Mahathir Mohamad, o líder que governou a Malásia por mais décadas do que qualquer outro, ergue sua voz em fevereiro de 2023 para situar a guerra na Ucrânia dentro de uma narrativa mais longa: não como ruptura, mas como continuidade de uma ordem ocidental construída sobre hegemonia e provocação. Para ele, a expansão da OTAN após o fim da Guerra Fria não foi descuido diplomático, mas escolha deliberada — e a invasão russa, por mais condenável que seja, emerge como resposta previsível a esse acúmulo de pressões. O ex-premier avisa que o mundo, da Europa ao Leste Asiático, caminha sobre um fio cad
Mahatir acusa Europa de provocar guerra na Ucrânia por 'amor à hegemonia'
O Ocidente designou seu antigo parceiro como novo inimigo
Por que Mahathir vê a expansão da OTAN após a Guerra Fria como provocação, e não como escolha legítima de países independentes?
Porque, na sua leitura, esses países não eram realmente livres para escolher. Foram pressionados pelo Ocidente a aderir a uma aliança militar voltada contra a Rússia — transformados em peças num tabuleiro de xadrez geopolítico, não em atores autônomos.
Ele está dizendo que a Rússia não tinha escolha senão invadir a Ucrânia?
Não exatamente. Ele está dizendo que a Rússia foi provocada sistematicamente até o ponto de agir. Há uma diferença entre explicar por que algo aconteceu e justificá-lo moralmente.
E quanto à Malásia sofrer com escassez e inflação? Isso é culpa do Ocidente ou da Rússia?
Para Mahathir, é culpa do Ocidente por impor sanções que prejudicam economias globais. Mas há uma ironia: a Malásia também sofre porque depende de suprimentos russos e ucranianos. Ninguém sai ileso.
Ele vê Taiwan como análogo à Ucrânia?
Sim. Nos dois casos, vê o Ocidente armando e apoiando territórios que fazem fronteira com potências que considera ameaçadas. O padrão é o mesmo; apenas a geografia muda.
Qual é o seu ponto final? Que o Ocidente deveria parar de expandir a OTAN?
Mais do que isso: que o Ocidente deveria reconhecer que sua busca por hegemonia global — não a agressão russa isolada — é o motor do conflito. Sem essa mudança de perspectiva, ele acredita que mais guerras virão.
El Pulso
- Mahathir lança uma acusação direta ao Ocidente: a guerra na Ucrânia não nasceu do impulso russo, mas foi cultivada por décadas de expansão da OTAN e de uma cultura europeia que, segundo ele, nunca abandonou o amor pela dominação.
- O argumento ganha força histórica ao lembrar que a Rússia dissolveu o Pacto de Varsóvia após a Guerra Fria, enquanto a OTAN não apenas sobreviveu, mas avançou em direção às fronteiras russas — transformando ex-aliados em adversários declarados.
- A tensão se multiplica no Leste Asiático: a visita de Nancy Pelosi a Taiwan e o fornecimento contínuo de armas americanas à ilha repetem, para Mahathir, a mesma lógica de provocação que acendeu a Ucrânia.
- As sanções ocidentais, longe de conter Moscou, já produzem escassez e inflação em países como a Malásia — um efeito colateral que atinge com mais força as economias em desenvolvimento.
- Mahathir conclui com um alerta sóbrio: seu país precisa de planos de contingência para o que pode ser o prelúdio de uma Terceira Guerra Mundial, com a ameaça nuclear pairando sobre o horizonte.
Mahathir Mohamad, o líder que governou a Malásia por mais décadas do que qualquer outro, ergue sua voz em fevereiro de 2023 para situar a guerra na Ucrânia dentro de uma narrativa mais longa: não como ruptura, mas como continuidade de uma ordem ocidental construída sobre hegemonia e provocação. Para ele, a expansão da OTAN após o fim da Guerra Fria não foi descuido diplomático, mas escolha deliberada — e a invasão russa, por mais condenável que seja, emerge como resposta previsível a esse acúmulo de pressões. O ex-premier avisa que o mundo, da Europa ao Leste Asiático, caminha sobre um fio cada vez mais tenso.
Mahathir Mohamad, que governou a Malásia por mais tempo do que qualquer outro premier — de 1981 a 2003 e novamente de 2018 a 2020 —, usou o Twitter em 24 de fevereiro de 2023 para fazer uma acusação direta: a guerra na Ucrânia não é fruto de agressão russa isolada, mas de uma provocação sistemática do Ocidente movida pelo desejo de manter sua hegemonia global.
Sua narrativa parte da Segunda Guerra Mundial: quando a Alemanha foi derrotada, o Ocidente converteu rapidamente seu aliado russo em novo inimigo e criou a OTAN como aliança explicitamente voltada contra Moscou. Quando a União Soviética se desintegrou, a Rússia desmontou o Pacto de Varsóvia e libertou suas repúblicas — mas a OTAN não foi dissolvida. Ao contrário, avançou, absorvendo países que antes orbitavam Moscou e transformando-os em adversários declarados da Rússia. Para Mahathir, a invasão de 2022 foi a resposta previsível a esse acúmulo de pressões.
O ex-líder também enxerga o mesmo padrão no Leste Asiático: a visita de Nancy Pelosi a Taiwan e o fornecimento americano de armamentos à ilha replicam, segundo ele, a lógica de provocação que levou à guerra europeia. Em sua leitura, não se trata de episódios isolados, mas de uma característica estrutural do capitalismo ocidental — a busca por dominação como motor permanente da política externa.
As consequências já eram sentidas na Malásia: escassez de suprimentos e inflação como efeito direto das sanções e da retaliação russa. Mahathir encerrou seus comentários não com alarmismo, mas com resignação pragmática — seu país precisava se preparar para o que poderia ser o início de uma Terceira Guerra Mundial, com a sombra nuclear tornando o cenário ainda mais grave.
Mahathir Mohamad, que governou a Malásia por mais tempo do que qualquer outro primeiro-ministro do país — primeiro entre 1981 e 2003, depois novamente de 2018 a 2020 — fez uma acusação contundente em fevereiro de 2023: a guerra na Ucrânia não é resultado de agressão russa isolada, mas de uma provocação sistemática do Ocidente movida pelo desejo de manter sua hegemonia global.
Em uma série de postagens no Twitter datadas de 24 de fevereiro de 2023, Mahathir argumentou que o conflito entre Ucrânia e Rússia brota do "amor dos europeus pela guerra, pela hegemonia, pela dominação". Ele traçou uma narrativa histórica para sustentar seu ponto: após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, quando a Rússia havia sido aliada do Ocidente, os países europeus e os EUA imediatamente designaram seu antigo parceiro como novo inimigo. A OTAN foi criada como uma aliança militar explicitamente voltada contra Moscou.
Quando a União Soviética se desintegrou no final dos anos 1980, Mahathir observou, a Rússia desmontou seu próprio bloco militar — o Pacto de Varsóvia — e permitiu que as antigas repúblicas soviéticas se tornassem independentes. Mas a OTAN não foi dissolvida. Em vez disso, os países que se libertaram da influência russa foram pressionados a aderir à aliança ocidental, transformando-os em inimigos declarados de Moscou. Conforme a Rússia enfraquecida reconstruía suas capacidades militares diante dessa ameaça crescente, as tensões se intensificaram, alimentadas por exercícios militares da OTAN cada vez mais próximos às fronteiras russas.
Para Mahathir, a invasão russa da Ucrânia em 2022 foi uma resposta a essa provocação contínua — e um sinal de algo muito maior. Ele interpretou o conflito como potencialmente o início de uma Terceira Guerra Mundial, especialmente considerando as ameaças de uso de armas nucleares que surgiram durante o combate. As sanções ocidentais contra a Rússia, argumentou, não apenas prejudicariam Moscou, mas causariam escassez global de suprimentos que afetariam economias em todo o mundo.
Mahathir também apontou provocações paralelas no Leste Asiático. A visita da então presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, a Taiwan em 2022 elevou dramaticamente as tensões entre China e Taiwan. Os EUA continuaram fornecendo armamentos significativos à ilha, enquanto Pequim adotava uma postura cada vez mais agressiva. Para o ex-líder malaio, esse padrão de comportamento americano — apoiar separatistas e fornecer armas — replicava a mesma lógica de provocação que havia levado à guerra na Ucrânia.
Mahathir é conhecido há décadas como crítico da ordem econômica liberal ocidental e do chamado "consenso de Washington". Ele tem argumentado consistentemente que o imperialismo está enraizado no capitalismo ocidental e que a busca por hegemonia é uma característica estrutural do sistema. Seus comentários sobre a Ucrânia refletem essa perspectiva mais ampla: para ele, o conflito não é uma anomalia, mas uma expressão lógica de como o Ocidente mantém seu domínio global.
As consequências dessa dinâmica, em sua visão, já eram visíveis. A Malásia, como muitos países em desenvolvimento, estava experimentando escassez de suprimentos e inflação como resultado direto das sanções e da retaliação russa. Mahathir concluiu seus comentários com um aviso: seu país — e presumivelmente outros — precisava preparar planos de contingência para o que poderia ser o início de uma Terceira Guerra Mundial. O tom era menos de alarmismo e mais de resignação diante de uma lógica geopolítica que ele vê como inexorável.
Citas Notables
A atual guerra entre a Ucrânia e a Rússia é causada pelo amor dos europeus pela guerra, pela hegemonia, pela dominação— Mahathir Mohamad
Aquela invasão pode ser interpretada como o começo da Terceira Guerra Mundial— Mahathir Mohamad