Aos 68 anos, o músico Lobão encerra um longo ciclo de engajamento político — que passou pelo PT nos anos 1980 e por Bolsonaro em 2018 — declarando que nenhuma ideologia humana merece mais sua fé ou seu voto. Em seu lugar, deposita a esperança que lhe resta no disclosure extraterrestre, enquanto segue criando discos, óperas e histórias com a mesma energia de sempre. É o retrato de um homem que desistiu da política sem desistir da vida.
Lobão abandona esperança na política e busca respostas nos discos voadores
A minha esperança está nos discos voadores, no disclosure
Por que exatamente a política o decepcionou tanto desta vez? Não era diferente com Bolsonaro?
Não. Eu tinha esperança de que havia intelectuais ali, gente que pensava diferente. Mas vi que era tudo muito tosco. Não há renovação, são as mesmas figuras caindo aos pedaços.
Você diz que o ser humano não evoluiu. Mas você mesmo evoluiu, não? Sua música, sua forma de pensar...
Evoluí artisticamente, sim. Mas existencialmente? Não. A gente continua entrando em guerra, matando uns aos outros, deixando pavões nos palanques. É um caldo de comportamento imutável.
Então por que ainda canta "Ideologia" de Cazuza, se acha que ideologia encolhe a cabeça das pessoas?
Porque aceitei a sugestão para não ser aquele cara difícil. Mas confesso que tenho receio de levantar essa poeira toda. Cazuza mesmo achava a música horrível.
Você parece estar em paz com tudo isso agora. Como conseguiu?
Aprendi a preservar minha essência sem ficar de fantoche de manchete. Avalio se minha opinião pode provocar mudança real. Se for só para gerar fofoca, não dou a cara a tapa.
E a esperança nos discos voadores? Isso é literal ou é uma metáfora?
É literal. Quero saber se os ETs vão chegar. É a única esperança que me resta. Mas enquanto isso, estou fazendo ópera, disco novo, pensando em escrever romances. A vida continua.
Você acordar feliz todos os dias enquanto diz que a humanidade é psicótica... como isso funciona?
Porque minha felicidade é pessoal. Cuido das minhas gatas, acendo a lareira, converso com minhas plantas. Essas coisas pequenas são uma alegria. Não preciso salvar o mundo para ser feliz.
O Pulso
- Após duas grandes desilusões — com a esquerda e com a direita —, Lobão anuncia que não votará nas eleições de outubro e recusa qualquer participação em campanhas, descrevendo o ambiente político como uma 'vibração horrorosa'.
- Sua crítica vai além dos partidos: ele acredita que as ideologias encolhem mentes e conduzem a guerras, e que o ser humano não evoluiu existencialmente nem um milímetro.
- Ironicamente, cantará 'Ideologia', de Cazuza, no festival C6 no Rock — uma música que ele próprio considera 'horrível' —, aceitando a escolha para não ser 'aquele cara difícil'.
- No vazio deixado pela política, Lobão encontra ancoragem no cotidiano doméstico, em um altar religioso eclético e, acima de tudo, na esperança de que os extraterrestres finalmente se revelem.
- Longe de estar paralisado, ele lança 'Vale da Estranheza' com viola caipira, desenvolve a ópera 'Incandescence' com Gerald Thomas e planeja romances e um livro infantil — a criatividade segue intacta onde a fé política se extinguiu.
Aos 68 anos, o músico Lobão encerra um longo ciclo de engajamento político — que passou pelo PT nos anos 1980 e por Bolsonaro em 2018 — declarando que nenhuma ideologia humana merece mais sua fé ou seu voto. Em seu lugar, deposita a esperança que lhe resta no disclosure extraterrestre, enquanto segue criando discos, óperas e histórias com a mesma energia de sempre. É o retrato de um homem que desistiu da política sem desistir da vida.
Aos 68 anos, Lobão chegou a uma conclusão que o liberta e o desorienta ao mesmo tempo: a política brasileira não tem mais nada a oferecer. Sua última aposta foi Jair Bolsonaro em 2018 — um gesto que descreve como rock and roll contra um sistema dominado por dezesseis anos de corrupção. Antes disso, havia apoiado o PT nos anos 1980 e 1990, chegando a cometer crime eleitoral ao cantar 'Lula-lá' ao vivo na televisão. Agora, depois de duas grandes desilusões, recusa-se a votar e a fazer campanha. 'Você sente uma vibração horrorosa, as pessoas te odeiam', diz.
O desencanto é mais profundo do que qualquer partido. Para Lobão, as ideologias são cartilhas que encolhem cabeças e levam à guerra. O ser humano, em sua visão, não evoluiu existencialmente. Ainda assim, ele aparecerá no festival C6 no Rock cantando 'Ideologia', de Cazuza — música que considera 'horrível' e que o próprio Cazuza, segundo ele, também não apreciava. Aceitou a escolha da direção musical para não ser 'aquele cara difícil'. Na mesma homenagem, cantará 'Vida Louca Vida', composição sua que muita gente atribui ao amigo.
Em casa, na Chácara Monte Alegre, zona sul de São Paulo, Lobão leva uma vida que contradiz a imagem do roqueiro encrenqueiro: faz cama, lava louça, cuida de duas gatas idosas e conversa com suas plantas, sendo a maior delas a Julieta, uma árvore no jardim. No quintal, um altar com imagens de diferentes religiões — São Francisco em posição de buda, incensos, velas, estátua indiana. 'Montei um autorama religioso na minha cabeça', explica. E é nesse espaço espiritual aberto que reside sua última esperança política: os discos voadores. 'Quero saber se os ETs vão chegar.'
Mas Lobão não está parado. Tem pronto o disco 'Vale da Estranheza', gravado com 80% de viola caipira. Desenvolve com Gerald Thomas a ópera 'Incandescence', nascida de uma conversa de quatro horas pelo Zoom em 2024. Planeja romances e um livro infantil inspirado nas histórias que contava para seus enteados e filha. O que emerge é o retrato de um homem que abandonou a fé na política sem abandonar a alegria de criar — enquanto aguarda pelos discos voadores, segue fazendo o que sempre soube fazer.
Aos 68 anos, Lobão chegou a uma conclusão que o liberta e o desorienta ao mesmo tempo: a política brasileira não oferece esperança. Sua última aposta foi Jair Bolsonaro em 2018, um gesto que o músico descreve como uma atitude rock and roll contra um sistema que havia dominado o país por dezesseis anos sob acusações de corrupção generalizada. Antes disso, havia dado uma chance ao PT nos anos 1980 e 1990, chegando a cometer crime eleitoral ao cantar "Lula-lá" ao vivo na televisão. Mas agora, depois de duas grandes desilusões, ele se recusa a fazer campanha novamente. "É a coisa mais pentelha e chata", diz. "Você sente uma vibração horrorosa, as pessoas te odeiam."
O desencanto vai além da política. Lobão acredita que o ser humano não evoluiu um milímetro sequer em sua existência. As ideologias, em sua visão, são cartilhas de conduta que encolhem a cabeça das pessoas e as levam à guerra, à matança, ao espetáculo vazio dos palanques. Quando questionado sobre as eleições de outubro deste ano, ele revela uma postura que mantém há mais de trinta anos: não vai votar. "Me recuso a gastar meu HD, minha gasolina, meu tempo para quiçá anular o meu voto."
É curioso que justamente neste momento de desistência política, Lobão se apresentará no festival C6 no Rock no Ibirapuera cantando "Ideologia", um dos grandes sucessos de seu amigo Cazuza. A escolha não foi sua, mas da direção musical do evento. Ele confessa ter certo receio de "levantar esse tipo de poeira" do confronto ideológico. Chegou a comentar com Cazuza que não era fã da música, e o próprio compositor teria concordado que a canção era "horrível". Lobão preferia cantar "O Tempo Não Para", mas aceitou a sugestão pelo "bom andamento do serviço" e para não ser "aquele cara difícil". Na homenagem a Cazuza, também cantará "Vida Louca Vida", uma música que o comove particularmente porque muita gente acredita que foi composta por Cazuza, quando na verdade é sua.
Apesar da desesperança com a política e com a humanidade, Lobão descreve a si mesmo como "naturalmente feliz". Acorda animado todos os dias, para desespero de sua mulher, a empresária Regina Lopes, que costumava dizer que sua felicidade era insuportável. Ele tem um "almoxarifado de tragédias" na família, mas aprendeu a lidar com isso. Paradoxalmente à imagem do roqueiro encrenqueiro que cultivou nos últimos anos, ele leva uma vida comum e é um "excelente dono de casa". Faz cama, lava louça, limpa tudo, cuida de suas gatas idosas, uma com 23 anos e outra com 22. Dá nome às suas plantas e conversa com elas. A maior é a Julieta, uma árvore no jardim de sua casa térrea na Chácara Monte Alegre, na zona sul de São Paulo.
No espaço externo de sua casa, há um altar com imagens de diferentes religiões: um São Francisco em posição de buda, incensos, velas e uma estátua indiana. Lobão acredita em Deus, mas não segue nenhuma religião específica. "Montei um autorama religioso na minha cabeça", explica. Essa abertura espiritual se estende também a sua esperança final: os discos voadores. "A minha esperança está nos discos voadores, no disclosure. Quero saber se os ETs vão chegar."
Mas Lobão não está parado. Desenvolve uma ópera chamada "Incandescence" com o autor e diretor teatral Gerald Thomas, projeto que nasceu de uma conversa de quatro horas pelo Zoom em 2024, após anos sem contato. Uma das ideias para a ópera é baseada em um romance que Lobão queria escrever, intitulado provisoriamente "O Diário do Demônio da Certeza", sobre um homem que trabalha num almoxarifado mas consegue se infiltrar na cabeça de presidentes e líderes religiosos quando dorme, instalando neles "certezas inabaláveis". Tem também um novo disco pronto, "Vale da Estranheza", desenvolvido com 80% de viola caipira. Quer voltar a escrever romances e tem particular interesse em escrever um livro infantil, baseado em sua experiência como contador de histórias para seus enteados e filha.
O que emerge é um retrato de um homem que abandonou a esperança na política e na evolução humana, mas não abandonou a criatividade, a alegria cotidiana ou a capacidade de se maravilhar. Sua desilusão é completa, mas sua vida continua fecunda. Enquanto aguarda pelos discos voadores, Lobão segue fazendo o que sempre soube fazer: criar.
Citações Notáveis
É a coisa mais pentelha e chata. Você sente uma vibração horrorosa, as pessoas te odeiam.— Lobão, sobre fazer campanha política
Montei um autorama religioso na minha cabeça.— Lobão, sobre sua relação com religião