Por duas décadas, o Brasil construiu pacientemente uma arquitetura institucional — do Fundeb ao piso do magistério, da escolaridade obrigatória ao Ideb — que transformou um sistema marcado pela exclusão e pelo abandono em um dos que mais avançaram em acesso e aprendizagem no mundo em desenvolvimento. O resultado histórico do índice em 2025 não é apenas um número: é o reflexo de um pacto entre Estado e sociedade que provou ser possível garantir escola a quase todas as crianças brasileiras. O horizonte, porém, revela que universalizar o acesso foi apenas o primeiro capítulo — o mais difícil aind
Melhor Ideb em 20 anos marca avanço, mas expõe desafio de equidade na educação
Aprendizagem com equidade é o próximo salto que o Brasil precisa dar
Por que o Ideb foi tão importante para a educação brasileira?
Porque antes dele, o país não tinha uma forma comum de medir e comparar o que estava acontecendo nas escolas. Cada rede fazia suas próprias avaliações. O Ideb criou uma linguagem compartilhada entre governo, escolas e sociedade.
E o que mudou de verdade com essas políticas todas — Fundeb, piso do magistério, educação obrigatória até os 17?
Mudou o acesso. Crianças que estavam fora da escola entraram. Mas também mudou a permanência — menos gente abandonava no meio do caminho. E a aprendizagem avançou, embora de forma muito desigual.
Desigual como?
Um menino em São Paulo aprendia diferente de uma menina no interior do Ceará. O CEP, a renda, a cor — tudo isso determinava quanto você aprendia. Os números melhoraram no geral, mas as lacunas entre ricos e pobres continuaram grandes.
E aquele corte de 100 bilhões entre 2016 e 2021?
Foi um baque. Educação não é algo que você para e depois retoma. Quando você corta recursos desse jeito, você interrompe programas, perde professores, deixa escolas sem manutenção. O país perdeu anos de progresso.
Então agora, com a retomada desde 2023, estamos de volta ao caminho?
Estamos tentando. Mas o desafio agora é diferente. Não é mais colocar crianças na escola — a maioria já está lá. É garantir que todas aprendam de verdade, independente de onde nasçam ou quanto dinheiro seus pais tenham.
Como se faz isso?
Infraestrutura melhor, professores bem pagos e respeitados, currículos que façam sentido, educação integral. E tudo isso tem que chegar a todos ao mesmo tempo, não só aos que já têm vantagem.
Le Pouls
- O Ideb atingiu em 2025 seu melhor resultado em 20 anos de série histórica, com os anos iniciais do ensino fundamental saltando de 3,8 para 6,3 — equivalente a mais de três anos de aprendizagem acumulada.
- Entre 2016 e 2021, cortes orçamentários retiraram o equivalente a 100 bilhões de reais da função educação no governo federal, interrompendo o ritmo de avanços e expondo a fragilidade de políticas que dependem de continuidade.
- Desde 2023, o governo retomou investimentos em infraestrutura, alfabetização, valorização docente e educação integral, recolocando a coordenação federativa no centro da estratégia educacional.
- Escolas com jornada de sete horas ou mais apresentaram resultados superiores nas três etapas avaliadas, sinalizando que a educação em tempo integral é um dos caminhos mais promissores para o próximo salto.
- O grande desafio que permanece é romper com a lógica em que o CEP, a renda e a cor ainda determinam as oportunidades de aprendizagem de uma criança brasileira.
Por duas décadas, o Brasil construiu pacientemente uma arquitetura institucional — do Fundeb ao piso do magistério, da escolaridade obrigatória ao Ideb — que transformou um sistema marcado pela exclusão e pelo abandono em um dos que mais avançaram em acesso e aprendizagem no mundo em desenvolvimento. O resultado histórico do índice em 2025 não é apenas um número: é o reflexo de um pacto entre Estado e sociedade que provou ser possível garantir escola a quase todas as crianças brasileiras. O horizonte, porém, revela que universalizar o acesso foi apenas o primeiro capítulo — o mais difícil ainda está por escrever, pois a qualidade da aprendizagem continua sendo distribuída de forma profundamente desigual conforme o endereço, a renda e a cor de cada estudante.
Vinte anos atrás, o Brasil não sabia ao certo como estava sua educação. A criação do Ideb deu ao país uma referência comum, combinando aprendizagem com trajetória escolar para revelar três problemas crônicos: crianças fora da escola, reprovação e abandono generalizados, e aprendizagem baixa e desigual.
A resposta veio como um pacto de Estado. O Fundeb redistribuiu recursos entre estados e municípios. O Plano de Desenvolvimento da Educação articulou avaliação e formação docente. Um piso salarial garantiu ganho real aos professores. A Emenda Constitucional 59 ampliou a escolaridade obrigatória dos 4 aos 17 anos. O Ideb completou essa arquitetura ao identificar, com objetividade, quais escolas e territórios mais precisavam de apoio.
Os frutos dessa estrutura são visíveis: o ensino fundamental tornou-se praticamente universal e a aprendizagem avançou de forma expressiva. Mas a trajetória não foi linear. Entre 2016 e 2021, a função educação perdeu o equivalente a 100 bilhões de reais no orçamento federal, comprimindo a capacidade do país de apoiar suas redes e reduzir desigualdades.
Desde 2023, houve retomada dos investimentos e da coordenação federativa, com políticas de alfabetização, infraestrutura e educação integral voltando ao centro da agenda. O Brasil de hoje é diferente daquele de 2005 — mais escolarizado, com trajetórias mais estáveis e aprendizagem em alta.
O próximo desafio é garantir que esses avanços cheguem a todos. Enquanto o código postal, a renda ou a cor seguirem determinando as oportunidades de uma criança, não haverá educação de qualidade plena. O Ideb já aponta o caminho: em 2025, escolas com jornada de sete horas ou mais tiveram resultados superiores nas três etapas avaliadas. O Brasil provou que universalizar o acesso era possível. Agora precisa provar que universalizar a aprendizagem também é.
Duas décadas atrás, o Brasil enfrentava uma pergunta que não conseguia responder com clareza: como estava sua educação e para onde ela caminhava? A resposta veio com a criação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb, um indicador que combinaria aprendizagem com trajetória escolar para dar ao país uma referência comum. Agora, com o resultado mais recente representando o melhor desempenho da série histórica, é possível olhar para trás e ver não apenas números, mas a transformação de um sistema que começou marcado por três problemas crônicos: milhões de crianças fora da escola, altos índices de reprovação e abandono, e aprendizagem baixa e profundamente desigual.
A resposta do Estado brasileiro veio em forma de um pacto com a sociedade civil: transformar educação em política de Estado. O Fundeb, criado em 2007, redistribuiu recursos para a educação básica de forma mais equitativa entre estados e municípios. O Plano de Desenvolvimento da Educação articulou avaliação, formação de professores e colaboração entre os três níveis de governo. Em 2008, estabeleceu-se um piso salarial para o magistério que garantiu ganho real aos professores durante esse período. A Emenda Constitucional 59, de 2009, expandiu a escolaridade obrigatória e gratuita dos 4 aos 17 anos, quando antes era apenas dos 7 aos 14. O Ideb completou essa arquitetura ao permitir identificar, com critérios objetivos, quais escolas e territórios mais precisavam de apoio público.
Os resultados dessa estrutura aparecem na própria trajetória do índice. O ensino fundamental tornou-se praticamente universal. As trajetórias escolares melhoraram significativamente. A aprendizagem avançou de forma considerável: nos anos iniciais, o Ideb saiu de 3,8 em 2005 para 6,3 em 2025, um avanço equivalente a mais de três anos de aprendizagem segundo o Sistema de Avaliação da Educação Básica. Mas essa evolução franca mascara uma grave interrupção. Entre 2016 e 2021, a função educação no orçamento do Executivo federal perdeu o equivalente a 100 bilhões de reais em valores corrigidos. Educação exige continuidade e compromisso político; quando os recursos são comprimidos dessa forma, o país perde capacidade de apoiar suas redes, reduzir desigualdades e planejar o futuro.
Desde 2023, houve retomada da capacidade de coordenação federativa e dos investimentos. Construíram-se políticas de alfabetização e permanência, ampliaram-se recursos em infraestrutura e recolocou-se a valorização dos professores e a educação integral no centro da agenda. Essa retomada acontece em um Brasil diferente daquele de 20 anos atrás. O país avançou muito no acesso e na trajetória escolar, além de progredir na aprendizagem, o que permite estabelecer uma ambição maior para os próximos ciclos.
Agora, a prioridade será garantir aprendizagem com equidade. Não é possível falar em educação de qualidade enquanto o código postal, a renda ou a cor determinarem quais serão as oportunidades de uma criança aprender. O próximo salto da educação brasileira dependerá da capacidade de fazer os avanços chegarem a todos. Para isso, é necessário assegurar recursos para o Programa Nacional de Infraestrutura Escolar, previsto no novo Plano Nacional de Educação, e combinar professores valorizados, currículos atualizados e expansão da educação integral. O próprio Ideb aponta esse caminho: em 2025, escolas com jornada média de sete horas ou mais tiveram resultados superiores nas três etapas avaliadas.
A partir do desafio traçado em 2007, no primeiro ciclo do Ideb, o Brasil provou que o sonho de garantir educação a todos era possível. Nos próximos anos, o desafio será garantir aprendizagem à altura do que o povo brasileiro espera.
Citations marquantes
Não podemos falar em educação de qualidade enquanto o CEP, a renda ou a cor determinarem quais serão as oportunidades de uma criança aprender— Perspectiva apresentada no artigo sobre o desafio de equidade