Diploma obrigatório ameaça liberdade de imprensa

Decidir quem pode fiscalizar o poder como profissão é controle
A exigência de diploma transforma a liberdade de informar em privilégio concedido pelo Estado.
Mark

Por que a exigência de diploma é diferente de outras profissões reguladas? Médicos precisam de diploma, e ninguém questiona.

Mimi

Porque medicina envolve risco material direto — você pode machucar ou matar alguém. Jornalismo envolve risco político. O Estado tem interesse em controlar quem pode fiscalizá-lo; não tem interesse em controlar quem faz cirurgia.

Mark

Mas a qualidade não melhoraria se houvesse um padrão mínimo de formação?

Mimi

Qualidade vem de seleção, treinamento, edição, checagem, reputação. Tudo isso já existe. Um diploma não adiciona nada disso — apenas cria um portão que o Estado controla.

Mark

E se alguém completamente despreparado começasse a publicar mentiras?

Mimi

Ele seria responsabilizado depois. Difamação, calúnia — as leis já existem. A diferença é que a responsabilidade vem após o dano, não antes, impedindo a fala. Isso protege a liberdade.

Mark

Você acha que há uma conexão real entre essa defesa do diploma e os episódios recentes no STF?

Mimi

A sequência é muito clara. Um ministro quebra o sigilo de um jornalista que investigava outro ministro. Depois, ambos defendem a exigência de diploma. Não é coincidência. É o poder tentando definir quem pode fiscalizá-lo.

  • Ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino defenderam o diploma obrigatório logo após um episódio em que o sigilo de fonte de um jornalista foi quebrado por ordem judicial — a coincidência acende alertas sobre motivações reais.
  • A Fenaj e setores do STF insistem que a credencial garante qualidade técnica e ética, mas EUA, Reino Unido, Alemanha e França provam o contrário: têm jornalismo profissionalizado sem nenhuma exigência formal de diploma.
  • O risco central é estrutural: quem define a credencial controla quem pode fiscalizar o poder — transformando uma barreira burocrática em instrumento de censura indireta.
  • O STF já enterrou juridicamente a questão em 2009, declarando a exigência inconstitucional, e a Corte Interamericana de Direitos Humanos reforçou essa posição — mas o debate político recusa-se a morrer.
  • A qualidade jornalística, argumenta-se, nasce de redações rigorosas, competição entre veículos, verificação de fatos e reputação construída ao longo do tempo — nenhum desses pilares depende de um papel assinado pelo Estado.

Em democracias consolidadas, a liberdade de informar pertence ao cidadão antes de pertencer ao profissional credenciado — e é justamente por isso que subordinar o jornalismo a um diploma estatal inverte a lógica da fiscalização do poder. O debate ressurge no Brasil com força simbólica: ministros do STF e a Fenaj defendem a obrigatoriedade de formação formal numa sequência de eventos que levanta dúvidas sobre se o argumento é de qualidade ou de controle. O próprio STF já declarou a exigência inconstitucional em 2009, e a Corte Interamericana de Direitos Humanos chegou à mesma conclusão — sinais de que a questão transcende a técnica e toca o núcleo da liberdade de imprensa.

A defesa do diploma obrigatório em jornalismo costuma se apresentar com roupagem técnica: garantir qualidade, ética, preparo profissional. Mas o argumento não resiste à comparação internacional. Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e França mantêm sistemas jornalísticos entre os mais respeitados do mundo sem exigir formação formal de seus repórteres e editores. Se o diploma fosse garantia de excelência, essas democracias consolidadas não teriam abdicado dele.

A analogia com profissões reguladas como medicina e direito também falha ao exame mais cuidadoso. Advogados e juízes precisam de formação específica — e ainda assim seus campos convivem com incompetência, abusos e corrupção. Mais importante: construir edifícios ou realizar cirurgias não são direitos universais. Buscar e divulgar informações, sim. A Constituição garante essa liberdade a todos os cidadãos, e a responsabilização do jornalista ocorre depois dos fatos, justamente para preservar esse espaço aberto.

O ponto mais delicado é político, não pedagógico. Jornalismo é o exercício habitual e remunerado da liberdade de informar. Quando o Estado define quem pode exercê-lo profissionalmente, passa a controlar quem pode fiscalizá-lo — uma lógica que pertence ao repertório autoritário, não ao democrático. O STF reconheceu isso em 2009, declarando a exigência inconstitucional. A Corte Interamericana de Direitos Humanos chegou à mesma conclusão.

O que torna o episódio atual ainda mais revelador é o contexto em que a defesa do diploma ressurgiu. Os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino manifestaram apoio à obrigatoriedade logo após Moraes determinar a quebra do sigilo de fonte de um jornalista que investigava supostas irregularidades cometidas por Dino. A sequência dos eventos sugere que a preocupação com credenciais tem menos a ver com qualidade jornalística e mais com o desconforto diante de quem investiga o poder.

A exigência de diploma em jornalismo para exercer a profissão representa uma ameaça direta às liberdades fundamentais, e é desconcertante que ministros do Supremo Tribunal Federal e a Federação Nacional dos Jornalistas fingissem desconhecer essa realidade. O argumento mais comum em defesa da obrigatoriedade apela para a garantia de qualidade técnica e ética — uma justificativa que não resiste ao escrutínio dos fatos.

Os Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e França mantêm sistemas jornalísticos entre os mais profissionalizados do mundo sem exigir que seus praticantes possuam diploma formal. A comparação com outras profissões revela a inconsistência da lógica: advogados e juízes precisam cursar direito, é verdade, mas essa exigência não eliminou incompetência, abusos ou corrupção em seus campos. Se o diploma fosse garantia de qualidade, essas profissões reguladas não enfrentariam os problemas que enfrentam.

A qualidade no jornalismo emerge de um ecossistema muito mais complexo do que credenciais. Resulta de processos de seleção rigorosa, treinamento contínuo, edição cuidadosa, direito de resposta, verificação de fatos, correção de erros publicados, transparência sobre métodos, competição entre veículos e, fundamentalmente, da reputação que cada jornalista e cada redação constroem ao longo do tempo. Nenhum desses elementos depende de um diploma expedido pelo Estado.

Ninguém argumenta contra a existência de faculdades de jornalismo. O que se critica é a transformação dessa formação em requisito obrigatório para o exercício de uma atividade que não representa risco material grave comparável ao de medicina ou engenharia. A responsabilização de jornalistas ocorre depois dos fatos — a posteriori — justamente para proteger uma liberdade que a Constituição garante a todos os cidadãos. Buscar e divulgar informações não é um privilégio; é um direito fundamental. Construir edifícios ou realizar cirurgias, por outro lado, não são direitos universais.

O cerne da questão é que jornalismo é o exercício habitual e remunerado da liberdade de informar. Subordinar essa prática a uma credencial definida e controlada pelo Estado significa entregar ao próprio poder político a autoridade de decidir quem pode profissionalmente fiscalizá-lo. Essa é a lógica do controle autoritário. O Supremo Tribunal Federal reconheceu isso em 2009, quando considerou a exigência incompatível com a Constituição. A Corte Interamericana de Direitos Humanos chegou à mesma conclusão. Democracias liberais consolidadas não mantêm essa exigência.

A censura estatal não se limita à proibição direta de conteúdo. Ela também opera de forma indireta, quando o Estado constrange a atividade jornalística por meio de impostos abusivos, restrições de acesso ou, como neste caso, pela imposição de barreiras credenciais. Decidir quem pode exercer o escrutínio do poder como profissão é apenas mais uma forma de controle — talvez mais sofisticada, mas não menos perigosa.

É particularmente revelador que os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino tenham defendido a exigência de diploma logo após um episódio específico: Moraes havia determinado a quebra inconstitucional do sigilo da fonte de um jornalista que publicou reportagens sobre irregularidades supostamente cometidas por Dino. A sequência dos eventos sugere que a defesa da credencial estatal não emerge de princípios abstratos sobre qualidade, mas de interesses muito concretos em limitar quem pode investigar o poder.

Jornalismo é a prática habitual e remunerada da liberdade de buscar e divulgar informações. Condicioná-lo a credencial definida pelo Estado significa conceder ao próprio poder político a capacidade de decidir quem pode profissionalmente fiscalizá-lo.
— Colunista da Folha
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