sobre a menopausa como libertadora. Mas não corre o risco de sua experiência pessoal — livre de dores crônicas — não representar a maioria das mulheres?

Mimi

Claro que há mulheres que sofrem muito. Mas é um percentual mínimo. A maioria das mulheres que conheço se sentiu exatamente como eu: maravilhosa, libertada.

Luke

Ainda assim, a demonização da menopausa como doença é real em muitos consultórios. Você está falando de sua verdade, mas há outras verdades médicas em jogo que você não está nomeando.

Mimi

Verdade. Mas o discurso patriarcal que a transforma em doença é o problema. Não é a menopausa que é o problema — é como a sociedade a vê.

Mark

E a invisibilidade feminina? Você rejeita completamente essa ideia.

Mimi

É um clichê absurdo. Mulheres agora são presidentes, cientistas, escritoras. Não é totalmente igualitário, mas mudou muito.

Luke

Mas isso é verdade para mulheres em posições de poder. Para mulheres trabalhadoras, pobres, a invisibilidade pode ser bem real.

Mimi

Você tem razão. Eu falo a partir de meu lugar. Mas o ponto é que a narrativa de invisibilidade universal é falsa.

Mark

Você mencionou Peter Thiel e o neofascismo. Isso não é um salto muito grande em relação ao tema do livro?

Mimi

Não. Tudo está conectado. Quando há uma força retrógrada, as mulheres são sempre as primeiras vítimas. É por isso que precisamos estar atentas.

  • Montero foi recebida com elogios à sua 'coragem' por escrever sobre o desejo de uma mulher de 60 anos — e a reação a deixou indignada, pois para ela era simplesmente a coisa mais natural do mundo.
  • A menopausa, que ela descreve como uma das melhores experiências de sua vida, é tratada pela cultura contemporânea como doença — um enquadramento que ela denuncia como herança direta do discurso machista.
  • O clichê da invisibilidade feminina na meia-idade a irrita: mulheres hoje são presidentes, cientistas e escritoras, e o apagamento que algumas sentem é mais construção cultural do que realidade objetiva.
  • O que a preocupa de verdade é o avanço global de forças reacionárias que, historicamente, elegem as mulheres como primeiras vítimas — e ela, que viveu sob Franco, sabe reconhecer o cheiro da tirania.
  • Contra o medo e a pena que o envelhecimento traz, Montero tatuou no corpo um verso escavado no deserto do Atacama: uma aposta de que é possível — e necessário — viver sem nenhum dos dois.

Aos 74 anos, a escritora espanhola Rosa Montero recusa a ideia de que envelhecer é sinônimo de apagamento. Em torno de seu romance 'A Carne', que chega ao Brasil pela editora Todavia, ela reposiciona o tempo não como perda, mas como intensificação — e a menopausa não como declínio, mas como libertação. Sua voz ecoa uma tradição de mulheres que insistem em existir plenamente fora dos limites que o patriarcado lhes reservou.

Rosa Montero tem 74 anos e não aceita desaparecer. Seu romance 'A Carne', publicado na Espanha há uma década e agora lançado no Brasil pela Todavia, acompanha Soledad, uma mulher de 60 anos que contrata um gigolô para despertar ciúmes em um ex-amante, movida pelo terror de morrer sem ter sido amada como desejava. Quando o livro saiu, entrevistadores elogiavam a 'coragem' de Montero em escrever sobre desejo feminino nessa idade. Ela ficou estupefata. Ninguém questiona Mick Jagger por ter namoradas aos 80 anos. Por que uma mulher de 60 com desejo seria diferente?

Mas o livro vai além do desejo. Montero explorou o que acontece com pessoas que envelhecem acreditando nunca ter conhecido o amor verdadeiro. Uma frase de Oscar Wilde a persegue: 'Para a maioria de nós, a verdadeira vida é a que não vivemos'. Muitas pessoas têm casamentos longos, filhos, estabilidade — e ainda assim sentem que nunca foram amadas da forma que queriam.

Sobre a menopausa, ela é direta: foi libertadora. Sofreu enxaquecas hormonais desde os 13 anos, menstruações dolorosas a vida toda, medo constante de gravidez. Tudo desapareceu. Ela critica a demonização contemporânea da menopausa como doença e aponta que os homens também enfrentam a andropausa — por dez anos, não três ou quatro — e ninguém fala nisso. O problema, diz, é que as narrativas sobre a menopausa ainda estão presas ao discurso patriarcal: a ideia de que uma mulher perde seu valor ao perder a capacidade de gerar. 'É um discurso machista e falso.'

O que a preocupa genuinamente é o crescimento de forças reacionárias em todo o mundo. Montero, que viveu sob a ditadura franquista até os 24 anos, é clara: quando há uma força retrógrada, as mulheres são sempre as primeiras vítimas. Ela vê figuras poderosas defendendo abertamente o fim da democracia e alerta: é preciso estar atento.

Sobre o envelhecimento, sua visão mistura lucidez e beleza. Quanto mais velha fica, mais intensa a vida parece — cada momento pintado de cores e faíscas, como os primeiros anos de infância, mas agora com a consciência de que se está quase se despedindo do mundo. Por isso tatuou no corpo um verso do poeta chileno Raúl Zurita, escavado no deserto do Atacama: 'Nem pena nem medo'. Uma aposta que ela renova todos os dias.

Rosa Montero tem 74 anos e recusa a narrativa que envelhecer significa desaparecer. Sentada para conversar sobre seu romance "A Carne", publicado na Espanha há uma década e que chega agora ao Brasil pela editora Todavia, a escritora espanhola fala de um corpo que envelhece, de um desejo que não diminui, e de uma vida que, paradoxalmente, fica mais intensa conforme o tempo passa.

O livro acompanha Soledad, uma mulher de 60 anos que contrata um gigolô para despertar ciúmes em um amante que a abandonou, movida pelo medo de morrer sem nunca ter sido amada como gostaria. Quando o romance foi lançado, Montero foi surpreendida por entrevistadores que elogiavam sua "coragem" em escrever sobre o desejo de uma mulher naquela idade. A reação a deixou estupefata. "Para mim, era a coisa mais normal do mundo", diz. Ela aponta a contradição: ninguém questiona Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones com mais de 80 anos, por ter namoradas. Por que uma mulher de 60 anos com desejo seria diferente?

Mas o livro não trata apenas de desejo. Montero explorou algo mais profundo: o que acontece com pessoas que envelhecem acreditando nunca terem conhecido o amor verdadeiro, e o risco de morrer sem experimentá-lo. Ao escrever, descobriu que muitas pessoas vivem vidas aparentemente estáveis — casamentos de décadas, filhos, segurança material — e ainda assim sentem que nunca foram amadas da forma como desejavam. Uma frase de Oscar Wilde a persegue: "Para a maioria de nós, a verdadeira vida é a que não vivemos".

A menopausa, tema que circulava pouco quando o livro foi escrito, tornou-se central em sua reflexão sobre envelhecimento feminino. Montero é direta: a menopausa foi libertadora. Sofreu enxaquecas hormonais desde os 13 anos, menstruações dolorosas a vida toda, medo constante de gravidez. Tudo isso desapareceu. "A menopausa foi uma das melhores coisas que me aconteceram na minha vida", afirma. Ela critica a demonização contemporânea da menopausa como doença. Sim, algumas mulheres sofrem muito, reconhece, mas são minoria. Há incômodos — suores noturnos, insônia, ondas de calor — mas os homens também enfrentam andropausa, apenas durante dez anos em vez de três ou quatro. Ninguém fala disso.

O problema, para Montero, é que as narrativas sobre a menopausa permanecem presas ao discurso patriarcal: a ideia de que uma mulher perde seu valor ao perder a capacidade de gerar. "É um discurso machista e falso", diz. Ao contrário, você se sente maravilhosa, libertada. Pode fazer amor sem medo de engravidar. Conhece muitas mulheres que experimentaram exatamente isso.

Outro clichê que a irrita é o da invisibilidade feminina. Mulheres de 40 anos lhe dizem que desaparecem socialmente. Montero olha para seus próprios 40 anos e se vê quase adolescente. "Vocês acham que são invisíveis? Olhem para os homens mais jovens e verão como eles olham para vocês", responde. A verdade é que as mulheres agora ocupam cargos de poder — são presidentes de países, cientistas, escritoras. Não é totalmente igualitário ainda, mas mudou muito.

O que a preocupa genuinamente é o crescimento de forças reacionárias em todo o mundo. Nos últimos dez anos, houve avanço na desconstrução do sexismo, mas também viu crescer uma onda retrógrada que quer levar a sociedade de volta a situações obsoletas. Não é apenas uma batalha contra as mulheres, mas uma batalha entre democracia e novas formas de tirania. Quando há uma força retrógrada, as mulheres são sempre as primeiras vítimas — querem nos colocar de volta dentro de casa. Montero, que viveu sob a ditadura franquista até os 24 anos, é clara: "A pior democracia é mil vezes melhor do que a melhor ditadura". Mas vê pessoas poderosas, como o bilionário Peter Thiel, dizendo abertamente que a democracia precisa acabar. É preciso estar atento.

Sobre o envelhecimento em si, Montero tem uma visão que mistura lucidez e beleza. Envelhecemos desde o berço, precipitando-nos rumo à morte, perdendo possibilidades e futuro. Mas quando você fica bem mais velha, como ela está começando a ser, existe uma sensação vertiginosa de que o tempo está acabando que torna a vida ainda mais intensa. "Cada momento fica pintado de purpurina, de cores, de faíscas, de luzes", diz. É como viver os primeiros cinco anos de vida, quando tudo era descoberta, mas agora com a consciência de que se está quase se despedindo do mundo. Essa mesma intensidade retorna. Por isso tatuou no corpo um verso do poeta chileno Raúl Zurita, escavado no deserto do Atacama: "Nem pena nem medo". À medida que envelhece, sente mais pena pelo tempo passado e mais medo do que pode vir. Mas acredita que é preciso tentar viver sem pena e sem medo.

A menopausa foi uma das melhores coisas que me aconteceram na minha vida
— Rosa Montero
A pior democracia é mil vezes melhor do que a melhor ditadura
— Rosa Montero
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