No final de julho de 2021, o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador ergueu a voz contra o bloqueio norte-americano a Cuba, classificando-o de 'desumano' e 'medieval' num momento em que a ilha atravessava a sua maior crise social do século. A sua intervenção não foi apenas retórica: o México enviou ajuda humanitária por mar, traduzindo em ação uma posição diplomática que desafia Washington sem romper com ele. No fundo, López Obrador colocava uma questão antiga sob nova urgência — até onde pode chegar a discordância política antes de se tornar cumplicidade no sofrimento de um povo.
López Obrador condena bloqueio dos EUA a Cuba como "desumano" e "medieval"
Não se pode deixar à sua sorte um povo à fome e à mercê de doenças
López Obrador chamou ao bloqueio "desumano" e "medieval". Essas palavras têm peso diplomático real, ou são apenas retórica?
Têm peso porque vêm de um presidente que mantém boas relações com Washington. Não é um discurso de um adversário declarado — é uma crítica que vem de alguém que trabalha com os EUA todos os dias.
Mas vale a pena notar que López Obrador não especificou quantos lotes de ajuda o México enviou. Sabemos que navios partiram, mas não temos números concretos.
Porque é que o México se envolveu desta forma? Há interesse geopolítico aqui?
Há solidariedade latino-americana, claro, mas também há princípio. López Obrador tem sido consistente na oposição ao embargo — isto não é novo. O que é novo é a urgência, porque Cuba estava em crise.
E a votação da ONU que López Obrador mencionou — 184 países contra o embargo — isso é real?
É. Mas é importante notar que essa votação não é vinculativa. É simbólica. Os EUA e Israel votaram contra, e a política norte-americana não mudou.
López Obrador disse que não temia represálias. Acredita nisso?
Ele disse que o México é "independente, livre e soberano". Tecnicamente verdade, mas a realidade das relações comerciais entre México e EUA é complexa. Represálias diretas são improváveis, mas há sempre espaço para pressão subtil.
O que importa é que ele falou. Num momento em que Cuba estava isolada, o México ofereceu ajuda material e apoio político. Isso conta.
Le Pouls
- Cuba vivia os maiores protestos do século, alimentados por uma crise sanitária e económica que o bloqueio norte-americano agravava ao cortar o acesso a alimentos, medicamentos e oxigénio.
- López Obrador usou linguagem incomum para um aliado de Washington, chamando ao embargo uma política 'medieval' e apelando diretamente a Joe Biden para que reconsiderasse as medidas.
- O México passou das palavras à ação, enviando navios com ajuda humanitária a Cuba no mesmo dia em que o presidente fazia o anúncio público.
- Questionado sobre represálias dos EUA, López Obrador invocou a soberania mexicana e o apoio de 184 países na ONU como escudo diplomático.
- Na CELAC, o presidente mexicano propôs que Cuba fosse declarada 'património da humanidade', reencadrando o conflito como uma questão de dignidade coletiva e não apenas de geopolítica.
No final de julho de 2021, o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador ergueu a voz contra o bloqueio norte-americano a Cuba, classificando-o de 'desumano' e 'medieval' num momento em que a ilha atravessava a sua maior crise social do século. A sua intervenção não foi apenas retórica: o México enviou ajuda humanitária por mar, traduzindo em ação uma posição diplomática que desafia Washington sem romper com ele. No fundo, López Obrador colocava uma questão antiga sob nova urgência — até onde pode chegar a discordância política antes de se tornar cumplicidade no sofrimento de um povo.
No final de julho de 2021, Andrés Manuel López Obrador tomou uma posição pública e inequívoca em defesa de Cuba, condenando o bloqueio norte-americano como 'desumano' e 'medieval'. O momento era carregado: dias antes, a ilha tinha vivido os maiores protestos sociais do século, uma explosão de descontentamento no meio de uma crise sanitária e económica agravada pela pandemia. Para o presidente mexicano, a raiz do sofrimento cubano estava na política externa dos Estados Unidos.
Apesar de sublinhar que as relações do México com Washington 'são muito boas', López Obrador não recuou. Dirigiu-se diretamente a Joe Biden, argumentando que diferenças políticas não justificam o isolamento económico de uma população inteira. 'Não se pode deixar à sua sorte um povo à fome e à mercê de doenças', disse, numa lógica que separava o desacordo diplomático da responsabilidade humanitária.
O México passou das palavras à ação. Após receber uma carta do presidente cubano descrevendo a situação no terreno, o governo mexicano enviou ajuda humanitária por via marítima — alimentos, medicamentos e oxigénio — com navios a partir naquele mesmo dia e nos dias seguintes. Quando questionado sobre possíveis represálias de Washington, López Obrador invocou a soberania mexicana e recordou que 184 países tinham votado na ONU a favor do fim do embargo.
Numa conferência da CELAC realizada dias antes, o presidente mexicano tinha ido ainda mais longe, pedindo que Cuba fosse declarada 'património da humanidade' pela sua resistência aos Estados Unidos. Era uma reconfiguração do conflito: não uma disputa entre governos, mas uma questão de dignidade humana — e de acesso básico a comida, remédios e ar para respirar.
Andrés Manuel López Obrador, presidente do México, saiu em defesa de Cuba no final de julho de 2021, condenando o bloqueio norte-americano à ilha como uma política que viola princípios elementares de humanidade. Numa conferência de imprensa diária, o chefe de Estado mexicano não hesitou em usar palavras fortes: chamou à medida "desumano" e "medieval", argumentando que refletia um atraso grave na política externa dos Estados Unidos.
O contexto era tenso. Cuba tinha vivido, dias antes, os maiores protestos sociais do século, uma explosão de descontentamento que eclodiu no meio de uma crise sanitária e económica agravada pela pandemia de covid-19. López Obrador via no bloqueio norte-americano a raiz do sofrimento cubano. A sua posição não era nova — o México há muito se opunha ao embargo — mas o tom e a urgência ganharam força após os protestos de 11 de julho contra o governo de Miguel Díaz-Canal.
Apesar de sublinhar que as relações do México com os Estados Unidos "são muito boas", López Obrador não recuou. Dirigiu-se diretamente a Joe Biden, apelando para que Washington reconsiderasse as medidas de bloqueio. "Acredito que o Governo dos Estados Unidos dê uma resposta positiva, porque não é conveniente uma política deste género. Podemos ter diferenças, mas não se pode deixar à sua sorte um povo à fome e à mercê de doenças", disse. A lógica era clara: diferenças políticas não justificam o isolamento económico de uma população inteira.
O México passou das palavras à ação. López Obrador revelou que havia recebido uma carta do presidente cubano explicando a situação difícil causada pelo bloqueio. Em resposta, o governo mexicano enviou ajuda humanitária por via marítima — alimentos, medicamentos e oxigénio. Embora não tenha especificado o número total de lotes, o presidente anunciou que um navio partiria naquele mesmo dia, com outro a seguir na quarta-feira. A mensagem era dupla: condenar a política norte-americana e demonstrar solidariedade prática.
Quando questionado sobre possíveis represálias de Washington, López Obrador descartou a preocupação. "Não, porque somos um país independente, livre, soberano e estamos a atuar dentro dessas regras", respondeu. A sua confiança repousava, em parte, no apoio internacional. Na última votação das Nações Unidas sobre o embargo, 184 países votaram a favor do seu fim — um número que López Obrador invocava como prova de que a posição mexicana não era isolada, mas parte de um consenso global.
Dias antes, numa conferência da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), López Obrador tinha ido ainda mais longe. Pediu que Cuba fosse declarada "património da humanidade" pela sua capacidade de "resistir" aos Estados Unidos. Era uma reconfiguração retórica do conflito: não se tratava apenas de uma disputa política entre dois governos, mas de uma questão de dignidade humana e resistência coletiva. O bloqueio, na sua perspetiva, não tinha nada a ver com a "fraternidade que deveria existir entre os povos do mundo". Era, simplesmente, um obstáculo ao acesso básico a comida, remédios e ar para respirar.
Citations marquantes
Há uma situação delicada em Cuba porque estão a sofrer com o bloqueio, algo que considero desumano porque é uma medida extrema, medieval— Andrés Manuel López Obrador, presidente do México
Podemos ter diferenças, mas não se pode deixar à sua sorte um povo à fome e à mercê de doenças— López Obrador, apelando ao fim do embargo