Diante da Assembleia Geral da ONU, Lula ocupou simultaneamente dois lugares difíceis de conciliar: o do estadista que diagnostica a erosão da ordem multilateral e o do candidato que busca votos a poucos dias de uma eleição. O discurso começou com lucidez geopolítica, mas foi cedendo espaço a promessas domésticas e golpes simbólicos contra adversários — um movimento que revela menos sobre o mundo e mais sobre o Brasil de 2026.
Lula mistura papéis de estadista e candidato na abertura da ONU
O candidato à reeleição suplantou o projeto de estadista
Por que é importante que Lula tenha escolhido a ONU para fazer campanha? Não é estranho usar um fórum internacional para falar de política doméstica?
Não é incomum. Líderes sempre usaram a Assembleia Geral assim. Mas há uma diferença entre mencionar realizações nacionais e estruturar um discurso inteiro em torno de promessas eleitorais. Lula fez os dois.
Mas qual era o público real? Os delegados da ONU não votam em eleições brasileiras. Se o discurso era para consumo doméstico, por que não fazer em casa?
Porque a cobertura global amplifica a mensagem. Quando Lula fala na ONU, a mídia brasileira repercute como se fosse um evento internacional importante. É marketing político com selo de legitimidade.
E quanto à crítica a Trump? Isso funcionou?
Funcionou em parte. Lula conseguiu associar Trump ao bolsonarismo sem nomear ninguém, o que é uma estratégia inteligente. Mas Trump nem respondeu — nem mencionou o Brasil.
Exatamente. Trump ignorou completamente. Isso sugere que a crítica implícita não teve o impacto que Lula esperava. E há outro problema: a Casa Branca está atacando crime organizado, que é um tema fraco para a campanha petista.
Verdade. A ofensiva contra o crime organizado, mesmo que populista, ocupa espaço que Lula gostaria de controlar. Ele não pode simplesmente ignorar.
Então o discurso não alcançou seus objetivos?
Alcançou alguns. A soberania é um tema que ressoa bem. Mas as vantagens não são tão claras quanto foram em momentos anteriores. O contexto mudou.
E há ainda a questão da Clausewitz. Lula tentou negar que guerra é continuação da política, o que é filosoficamente fraco. Qualquer pessoa que conhecesse o texto original teria notado.
Isso importa para o eleitor brasileiro?
Provavelmente não. Mas importa para quem está acompanhando o discurso internacionalmente. E isso afeta como o Brasil é percebido como potência intelectual.
Der Puls
- O diagnóstico de Lula sobre o colapso do multilateralismo era preciso, mas a argumentação desandou ao tentar refutar Clausewitz sem dominar o pensamento do prussiano.
- Críticas veladas a Trump, Israel e ao embargo a Cuba coexistiram com a menção ao fim da escala 6x1 — uma promessa eleitoral que soou deslocada no púlpito das Nações Unidas.
- Trump nunca foi nomeado, mas sua sombra atravessou cada parágrafo: guerras tarifárias, militarismo e a doutrina do Hemisfério Ocidental como quintal de Washington.
- Lula invocou soberania nacional para blindar as eleições de qualquer ingerência externa, transformando o palco da ONU em trincheira contra o bolsonarismo pró-Trump.
- A estratégia perde força justamente agora: a ofensiva americana contra o crime organizado corrói o terreno petista, e o medo de interferência direta não se materializou — o próprio presidente o admitiu.
Diante da Assembleia Geral da ONU, Lula ocupou simultaneamente dois lugares difíceis de conciliar: o do estadista que diagnostica a erosão da ordem multilateral e o do candidato que busca votos a poucos dias de uma eleição. O discurso começou com lucidez geopolítica, mas foi cedendo espaço a promessas domésticas e golpes simbólicos contra adversários — um movimento que revela menos sobre o mundo e mais sobre o Brasil de 2026.
A Assembleia Geral da ONU tem servido historicamente a dois propósitos: análise geopolítica séria e palco para líderes enviarem mensagens ao público doméstico. Na terça-feira, 22 de setembro, Lula tentou as duas coisas na abertura da 81ª edição — e o candidato acabou ofuscando o estadista.
O discurso começou com solidez. O diagnóstico sobre o colapso do sistema multilateral era preciso e se tornaria ainda mais evidente quando Trump tomasse a palavra minutos depois. Mas o fio se perdeu quando Lula tentou refutar a máxima de Clausewitz — aquela de que a guerra é a continuação da política por outros meios — sem dominar a profundidade do conceito prussiano.
O que se seguiu foi uma mistura de preocupações legítimas e prioridades de campanha. Críticas implícitas a Israel, ao embargo a Cuba e às tarifas americanas dividiram espaço com a menção ao fim da escala 6x1, promessa doméstica que soou deslocada no púlpito da ONU. Trump nunca foi nomeado diretamente, mas sua presença pairava sobre cada parágrafo.
Na disputa com Flávio Bolsonaro, Lula concentrou-se em segurança e soberania, rejeitando qualquer ingerência 'interna ou externa' nas eleições — referência velada à afinidade de Trump com o bolsonarismo. 'O Brasil não cabe no quintal de ninguém', declarou, transformando o palco internacional em trincheira eleitoral.
O problema é de timing. As vantagens desse tipo de discurso eram mais visíveis durante a guerra tarifária de 2025. Agora, a ofensiva da Casa Branca contra o crime organizado avança sobre terreno delicado para o PT, e o próprio Lula confirmou a Bernie Sanders que o temor de interferência direta não se materializou. A mistura de papéis deixou claro que o candidato tinha mais a ganhar com mensagens para casa do que com reflexões sobre a ordem internacional.
A Assembleia Geral das Nações Unidas tem uma longa história de servir a dois propósitos simultâneos: funcionar como fórum para análise séria da geopolítica global e oferecer um palco onde líderes de países menores aproveitam a atenção internacional para enviar mensagens domésticas. Na terça-feira, 22 de setembro, Luiz Inácio Lula da Silva tentou fazer ambas as coisas na abertura da 81ª edição do evento, mas o candidato à reeleição acabou ofuscando o estadista.
Lula começou com solidez. Seu diagnóstico sobre o colapso do sistema multilateral era preciso e se tornaria ainda mais evidente minutos depois, quando Donald Trump tomaria a palavra. Mas o discurso perdeu o fio quando tentou refutar a máxima do general prussiano Carl von Clausewitz — aquela de que a guerra é a continuação da política por outros meios. Quem conhecesse o alemão poderia ter lembrado ao presidente que a "Politik" de Clausewitz ia muito além de objetivos imediatos e táticos.
O que se seguiu foi uma mistura de preocupações legítimas e prioridades de campanha. Lula falou sobre um mundo em guerra, o que não é exagero, mas ofereceu pouco além de lugares-comuns sobre o tema. Depois pivotou para críticas — algumas explícitas, outras apenas implícitas — a Israel, ao embargo americano a Cuba e às políticas tarifárias. Mencionou até o fim da escala de trabalho 6x1, uma promessa doméstica que soou deslocada no púlpito das Nações Unidas, embora longe de ser tão desconfortável quanto as declarações que Jair Bolsonaro havia feito em discursos anteriores naquele mesmo espaço.
Trump nunca foi nomeado diretamente, talvez para não deteriorar ainda mais uma relação já frágil. Mas sua presença pairava sobre o discurso — a guerra comercial, o militarismo, a inteligência artificial sem freios, e a doutrina de que o Hemisfério Ocidental é zona de influência exclusiva de Washington. O americano, por sua vez, nem mencionou o Brasil em sua própria fala.
Na disputa com Flávio Bolsonaro pelo voto, Lula concentrou-se em segurança. Listou realizações como o Pix e mudanças na legislação trabalhista, mas foi mais direto ao rejeitar qualquer ingerência "interna ou externa" nas eleições deste ano — uma referência velada a Trump e sua afinidade com o bolsonarismo. O presidente invocou a soberania: "o Brasil não cabe no quintal de ninguém". Não é uma preocupação implausível, dada a Estratégia de Segurança Nacional americana e o histórico intervencionista de Trump. Além disso, funcionava como um golpe contra o bolsonarismo devotado ao republicano.
Mas há um problema de timing. As vantagens desse tipo de discurso não são tão visíveis agora quanto foram durante a guerra tarifária de 2025. A ofensiva da Casa Branca contra o crime organizado, por mais populista que seja, avança sobre um terreno delicado para a campanha petista. A poucos dias da eleição, o temor de uma interferência externa direta não se materializou — o próprio Lula confirmou isso em conversa com o senador Bernie Sanders. Ainda assim, a estratégia de misturar papéis deixou claro que o candidato tinha mais a ganhar com mensagens para casa do que com reflexões sobre a ordem internacional.
Bemerkenswerte Zitate
O Brasil não cabe no quintal de ninguém— Lula, na Assembleia Geral da ONU