Há mais de seis décadas, Cuba e Estados Unidos travam um conflito assimétrico que ultrapassa a geopolítica e alcança a mesa de jantar, o posto de saúde e a bomba de combustível de milhões de pessoas comuns. Na terça-feira, o embaixador cubano no Brasil, Adolfo Curbelo, trouxe esse conflito ao primeiro plano ao denunciar uma nova ordem executiva americana que busca cortar o fornecimento de petróleo à ilha de qualquer origem — medida que ele classifica não como diplomacia, mas como genocídio. O episódio nos lembra que as grandes disputas de poder raramente ficam contidas nas chancelarias: elas d
Embaixador cubano denuncia bloqueio dos EUA como genocídio e convoca solidariedade
A eletricidade depende do petróleo, o transporte depende do petróleo
O embaixador fala em genocídio. Essa é uma acusação muito forte. O que exatamente ele quer dizer com isso?
Para Curbelo, genocídio não significa necessariamente morte em massa imediata. É a intenção de destruir as condições de vida de um povo — cortando energia, alimentos, medicamentos. Se você sabe que bloquear petróleo vai deixar hospitais sem combustível para geradores, e você faz isso mesmo assim, qual é a diferença intencional?
Mas é importante notar que essa é a caracterização do embaixador cubano, não uma conclusão de organismos internacionais de direitos humanos. A ONU, por exemplo, tem criticado o bloqueio há anos, mas não o chamou formalmente de genocídio. Curbelo está usando a linguagem mais forte possível para descrever o que vê.
E quanto aos números? Sete bilhões e meio de dólares em perdas em um ano — como ele chegou a esse número?
Ele não detalhou a metodologia na entrevista. Mas Cuba tem apresentado esses cálculos regularmente à ONU, incluindo perdas em comércio impedido, acesso a tecnologia, custos de desvios logísticos. É um número que Cuba defende publicamente há tempos.
Exatamente. É o número de Cuba. Não há uma auditoria independente verificando isso. Pode ser preciso, pode estar inflacionado — não sabemos. O que sabemos é que o bloqueio causa danos econômicos reais. A magnitude exata é mais contestada.
Ele mencionou que Cuba está aberto ao diálogo. Mas sob quais condições?
Sob respeito à soberania e sem ingerência nos assuntos internos. Basicamente, Cuba quer negociar como um país igual, não como alguém que precisa se render primeiro.
O que é razoável, mas também é uma posição que ambos os lados têm mantido por décadas. Não há sinais na entrevista de que haja movimento real em direção a negociações. É mais uma reafirmação de princípios.
E a solidariedade internacional que ele menciona — China, Rússia, MST plantando árvores — isso muda algo concretamente?
Muda politicamente. Reduz o isolamento. Mas não reverte o bloqueio. A solidariedade que importaria seria a de países que pudessem realmente fornecer petróleo ou pressionar os EUA, e aí a lista fica mais curta.
Exatamente. China e Rússia já estão sob sanções americanas também. O MST plantando árvores é gesto simbólico bonito, mas não fornece combustível. A solidariedade que Cuba realmente precisa é a que enfrenta consequências reais — e poucos países estão dispostos a isso.
Der Puls
- Uma nova ordem executiva dos EUA ameaça punir qualquer país, empresa ou navio que forneça petróleo a Cuba, escalando o bloqueio a um nível sem precedentes recentes.
- Sem petróleo, Cuba enfrenta colapso em cadeia: energia elétrica, transporte público, produção de alimentos e sistemas de saúde dependem diretamente do combustível importado.
- O embaixador Curbelo apresentou perdas de 7,5 bilhões de dólares em apenas um ano, traduzindo números abstratos em falta de medicamentos, equipamentos hospitalares e insumos básicos.
- Cuba rejeita as justificativas americanas — de ameaça à segurança e presença de bases militares estrangeiras — classificando-as como falsas e como cobertura política para atos ilegais.
- Diante da pressão, Cuba busca solidariedade internacional e mantém postura de abertura ao diálogo, mas exige respeito irrestrito à sua soberania como condição inegociável.
Há mais de seis décadas, Cuba e Estados Unidos travam um conflito assimétrico que ultrapassa a geopolítica e alcança a mesa de jantar, o posto de saúde e a bomba de combustível de milhões de pessoas comuns. Na terça-feira, o embaixador cubano no Brasil, Adolfo Curbelo, trouxe esse conflito ao primeiro plano ao denunciar uma nova ordem executiva americana que busca cortar o fornecimento de petróleo à ilha de qualquer origem — medida que ele classifica não como diplomacia, mas como genocídio. O episódio nos lembra que as grandes disputas de poder raramente ficam contidas nas chancelarias: elas descem, inevitavelmente, até os corpos e as vidas dos que menos escolheram estar nelas.
Na terça-feira, o embaixador cubano no Brasil, Adolfo Curbelo, concedeu entrevista à TV 247 para denunciar o que descreveu como uma escalada deliberada de asfixia econômica. A nova ordem executiva do governo americano, explicou ele, vai além de uma sanção diplomática comum: seu objetivo é cortar o fornecimento de petróleo a Cuba independentemente da origem, punindo severamente qualquer nação, empresa ou embarcação que ouse fornecer combustível à ilha.
A gravidade da medida, segundo Curbelo, está em seus efeitos em cascata. Cuba depende quase inteiramente de importações de petróleo para gerar eletricidade, manter o transporte e sustentar a produção de alimentos. O embaixador frisou que não se trata de combustível doado por aliados, mas de petróleo comprado a preços de mercado — como qualquer país faria. Ele caracterizou a ação como violadora do direito internacional e, em linguagem direta, como genocídio contra o povo cubano. As perdas acumuladas no último ano chegaram, segundo ele, a 7,5 bilhões de dólares, refletindo-se em escassez de medicamentos, equipamentos hospitalares e insumos essenciais.
Quando confrontado com as justificativas americanas — a alegação de que Cuba abrigaria bases militares e de inteligência estrangeiras —, Curbelo foi categórico: tais afirmações são falsas e servem apenas para dar cobertura política a atos que considera ilegais. Ele situou a ofensiva atual dentro de mais de seis décadas de ameaças, invasões e ataques econômicos, lembrando que a ilha já esteve à beira da aniquilação nuclear durante a crise dos mísseis de 1962.
Apesar do cenário adverso, o embaixador reiterou que Cuba permanece aberta ao diálogo — desde que qualquer negociação respeite plenamente a soberania cubana e não interfira nos assuntos internos da ilha. Curbelo destacou ainda as manifestações de solidariedade recebidas de China, Rússia, Vietnã, países africanos e latino-americanos. No Brasil, o apoio foi concreto: naquele mesmo dia, membros do MST visitaram a embaixada e plantaram árvores em gesto de solidariedade. Para o embaixador, o que Cuba necessita agora é de denúncia internacional contundente e de demonstrações práticas de que os povos do mundo não compactuam com o que ele chama de política criminosa.
Adolfo Curbelo, embaixador de Cuba no Brasil, sentou-se diante das câmeras da TV 247 na terça-feira para descrever o que ele vê como uma escalada deliberada de asfixia econômica. A ordem executiva recém-anunciada pelo governo dos Estados Unidos, disse ele, não é apenas mais uma sanção diplomática — é um instrumento desenhado para cortar o fluxo de petróleo para a ilha, independentemente de sua origem, e punir severamente qualquer nação, empresa ou navio que ouse fornecer combustível a Cuba.
O que torna essa medida particularmente grave, na visão do embaixador, é sua abrangência e seus efeitos em cascata. Cuba depende quase integralmente de importações de petróleo para gerar eletricidade, manter o transporte público funcionando e sustentar a produção de alimentos. Cortar esse acesso não é uma questão abstrata de política externa — é uma decisão que toca diretamente a vida cotidiana de milhões de pessoas. Curbelo enfatizou que não se trata de petróleo doado por aliados, mas de combustível que Cuba compra aos preços do mercado internacional, como qualquer outro país faria. Ele caracterizou a ação como violadora do direito internacional e, em sua linguagem mais contundente, como genocídio contra o povo cubano.
Os números que Curbelo apresentou revelam a escala do impacto econômico já acumulado. Apenas no ano anterior, afirmou, as perdas impostas a Cuba pelo bloqueio chegaram a 7,5 bilhões de dólares. Essas perdas não são abstratas — elas se traduzem em dificuldades concretas para acessar medicamentos, equipamentos hospitalares e insumos básicos, agravando crises de saúde e ampliando problemas sociais que já existem. O embaixador rejeitou categoricamente a narrativa de que o bloqueio não afeta a população cubana, chamando tal afirmação não apenas de falsa, mas de criminosa.
Quando questionado sobre as justificativas americanas para essas medidas — a alegação de que Cuba representa uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos ou abriga bases militares e de inteligência — Curbelo foi direto. Cuba não abriga nenhuma base militar estrangeira, disse ele. Cuba não abriga nenhuma base de inteligência dirigida contra ninguém. Essas narrativas, em sua avaliação, são falsas e servem apenas para fornecer cobertura política a atos que ele considera ilegais. Para o embaixador, há uma desconexão fundamental entre o que o governo americano afirma e a realidade dos fatos.
Curbelo situou essa ofensiva dentro de um contexto histórico mais amplo. Cuba, disse ele, vive há mais de seis décadas sob ameaças permanentes — invasões, sabotagens, ataques econômicos, tentativas de assassinato. A ilha já enfrentou momentos de risco extremo, como durante a crise dos mísseis em 1962, quando esteve à beira da aniquilação nuclear. O que está acontecendo agora, em sua perspectiva, é apenas o capítulo mais recente de uma longa história de agressão.
Apesar desse cenário adverso, Curbelo reiterou que Cuba mantém as portas abertas ao diálogo — mas com condições. Qualquer negociação, disse ele, deve respeitar a soberania e a independência cubana, sem ingerência nos assuntos internos da ilha. Os direitos do povo cubano à autodeterminação, afirmou, são inalienáveis e irrenunciáveis. Não há espaço, em sua fala, para subordinação ou renúncia à soberania.
O embaixador também destacou as manifestações de solidariedade que Cuba tem recebido. China, Rússia, Vietnã, países africanos e nações da América Latina expressaram apoio. No Brasil especificamente, disse Curbelo, a solidariedade tem sido concreta — naquele mesmo dia, membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra visitaram a embaixada e plantaram árvores em gesto de apoio. Essas demonstrações, em sua avaliação, são fundamentais neste momento.
Curbelo encerrou sua participação reafirmando que Cuba não subestima a gravidade das ameaças que enfrenta, mas tampouco aceitará submissão. Cuba defende a paz e relações amistosas entre os povos, disse ele, mas não renunciará à sua soberania. Para o embaixador, o que é necessário agora é denúncia internacional contundente e solidariedade prática — demonstrações concretas de que os povos do mundo não concordam com o que ele caracteriza como uma política criminosa.
Bemerkenswerte Zitate
Estamos falando de uma ação extrema, violatória do direito internacional, que aponta claramente para um genocídio contra o povo cubano— Adolfo Curbelo, embaixador de Cuba no Brasil
É absolutamente falso dizer que o bloqueio não afeta o povo cubano. Isso é falso, além de criminoso— Adolfo Curbelo