Lira e Renan Calheiros travam disputa pelo Senado em Alagoas com olho na presidência do Congresso

Na hora em que é preciso resolver problemas em Brasília, vocês sabem em qual gabinete bater
Lira fala sobre seu poder de distribuir recursos federais durante campanha em Feliz Deserto.
Mark

Por que essa disputa em Alagoas importa para o resto do país?

Mimi

Porque o vencedor pode sair dali para presidir o Congresso Nacional. Não é só uma briga local por poder.

Luke

Mas isso é confirmado ou é especulação dos políticos locais? Quem realmente tem chance de chegar à presidência?

Mimi

É o que os alagoanos esperam, segundo a reportagem. Mas você tem razão — não há confirmação de que um deles será presidente do Congresso.

Mark

E quanto aos 8 bilhões que Lira diz ter entregue? Como se verifica um número assim?

Mimi

Ele não soube responder quando questionado. O que se vê é o apoio dos prefeitos, que é concreto.

Luke

Exatamente. O número é impossível de verificar, segundo a própria reportagem. É uma afirmação dele, não um fato documentado.

Mark

Então o poder real de Lira vem das emendas parlamentares?

Mimi

Sim. Ele usa a distribuição de verbas a prefeituras como seu principal ativo. Isso conquistou apoio de 89 das 102 cidades.

Luke

Mas essas emendas foram questionadas pelo Supremo por falta de transparência. Então estamos falando de um poder construído sobre algo legalmente questionável.

Mimi

Verdade. Mas enquanto não há decisão final, as prefeituras dependem desse dinheiro.

Mark

E Renan? Qual é a força dele?

Mimi

Ele tem a estrutura do governo estadual e a candidatura do filho ao governo. Mas perdeu a maioria dos prefeitos para Lira.

Luke

Então Renan está em posição mais fraca nesta eleição?

Mimi

Parece que sim, apesar de ter elegido 70 prefeitos. Lira conseguiu virar a maioria deles.

  • Arthur Lira conquistou apoio de 89 dos 102 prefeitos de Alagoas, apesar do MDB ter elegido 70 deles
  • Renan Calheiros pode se tornar recordista de mandatos no Senado com um quinto mandato, empatando com José Sarney e Rui Barbosa
  • Lira afirma ter entregue 8 bilhões de reais em recursos via emendas parlamentares, mas não soube confirmar o número quando questionado
  • 95% dos alagoanos ficarão isentos do Imposto de Renda com projeto aprovado por Lira como relator

Lira usa distribuição de emendas parlamentares para municípios como principal ativo, conquistando apoio de maioria dos prefeitos alagoanos apesar do MDB ter elegido 70 deles. Renan Calheiros busca impedir ascensão de Lira e pode se tornar recordista de mandatos no Senado, mas enfrenta desafio com filho de Lira também disputando vaga.

Arthur Lira (PP) desafia Renan Calheiros (MDB) pela hegemonia política em Alagoas, com ambos potencialmente candidatos à presidência do Congresso Nacional. A disputa envolve controle de recursos orçamentários, apoio de prefeitos e influência sobre partidos.

Arthur Lira chega de helicóptero a Feliz Deserto, uma cidade a 150 quilômetros de Maceió, para uma campanha que resume tudo o que está em jogo em Alagoas neste ano. O deputado federal, que já presidiu a Câmara duas vezes, vem entregar recursos que enviou via emendas parlamentares: custeio para saúde, construção de mercado municipal, pavimentação de ruas. No palco, cercado por moradores e funcionários públicos mobilizados pelo prefeito, ele fala sobre poder. "Na hora em que é preciso resolver problemas em Brasília, vocês sabem em qual gabinete bater à porta", diz.

Essa cena de poder distribuído através de verbas federais é o coração da disputa que Lira trava contra Renan Calheiros, senador três vezes eleito pelo MDB, também de Alagoas. Os dois homens disputam não apenas as vagas ao Senado que abrem neste pleito, mas algo maior: quem sairá daquele estado para presidir o Congresso Nacional. A campanha começou em agosto, mas o conflito entre eles se arrasta há anos, passando por brigas sobre relatorias de projetos de lei, influência sobre prefeitos e partidos, cargos e até comissões parlamentares de inquérito. Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou um armistício entre os dois, sem sucesso.

O principal ativo de Lira é a distribuição de verbas a prefeituras. O modelo se intensificou com as emendas de relator criadas no governo Jair Bolsonaro e continuou com as emendas de comissão no governo Lula. Ambas foram questionadas pelo Supremo Tribunal Federal pela falta de transparência e critérios técnicos, mas se tornaram vitais para pequenos e médios municípios. No lançamento do comitê de campanha de Lira em Maceió, montado ao custo de 150 mil reais, o locutor anuncia que o parlamentar entregou 8 bilhões de reais em moradias, obras, custeio para saúde, tratores e maquinário. Quando questionado pela Folha sobre esse número, superior ao orçamento da maioria dos ministérios, Lira desconversa: "Não sei de cabeça".

O apoio de prefeitos deixa evidente, porém, que o valor é expressivo. O MDB de Renan elegeu 70 dos 102 prefeitos de Alagoas, mas foi incapaz de impedir que a maioria deles declarasse voto em Lira nesta eleição. Apenas 20 estão com o segundo candidato da chapa de Renan. No escritório de Lira em Maceió, um mapa mostra que apenas 13 das 102 cidades não o apoiam. Renan teve à disposição a estrutura do governo estadual, comandado por Paulo Dantas do MDB, e a candidatura de seu filho Renan Filho ao governo para formar sua rede de alianças. Mesmo assim, a dobradinha não intencional entre Lira e Renan aparece em banners e postagens de políticos nas redes sociais, com candidatos a deputado estadual e federal do MDB fazendo o voto casado.

Em Feliz Deserto, o prefeito Jorge Nunes do PP exemplifica essa dinâmica. "Sou Arthur Lira, mas para governador eu sou 15, número do MDB. É questão de gratidão", diz. Lira destaca a aprovação, como relator, do projeto de lei que isentou quem ganha até 5 mil reais de pagar Imposto de Renda. O assunto é mais um da guerra fria contra Renan, que assumiu a relatoria do tema no Senado e acusa o deputado de só destravar a votação na Câmara para evitar que os senadores aprovassem uma proposta dele antes. A disputa tem peso: 95% dos alagoanos ficarão isentos do IR.

Os dois também brigaram na CPI da Braskem no Senado, onde Lira pressionava a empresa a indenizar a Prefeitura de Maceió enquanto Calheiros contestava os termos do acordo. Eles se enfrentaram na disputa pelo apoio de partidos nesta eleição, com quatro partidos registrando apoio às duas chapas simultaneamente. Há quem diga que a desavença começou mais de uma década atrás. Renan acabava de ser reeleito em 2010, mesmo após renunciar à presidência do Senado para escapar da cassação por denúncias de que um empreiteiro pagava suas despesas pessoais. O que era motivo de festa virou uma bronca geral do senador, inconformado por acabar atrás de Benedito de Lira, deputado que se destacou pela dancinha desengonçada na campanha e que é pai de Arthur Lira. Na eleição seguinte para o Senado, em 2018, Benedito foi derrotado por Renan.

Agora, a ascensão do filho de Arthur, que também disputa a vaga ao Senado, virou entrave a um eventual quinto mandato de Renan, o que o tornaria o senador que mais vezes ocupou o cargo, empatado com José Sarney e Rui Barbosa na história da República. Lira foi o deputado federal mais votado de Alagoas em 2022 e lançou o filho Álvaro como sucessor na Câmara dos Deputados. A aposta é que o apoio de 33 prefeitos impulsionará Alvinho, como é chamado, a ser o deputado mais votado desta eleição. Aliados de Lira falam sobre outro motivo de atrito: a presidência do Senado. Lira ligou para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para lhe prometer apoio e evitar fofocas. A presidência do Senado também é cobiçada por Renan, que em 2019 tentou voltar a ocupá-la e foi derrotado por Alcolumbre. Quem pode deixar Lira ou Renan fora do Senado é Marina Cândia do PSDB, esposa do ex-prefeito de Maceió JHC, que usa a gestão do marido, discurso religioso e popularidade nas redes para despontar entre os líderes nas pesquisas.

Ele perdeu as últimas três eleições majoritárias para mim. Nunca estivemos aliados. Temos práticas políticas diferentes, não uso essas táticas de orçamento secreto
— Renan Calheiros, em conversa com a Folha
Sou Arthur Lira, mas para governador eu sou 15. É questão de gratidão
— Jorge Nunes, prefeito de Feliz Deserto pelo PP
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