Light pode reajustar conta de luz em 17,89% para clientes residenciais

Consumidores de baixa renda serão mais prejudicados, pois gastam maior parte do orçamento com itens essenciais como alimentação e moradia.
Você tira com uma mão, mas dá com a outra
Economista descreve como quedas nas bandeiras tarifárias serão compensadas por reajustes estruturais.
Mark

Por que a crise hídrica de 2021 ainda está impactando as contas de luz em 2022?

Mimi

Porque as bandeiras tarifárias extras cobradas durante a crise não geraram receita suficiente para cobrir todos os gastos que o setor teve. Ficou um déficit que precisa ser resolvido agora, senão as distribuidoras não conseguem manter o capital de giro para operar.

Mark

Então o consumidor está pagando duas vezes pela mesma crise?

Mimi

Essencialmente, sim. Pagou pelas bandeiras extras em 2021 e agora paga novamente através do reajuste tarifário. É um custo que não foi totalmente capturado na primeira tentativa.

Mark

E por que os consumidores de baixa renda são os mais prejudicados?

Mimi

Porque energia é um item essencial. Quem ganha mais pode absorver o aumento em sua renda total, mas quem gasta 40, 50% do orçamento com alimentação e moradia não tem margem. O aumento de 18% em uma conta de luz pequena ainda é um corte real no que podem gastar com outras necessidades.

Mark

Como isso se transforma em inflação geral?

Mimi

A energia é insumo para tudo. Uma fábrica de carros, uma siderúrgica, um shopping center — todos pagam mais caro por energia. Então aumentam o preço dos seus produtos e serviços. O custo sobe em cascata pela economia inteira.

Mark

A audiência pública pode realmente mudar o resultado?

Mimi

Pode influenciar, mas há limites. A Aneel já definiu 17,89% como tolerável. A Light pode pedir mais, consumidores podem pedir menos, mas a agência tem que equilibrar a receita da empresa com a capacidade de pagamento. Não é um processo totalmente aberto.

  • Reajuste de 17,89% para clientes residenciais da Light a partir de março de 2022
  • Light atende 4,5 milhões de unidades consumidoras em 37 municípios do Rio de Janeiro
  • Audiência pública da Aneel no dia 19 de janeiro para debater o aumento
  • Crise hídrica de 2021 deixou déficit que bandeiras tarifárias não cobriram

Reajuste de 17,89% para clientes residenciais da Light será decidido em audiência pública da Aneel no dia 19 de janeiro. Crise hídrica de 2021 deixou déficit que bandeiras tarifárias não cobriram, forçando distribuidoras a repassar custos aos consumidores.

Clientes residenciais da Light enfrentam possível reajuste de 17,89% nas tarifas de energia a partir de março. A Aneel realizará audiência pública para debater o aumento, impulsionado pela crise hídrica de 2021.

A Light, distribuidora de energia que atende 4,5 milhões de unidades consumidoras em 37 municípios do Rio de Janeiro, pode aumentar a conta de luz de seus clientes residenciais em 17,89% a partir de março. A decisão será tomada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) após uma audiência pública virtual realizada no dia 19 de janeiro, transmitida pelo canal da agência no Youtube, onde qualquer cidadão interessado pode participar e apresentar sua posição sobre o tema.

Segundo Fernando Umbria, consultor em energia elétrica, a revisão tarifária é um procedimento que ocorre a cada quatro ou cinco anos, dependendo do contrato. Nesse processo, a Aneel analisa documentos da distribuidora, considerando tanto despesas anteriores que não foram cobertas pelas bandeiras tarifárias quanto investimentos futuros previstos, como manutenção de equipamentos e expansão da rede. No caso da Light, o percentual de 17,89% foi definido como tolerável para residências, enquanto o impacto médio em todos os clientes da empresa deve chegar a 15,13%. Pequenas e médias empresas enfrentarão reajuste médio de 17,96%, enquanto grandes empresas e indústrias terão aumento de 9,52%.

O reajuste proposto supera a inflação acumulada de 2021 porque a arrecadação com as bandeiras tarifárias extras não foi suficiente para cobrir os gastos que o setor enfrentou durante a crise hídrica. Umbria explica que mesmo com a bandeira de escassez hídrica em vigor, a arrecadação ficou aquém do necessário, deixando um déficit que precisa ser resolvido para que as distribuidoras mantenham capital de giro. Durante a audiência pública, a Light pode solicitar um reajuste ainda maior, assim como consumidores e órgãos de defesa podem pleitear uma correção menor. Após análise das contribuições, os novos índices entrarão em vigor em 13 de março.

Gilberto Braga, economista e professor do Ibmec RJ, aponta que o custo com perdas de energia causadas por furtos através de "gatos de luz" é um dos fatores que contribuem para o reajuste. Os consumidores regulares acabam pagando pela energia desviada por outros. Braga sugere que a empresa invista em fiação subterrânea para minimizar aumentos futuros. Ele também destaca que os mais prejudicados serão os consumidores de baixa renda, que dedicam a maior parte de seu orçamento a itens essenciais como alimentação e moradia.

A crise hídrica de 2021 forçou as tarifas de energia a subirem significativamente porque a geração barata via hidrelétricas não foi possível diante do baixo volume das represas. André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, observa que embora janeiro tenha começado com bom volume de chuvas, isso não ocorreu com o vigor esperado, e há uma seca no sul do país que traz pessimismo para a recuperação plena dos reservatórios em 2022. Ele afirma que o desafio deve continuar, pois o novo reajuste pesa sobre a estrutura produtiva quando a energia já vem cara do ano anterior.

Braz compara o efeito a um jogo de soma zero: embora haja expectativa de bandeiras menos onerosas a partir de maio, essa queda será compensada pelo aumento já anunciado por algumas concessionárias. A energia mais cara funciona como uma fonte de espalhamento das pressões inflacionárias em toda a economia. Setores intensivos em energia, como a indústria automobilística e siderúrgica, precisarão aumentar os preços de seus produtos, e o mesmo ocorre com serviços: um shopping center que paga condomínio mais caro por causa do uso de energia transfere o custo para os lojistas, que repassam para os preços finais.

Alexandre Chaia, professor de finanças do Insper, concorda que como a luz é um bem utilizado em diversos processos de produção, o aumento será embutido no preço de diversos produtos do dia a dia. Ele também analisa que o aumento é preocupante porque as pessoas não têm capacidade econômica de repor suas rendas, nem trabalhadores nem empresários. A discussão sobre o reajuste tarifário para clientes da Enel Distribuição Rio deve começar em fevereiro, com conclusão prevista para março, indicando que outras distribuidoras enfrentarão processos similares nos próximos meses.

Mesmo a Aneel tendo estabelecido a bandeira da escassez hídrica, não conseguiu arrecadar o que era preciso. Existe ainda um valor que precisa ser resolvido.
— Fernando Umbria, consultor em energia elétrica
O consumidor não vai pagar mais caro só por deixar a luz acesa em casa, mas também em tudo que consumir
— Gilberto Braga, economista do Ibmec RJ
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