A menos de um ano das eleições de 2026, leitores da Folha de S.Paulo revelam uma fadiga cívica que transcende partidos: o debate político brasileiro se contraiu em torno de acusações recíprocas de corrupção, deixando órfãs as perguntas sobre que país se quer construir. É um sintoma antigo — a desconfiança nas instituições — que encontra, neste ciclo eleitoral, terreno especialmente fértil para se aprofundar.
Leitores criticam foco em corrupção em vez de projetos para o futuro
Já não se discutem projetos. São todos iguais.
Por que leitores estão tão frustrados agora, em 2026? Não é sempre assim nas campanhas?
Talvez. Mas há algo diferente quando a frustração atravessa linhas ideológicas. Não é só a esquerda ou a direita reclamando — é gente de Belo Horizonte, São Paulo, Santa Catarina, todos dizendo a mesma coisa: ninguém está falando sobre o futuro.
Espera. Os leitores têm razão de estar frustrados, mas precisamos ser precisos: eles estão reclamando que não há debate de projetos. Mas o jornal está cobrindo corrupção porque corrupção é notícia. A questão é se há realmente ausência de propostas ou se é ausência de cobertura de propostas.
Boa observação. O que vemos aqui é a percepção dos leitores, não necessariamente a realidade completa da campanha. Mas a percepção importa — se as pessoas acham que só há acusações, isso molda como votam.
E quanto às big techs? Parece haver uma preocupação real sobre manipulação.
Sim. Alguns leitores veem a remoção do perfil sobre Master e Igreja Lagoinha como censura. Outros veem como necessário. Mas a preocupação subjacente é: quem controla o que vemos?
Aqui temos que separar fatos de interpretação. A Meta removeu um perfil — isso é fato. Se foi censura ou moderação apropriada é interpretação. Os leitores estão oferecendo interpretações diferentes, e ambas têm lógica interna.
E as apostas esportivas? Por que isso virou tema de campanha?
Porque o dinheiro é real — bilhões em prejuízos para a sociedade, enquanto clubes recebem apenas 7% de suas receitas das bets. E porque o governo lucra com impostos sobre apostas, então não tem incentivo para acabar.
Mas aqui também precisamos notar: um leitor disse que se for preciso acabar com o futebol, que acabe. Isso é uma posição extrema. A maioria provavelmente quer regulação, não abolição.
Então o que une todos esses comentários?
Desconfiança. Desconfiança de que a política está capturada — pelas big techs, pelos interesses econômicos, pelos ciclos de acusação. E desconfiança de que ninguém está realmente trabalhando para o futuro.
E isso pode ter consequências reais nas eleições se não mudar.
Il Polso
- Eleitores de diferentes regiões e orientações ideológicas convergem num mesmo diagnóstico: direita e esquerda disputam apenas quem rouba menos, não quem governa melhor.
- Denúncias envolvendo o entorno do governo Lula alimentam o desgaste, mas leitores exigem que transparência e investigação sejam a resposta — não a instrumentalização política do escândalo.
- A remoção de conteúdo pela Meta e a influência das big techs nas eleições acendem um debate paralelo sobre quem, afinal, controla o espaço onde a política acontece.
- Temas como narcotráfico, soberania nacional e apostas esportivas surgem nos comentários como sintomas de um Estado percebido como capturado por interesses que não são os do cidadão comum.
- O risco apontado pelos próprios leitores é claro: se o ciclo de escândalos não ceder espaço a propostas concretas, a erosão de confiança pode tornar 2026 uma eleição decidida pelo menor descrédito, não pela melhor visão.
A menos de um ano das eleições de 2026, leitores da Folha de S.Paulo revelam uma fadiga cívica que transcende partidos: o debate político brasileiro se contraiu em torno de acusações recíprocas de corrupção, deixando órfãs as perguntas sobre que país se quer construir. É um sintoma antigo — a desconfiança nas instituições — que encontra, neste ciclo eleitoral, terreno especialmente fértil para se aprofundar.
A três meses das eleições de 2026, uma frustração atravessa as cartas enviadas à Folha de S.Paulo: o debate público encolheu até caber apenas em acusações mútuas de corrupção. José Francisco de Paula Filho, de Belo Horizonte, sintetizou o sentimento coletivo ao observar que supostas autoridades se limitam a dizer que o adversário rouba mais — e que, no fundo, todos parecem iguais.
A reportagem sobre uma lobista ligada ao entorno de Lula que guardava dinheiro em malas e teria pago um secretário do governo serviu de gatilho para essa insatisfação. Luiz Henrique Moreira, de Santa Catarina, reconheceu o potencial de desgaste eleitoral do episódio, mas sua preocupação era mais funda: a sociedade precisa saber quem recebeu, por quê e se houve favorecimento. Transparência, para ele, não é opcional.
Outro fio de tensão surgiu em torno da remoção, pela Meta, de um perfil de série com Porchat sobre relações entre a Master e a Igreja Lagoinha. Enquanto alguns leitores aplaudiram a exposição, outros viram na ação das big techs um padrão inquietante de controle sobre o discurso político — com Philippe Rodrigues Aquino questionando se a liberdade de expressão só sobrevive quando serve a certos interesses, e Marcelo Pacheco conectando a ascensão das redes sociais ao ressurgimento de movimentos autoritários no mundo.
A decisão dos EUA contra o PCC e o CV gerou leituras geopolíticas: Flávio Paes enxergou controle territorial disfarçado de cooperação, e Anete Guedes questionou se o Brasil estaria abrindo suas fronteiras sem qualquer reciprocidade real. Jair Amaral lembrou que enquanto o debate ignorar os usuários de drogas — a demanda que sustenta o tráfico — a equação não se resolve.
Nas apostas esportivas, o padrão se repetiu: leitores apontaram que o governo tolera as bets porque arrecada com elas, enquanto os prejuízos sociais se acumulam silenciosamente. O que emerge de todas essas vozes é um eleitorado que sente 2026 preso num ciclo de denúncias sem saída — e que teme que o tempo até as urnas não seja suficiente para restaurar a confiança perdida.
A três meses das eleições de 2026, leitores da Folha de S.Paulo estão expressando uma frustração que atravessa linhas ideológicas: o debate público se reduziu a acusações mútuas de roubo, enquanto propostas concretas para o futuro desaparecem do horizonte político.
A insatisfação ganhou voz quando a reportagem sobre uma lobista amiga de Lulinha que guardava dinheiro em malas e pagou secretário do governo Lula circulou na seção de Política. Um leitor de Belo Horizonte, José Francisco de Paula Filho, resumiu o sentimento: já não se discutem projetos. Supostas autoridades se limitam a dizer que o outro rouba mais, seja na direita ou na esquerda. São todos iguais. A crítica não era isolada. Luiz Henrique Moreira, de Palhoça em Santa Catarina, reconheceu que para Lula a questão deixa de ser apenas jurídica — é mais um episódio que pode provocar desgaste junto ao eleitorado e pesar na campanha. Mas sua preocupação maior era estrutural: a sociedade tem o direito de saber quem recebeu dinheiro, por quê, qual era a finalidade dos pagamentos e se houve qualquer favorecimento dentro do governo. Transparência e investigação, neste momento, são indispensáveis.
Outra linha de crítica emergiu em torno da remoção de um perfil de série com Porchat sobre relações entre Master e Igreja Lagoinha, feita pela Meta. Enquanto alguns leitores celebraram a revelação — Isabel R. Dias Vieira Estrella pediu que não calassem quem está com candidatos de extrema direita — outros viram na ação das big techs um padrão preocupante. Philippe Rodrigues Aquino questionou se a liberdade de expressão só vale para discursos de ódio e desinformação. Marcelo Pacheco foi além, conectando a ascensão das redes sociais ao ressurgimento do nazismo e do fascismo, argumentando que as big techs atuam para manipular eleições em favor da extrema direita, como têm feito no mundo. Rogerio M. Cortezano invocou o exemplo da presença massiva de representantes das big techs na posse de Trump nos EUA como evidência de uma dinâmica maior.
Quando a pauta se deslocou para a decisão de latinos contra PCC e CV — reportada como uma surpresa para o Brasil — emergiram questões sobre soberania e geopolítica. Flávio Paes viu na ação uma forma de os EUA exercerem controle geopolítico, argumentando que o tráfico sempre sai ganhando. Jair Amaral apontou que enquanto críticas focarem os traficantes e ignorarem os usuários, responsáveis pela procura de drogas e da sobrevivência do tráfico, nada vai mudar. Anete Guedes de Belo Horizonte questionou se o Brasil estava abrindo suas fronteiras para que, sob o pretexto de caçar terroristas, os EUA fizessem o que quisessem — uma reciprocidade que não seria verdadeira, já que latinos não teriam passe livre para ir aos EUA ou morar lá.
O tema das apostas esportivas também mobilizou leitores. Um aporte de R$ 1 bilhão das bets representa apenas 7% das receitas de clubes brasileiros, mas os prejuízos de bilhões impactam a sociedade, escreveu José Vanzo de Franca. Paulo Augusto Miller foi mais radical: se for preciso acabar com o futebol por falta de verba das bets, que acabe. Não fará falta. Antonio Pereira de Governador Mangabeira apontou que o governo não acaba com as bets porque arrecada bilhões com elas — o lobby fez Temer sancionar, Bolsonaro regulamentar e Lula ajustar o imposto. Mario Lucio Camargos de Curitiba reconheceu que a microrregulação permite ajustes contingenciais, caso a caso, mas alertou que o incauto se deixa levar por chamarizes espontâneos ou deliberados. Nerisvaldo J. Santos encerrou a discussão com uma advertência: se não forem combatidos eficientemente, vícios logo terão graves consequências para a sociedade.
O que emerge desses comentários é um eleitorado que sente a campanha de 2026 presa em um ciclo de denúncias e contra-denúncias, sem espaço para o que poderia ser construído. A confiança nas instituições políticas está rachada, e o tempo até as eleições pode não ser suficiente para repará-la se o foco permanecer em escândalos em vez de visão.
Citazioni salienti
Já não se discutem projetos para o futuro. Supostas autoridades se limitam a dizer que o outro rouba mais, seja na direita ou na esquerda.— José Francisco de Paula Filho, Belo Horizonte
A sociedade tem o direito de saber quem recebeu dinheiro, por quê, qual era a finalidade dos pagamentos e se houve qualquer favorecimento dentro do governo. Transparência e investigação, neste momento, são indispensáveis.— Luiz Henrique Moreira, Palhoça