Melhorar o futebol não depende só de dinheiro

Gestão importa tanto quanto dinheiro no futebol
O Brasil demonstra que regulamentação estável e instituições funcionais podem compensar parcialmente a disparidade financeira com a Europa.
Mark

Por que o Brasil caiu tanto em relação à Europa se historicamente fomos referência?

Mimi

Não caímos tanto quanto parece. O problema é que a Europa acelerou muito. Quando os mercados se abriram, eles tinham moeda forte e começaram a concentrar todo talento do mundo. Nós ficamos para trás porque não tínhamos a mesma capacidade financeira.

Mark

Então é só dinheiro mesmo?

Mimi

Não. Se fosse só dinheiro, a gente estaria perdido. Mas essas regras novas mostram que gestão importa. Quando você tira os artifícios, o jogo fica melhor e mais honesto.

Mark

Cinco por cento de aumento em bola em jogo parece pouco.

Mimi

Parece, mas muda tudo. Significa que o time não consegue mais ficar segurando a bola no canto do campo por cinco minutos. Força o jogo a acontecer.

Mark

E isso torna o Brasil competitivo globalmente?

Mimi

Não resolve tudo, mas ajuda. Olha a Libertadores: a gente domina porque tem gestão estável e regras claras. Quando as coisas funcionam institucionalmente, o futebol responde.

Mark

Qual é o próximo passo?

Mimi

Continuar eliminando essas práticas arcaicas. Cada detalhe que você limpa melhora o espetáculo e força os times a serem melhores de verdade.

  • A Europa concentrou praticamente toda a elite global do futebol ao combinar receitas em moedas fortes com liberdade irrestrita de contratação, deixando os clubes brasileiros em desvantagem estrutural.
  • Práticas arcaicas de retardo de jogo — romantizadas pelo folclore futebolístico — mascaravam deficiências reais e corroíam a qualidade do espetáculo oferecido ao torcedor brasileiro.
  • O Campeonato Brasileiro adotou novas regras para arremessos laterais, tiros de meta, substituições e atendimentos médicos, além de restringir questionamentos ao árbitro apenas aos capitães.
  • Já no primeiro fim de semana de aplicação, o tempo médio de bola em jogo saltou de 52min54s para 55min29s — um aumento de 5% que aproxima o Brasil dos padrões das grandes ligas europeias.
  • A hegemonia brasileira na Libertadores revela que governança institucional e regulamento estável podem ser tão decisivos quanto investimento financeiro para elevar o nível competitivo.

Ao longo deste século, o futebol brasileiro viu crescer uma distância silenciosa em relação ao europeu — distância medida em moeda forte, liberdade de contratação e concentração de talentos globais. Mas a história do esporte ensina que qualidade não nasce apenas do capital: nasce também de regras bem aplicadas e instituições que funcionam. O Brasil começa a redescobrir essa verdade, um minuto de bola em jogo de cada vez.

Ao longo deste século, abriu-se uma lacuna visível e mensurável entre o futebol brasileiro e o europeu. A razão mais óbvia é financeira: clubes de segunda ou terceira linha na Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França movimentam orçamentos que superam os dos maiores times do Brasil. Somada à liberdade praticamente irrestrita de contratar jogadores de qualquer lugar do mundo, essa realidade fez com que a Europa concentrasse em seu território quase toda a elite global de atletas, técnicos e preparadores. Elencos como os do Real Madrid, Arsenal e PSG rivalizam com as principais seleções nacionais.

Mas a disparidade financeira não condena o Brasil à passividade. Um caminho concreto já começou a ser trilhado: o Campeonato Brasileiro adotou regras simples para combater o uso sistemático de artifícios que desaceleram o jogo. Limites de tempo para arremessos laterais, tiros de meta e substituições; protocolos para atendimentos médicos em campo; e a determinação de que apenas os capitães podem questionar o árbitro. Medidas que parecem óbvias, mas que produzem efeito real.

No primeiro fim de semana de aplicação, o tempo médio de bola em jogo saltou de 52 minutos e 54 segundos para 55 minutos e 29 segundos — um aumento de 5% que aproxima o Brasil dos padrões europeus. A meta da Fifa é atingir 60 minutos, número que deixa de parecer utópico diante desse avanço.

O que essas mudanças revelam é que parte do atraso brasileiro não é apenas financeira. Práticas arcaicas, às vezes romantizadas, funcionam como disfarce para deficiências reais. Eliminá-las melhora o espetáculo e exige uma competição mais honesta. A hegemonia brasileira na Libertadores nos últimos anos confirma essa lógica: ela reflete não só investimento, mas gestão competente e regulamento estável. Quando as instituições funcionam, mesmo que imperfeitamente, o futebol melhora.

Ao longo deste século, uma lacuna considerável se abriu entre o futebol que se joga no Brasil e aquele que domina os principais campeonatos europeus. A diferença é visível, mensurável, e pesa contra nós. A razão mais óbvia é também a mais desconfortável: dinheiro. Clubes de segunda ou terceira linha na Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França movimentam receitas em moedas fortes e orçamentos que superam os dos maiores times brasileiros. Quando se soma a isso a liberdade praticamente irrestrita para contratar jogadores de qualquer lugar do mundo —privilégio que não existia em épocas anteriores— o resultado é previsível: a Europa concentrou em seu território praticamente toda a elite global de atletas, técnicos, preparadores físicos e demais profissionais do futebol. Equipes como Real Madrid, Arsenal e PSG montaram elencos que rivalizam, ou até superam, os das principais seleções nacionais.

Mas se essa disparidade financeira parece hoje inevitável, não significa que o Brasil esteja condenado à passividade. Existem caminhos ao alcance do país para elevar a qualidade do espetáculo oferecido ao público e, simultaneamente, tornar seus clubes mais competitivos no cenário internacional. Um desses caminhos já começou a ser trilhado.

O Campeonato Brasileiro adotou recentemente um conjunto de regras aparentemente simples, mas com impacto real. O objetivo era combater um dos males crônicos do futebol brasileiro: o uso sistemático de artifícios para desacelerar o jogo quando o resultado interessa à equipe. As novas normas estabeleceram limites de tempo para arremessos laterais, tiros de meta e substituições. Criaram protocolos para a retirada de jogadores do campo quando necessitam atendimento médico. Determinaram que apenas os capitães podem questionar decisões do árbitro. Medidas que, em tese, parecem óbvias em qualquer competição bem administrada.

O resultado, porém, foi concreto. No primeiro fim de semana de aplicação dessas regras, o tempo médio de bola em jogo aumentou 5%. A média anterior era de 52 minutos e 54 segundos por partida. Saltou para 55 minutos e 29 segundos. Esse número agora se aproxima do padrão das grandes ligas europeias. A Fifa estabeleceu como meta 60 minutos de bola em jogo —uma aspiração que não parece exagerada considerando que cada tempo dura 45 minutos, totalizando 90 minutos de duração regulamentar.

O que essas mudanças revelam é que muito do atraso brasileiro não é apenas uma questão de recursos financeiros. Práticas arcaicas, que o folclore futebolístico às vezes romantiza, funcionam principalmente como disfarce para as deficiências reais de times e jogadores. Eliminá-las melhora o espetáculo e força uma competição mais honesta.

É justo reconhecer que o Brasil tem se saído melhor que seus vizinhos sul-americanos nesse quesito. A hegemonia do país na Libertadores da América nos últimos anos não é apenas resultado de investimento financeiro. Reflete também uma gestão mais competente e um regulamento mais estável. Apesar dos frequentes desmandos na CBF, o país mantém um campeonato nacional que funciona com regras claras e previsíveis. Isso incentiva os clubes a apostarem em desempenho real em vez de em manobras políticas. Quando as instituições funcionam, mesmo que imperfeitamente, o futebol melhora.

Práticas arcaicas funcionam principalmente como disfarce para as deficiências reais de times e jogadores
— análise do artigo
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur Folha de S.Paulo ↗
Nous contacter FAQ