Light pode aumentar conta de luz em 18%; Aneel realiza audiência pública nesta quarta

Consumidores de baixa renda serão mais prejudicados, pois gastam maior parte do orçamento com itens essenciais como alimentação e moradia.
Os demais consumidores acabam pagando a conta de quem pratica o desvio
Sobre o custo dos furtos de energia que é repassado para todos os clientes da Light.
Mark

Por que a Light precisa aumentar tanto a tarifa agora? Não era possível esperar mais um pouco?

Mimi

A crise hídrica deixou um rombo. As bandeiras tarifárias — aqueles aumentos temporários — não arrecadaram o suficiente para cobrir os gastos extras. Se não fizerem esse ajuste agora, a empresa fica sem capital de giro para funcionar.

Mark

E por que as grandes indústrias vão pagar menos que as residências? Isso não parece injusto?

Mimi

É uma questão de poder de negociação e estrutura de custos. Grandes consumidores conseguem negociar melhor, e a lógica regulatória considera que eles têm mais flexibilidade para absorver aumentos. Mas sim, quem paga a conta no final são os consumidores residenciais.

Mark

Você mencionou que isso vai afetar os preços de tudo. Como exatamente?

Mimi

A energia é insumo em quase tudo. Uma fábrica de carros paga mais luz, aumenta o preço do carro. Um shopping paga mais condomínio por causa da energia, passa para as lojas, que passam para você. É um efeito cascata.

Mark

E quem sofre mais com isso?

Mimi

Quem ganha pouco. Se você gasta 60% do seu orçamento com alimentação e moradia, um aumento na energia é devastador. Você não consegue compensar cortando em outro lugar.

Mark

A Aneel pode rejeitar esse aumento?

Mimi

Pode. A audiência de quarta é justamente para isso — clientes e órgãos de defesa do consumidor podem pleitear uma correção menor. Mas historicamente, a agência aprova aumentos próximos ao que as distribuidoras pedem.

  • A Light solicitou à Aneel um reajuste de 17,89% para clientes residenciais, enquanto grandes indústrias receberiam uma redução de 9,52% — uma assimetria que expõe quem de fato arca com os custos do sistema.
  • A crise hídrica de 2021 esvaziou reservatórios e forçou o uso de energia mais cara, gerando um déficit que as bandeiras tarifárias não conseguiram cobrir e que agora precisa ser repassado às distribuidoras.
  • Consumidores, empresas e órgãos de defesa poderão contestar ou apoiar os índices durante a audiência pública transmitida pelo YouTube, antes que os novos valores entrem em vigor em março.
  • Economistas alertam que o aumento não ficará restrito à conta de luz: indústrias, shoppings e comércios repassarão os custos, inflando preços de produtos e serviços para toda a população.
  • Os mais prejudicados serão os consumidores de baixa renda, que já comprometem a maior fatia do orçamento com itens essenciais e têm pouca margem para absorver novos choques.

Na quarta-feira, a Aneel abre uma audiência pública para decidir se a Light poderá reajustar em quase 18% as tarifas residenciais de energia para 4,5 milhões de consumidores em 37 municípios fluminenses. Por trás dos números está a crise hídrica de 2021, que deixou um rombo nas bandeiras tarifárias que o setor não conseguiu cobrir. O que parece uma decisão técnica e regulatória carrega, na verdade, o peso de escolhas coletivas sobre quem suporta os custos das intempéries — e os mais vulneráveis, como sempre, são os primeiros a sentir.

Na quarta-feira, 19 de janeiro, a Aneel abre uma audiência pública — transmitida pelo YouTube — para deliberar sobre o pedido da Light de reajustar as tarifas residenciais em 17,89%. O impacto afetaria cerca de 4,5 milhões de unidades consumidoras em 37 municípios do Rio de Janeiro, com vigência prevista para 13 de março.

O reajuste não será igual para todos. Pequenas e médias empresas enfrentariam aumento médio de 17,96%, enquanto grandes indústrias teriam redução de 9,52%. O efeito médio para todos os clientes ficaria em 15,13%. O consultor Fernando Umbria explica que o percentual supera a inflação acumulada porque a arrecadação com as bandeiras tarifárias extras — incluindo a de escassez hídrica — não foi suficiente para cobrir os gastos gerados pela crise hídrica de 2021. Sem esse acerto, as distribuidoras ficariam sem capital de giro.

A seca que assolou os reservatórios no ano passado é o pano de fundo de toda a discussão. O economista André Braz, da FGV, alerta que, apesar das chuvas de janeiro, a recuperação plena dos reservatórios em 2022 ainda é incerta, especialmente diante da seca no sul do país.

Além da audiência da Light, a revisão tarifária da Enel Distribuição Rio deve começar em fevereiro e ser concluída em março. Durante o processo, qualquer parte interessada pode pedir índices menores ou maiores antes da decisão final da agência.

O impacto, porém, vai além da fatura doméstica. Economistas do Ibmec e do Insper apontam que indústrias intensivas em energia repassarão custos aos produtos, e shoppings transferirão despesas maiores aos lojistas, que as embutirão nos preços. Os consumidores de baixa renda serão os mais vulneráveis, pois já comprometem grande parte do orçamento com alimentação e moradia, sem margem para absorver novos aumentos. O consultor Umbria acrescenta que o furto de energia por meio de 'gatos de luz' também pesa no cálculo tarifário — e quem paga são os demais consumidores.

Na quarta-feira, 19 de janeiro, a Agência Nacional de Energia Elétrica abrirá as portas — virtualmente, pelo YouTube — para que qualquer pessoa interessada possa participar de uma audiência que decidirá o futuro das contas de luz de milhões de cariocas. A pauta é simples e brutal: a Light quer aumentar as tarifas residenciais em quase 18%.

O número exato que a distribuidora apresentou à agência é 17,89% para clientes residenciais. Mas o impacto não será uniforme. Pequenas e médias empresas enfrentarão um reajuste médio de 17,96%, enquanto as grandes indústrias sairão com uma redução de 9,52%. O efeito médio para todos os clientes da Light deve ficar em 15,13%. Essa empresa é responsável por levar energia a cerca de 4,5 milhões de unidades consumidoras espalhadas por 37 municípios do estado do Rio de Janeiro.

Para entender por que os números são tão altos, é preciso voltar ao mecanismo que governa as tarifas de energia no Brasil. A cada quatro ou cinco anos, dependendo do contrato, a Aneel revisa as tarifas das distribuidoras. Nessa revisão, a agência analisa gastos que não foram cobertos pelas bandeiras tarifárias — aqueles aumentos temporários que aparecem na conta quando a energia fica cara — e também projeta despesas futuras, como manutenção de equipamentos e expansão da rede. Fernando Umbria, consultor em energia elétrica, explica que o percentual proposto supera a inflação acumulada de 2021 porque a arrecadação com as bandeiras extras não foi suficiente para cobrir os gastos que o setor teve por causa da crise hídrica. Mesmo com a bandeira de escassez hídrica em vigor, não se arrecadou o necessário. Existe um valor que precisa ser resolvido, caso contrário as distribuidoras ficarão sem capital de giro.

A crise hídrica é o pano de fundo de toda essa história. Com as represas em níveis baixos, a geração de energia barata através das hidrelétricas não foi possível. Embora janeiro tenha começado com bom volume de chuvas, André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, lembra que a chuva não teve o vigor esperado e que há uma seca no sul do país, trazendo pessimismo para a recuperação plena dos reservatórios em 2022. O desafio, portanto, deve continuar.

Durante a audiência pública, a Light pode solicitar um ajuste ainda maior, assim como clientes e órgãos de defesa do consumidor podem pleitear uma correção menor. Após análise das contribuições, os índices passarão a vigorar em 13 de março. A discussão sobre o reajuste para clientes da Enel Distribuição Rio, por sua vez, deve começar em fevereiro e ser finalizada em março.

Mas o impacto dessa conta de luz mais cara vai muito além da fatura que chega em casa. Gilberto Braga, economista e professor do Ibmec RJ, aponta que consumidores de baixa renda serão os mais prejudicados, já que gastam a maior parte do seu orçamento com itens essenciais como alimentação e moradia. Quando a energia fica cara, eles têm menos espaço para respirar. Além disso, o aumento se propaga pela economia inteira. Indústrias automobilísticas e siderúrgicas, que são intensivas em energia, terão que aumentar o preço dos seus produtos. Um shopping center que paga condomínio mais caro por causa do uso de energia transfere o custo para os lojistas, que transferem para os preços. Alexandre Chaia, professor de finanças do Insper, concorda que como a luz é um bem usado em diversos processos de produção, o aumento vai ser embutido no preço de diversos produtos do dia a dia. E aqui está o problema: as pessoas não têm capacidade econômica de repor suas rendas — nem trabalhadores, nem empresários.

O consultor Umbria menciona ainda que o custo com a perda de energia por causa de furto através de 'gatos de luz' é um dos fatores analisados que contribui para o reajuste. Os demais consumidores acabam, literalmente, pagando a conta de quem pratica o desvio. Para minimizar aumentos futuros, sugere que a empresa faça investimento em fiação subterrânea. A audiência de quarta-feira será o primeiro passo para definir se esses números se tornam realidade em março.

Mesmo a Aneel tendo estabelecido a bandeira da escassez hídrica, não conseguiu arrecadar o que era preciso. Existe ainda um valor que precisa ser resolvido. Caso contrário, as distribuidoras vão ficar sem capital de giro.
— Fernando Umbria, consultor em energia elétrica
O consumidor não vai pagar mais caro só por deixar a luz acesa em casa, mas também em tudo que consumir.
— Gilberto Braga, economista e professor do Ibmec RJ
Contact Us FAQ