Maddy, 32 anos, foi internada após vomitar sangue e ácido estomacal ao usar semaglutida pirata comprada no Instagram por £200. Testes de laboratório da BBC encontraram inconsistências nas amostras: alguns frascos não continham o princípio ativo e nenhum tinha a dose completa anunciada.
Injeção 'pirata' de Ozempic causa vômito com sangue e alerta sobre riscos à saúde
Você pode estar injetando qualquer coisa
Por que as pessoas estão dispostas a correr esses riscos? Não é óbvio que comprar medicamentos de estranhos na internet é perigoso?
Porque a pressão para emagrecer é real, e o Ozempic funciona. Quando você vê fotos de transformação no Instagram todos os dias, quando celebridades estão usando, quando o medicamento está em falta nas farmácias legais — a lógica muda. O risco se torna abstrato. O desejo é concreto.
Mas Maddy sabia que era ilícito, certo? Ela não pensou que havia algo errado?
Ela pensou que havia algo errado — depois. Quando estava vomitando sangue. Antes disso, era apenas uma transação rápida no Instagram com alguém que parecia profissional, que tinha fotos de clientes satisfeitos, que respondeu rapidinho. A ilusão de legitimidade é muito poderosa.
E os vendedores? Como alguém como Jordan Parke justifica isso para si mesmo?
Provavelmente não justifica. Ele vê uma demanda, vê uma oportunidade de lucro, e age. Quando Maddy reclamou dos efeitos colaterais, ele simplesmente disse que era normal. Não há espaço para culpa quando você está operando em um mercado paralelo — você está fora do sistema de responsabilidade.
Os testes de laboratório encontraram frascos completamente vazios — sem nenhum princípio ativo. Como isso é possível?
Porque não há verificação. Um medicamento legítimo passa por testes rigorosos antes de chegar a você. Um frasco ilícito passa por nada. Pode ser feito em qualquer lugar, por qualquer pessoa, com qualquer coisa. Alguns vendedores talvez nem saibam o que estão vendendo — apenas revendem o que compraram de outra pessoa.
E as autoridades? Elas estão fazendo algo?
Estão tentando. Mas é um jogo de gato e rato. Bloqueiam um perfil, o vendedor cria outro. Apreenderam 300 canetas falsas desde janeiro, mas há milhares sendo vendidas. A escala do problema é muito maior do que a capacidade de resposta regulatória.
O Pulso
- Maddy, 32 anos, foi internada após vomitar sangue e ácido estomacal ao usar semaglutida pirata comprada no Instagram por £200
- Testes de laboratório encontraram frascos sem nenhum princípio ativo e nenhum com a dose completa anunciada
- Mais de 300 canetas falsas de Ozempic foram apreendidas desde janeiro no Reino Unido
- Semaglutida ilícita é vendida em salões de beleza em Manchester e Liverpool, além de redes sociais
Maddy, 32 anos, foi internada após vomitar sangue e ácido estomacal ao usar semaglutida pirata comprada no Instagram por £200. Testes de laboratório da BBC encontraram inconsistências nas amostras: alguns frascos não continham o princípio ativo e nenhum tinha a dose completa anunciada.
Mulheres que compraram semaglutida não licenciada em redes sociais sofreram complicações graves, incluindo vômitos com sangue. Investigação revela mercado ilícito com produtos falsificados e sem controle de qualidade.
Maddy acordou vomitando. Não era o enjoo passageiro que lhe disseram que poderia esperar — era ácido estomacal, sangue e espuma branca saindo de sua boca a noite toda. Na manhã seguinte, aos 32 anos, ela estava no pronto-socorro recebendo soro para tratar desidratação severa. Tudo começou com uma mensagem no Instagram e uma transferência bancária de 200 libras.
Ela havia procurado uma solução rápida para perder peso antes de um evento importante. Encontrou The Lip King, um perfil repleto de fotos de transformação e depoimentos de clientes satisfeitos. O proprietário, Jordan Parke, respondeu rapidamente. Sem consulta médica, sem perguntas sobre seu histórico de saúde, Maddy recebeu 10 miligramas de semaglutida — o ingrediente ativo do Ozempic — junto com um vídeo do WhatsApp explicando como misturar o pó branco com o líquido e se injetar. As instruções, perigosamente, a aconselhavam a tomar uma dose mais alta do que a recomendada pelas autoridades de saúde.
Depois da primeira injeção, Maddy ficou extremamente doente, acamada e vomitando. Quando enviou mensagem para Parke reclamando, ele respondeu que vomitar era normal e sugeriu comprimidos para o enjoo. Semanas depois, quando a náusea passou, ela tentou novamente — desta vez antes de dormir. O que aconteceu naquela noite a deixou convencida de que estava morrendo. "Fiquei literalmente arrasada, chorando para minha mãe", contou ela depois. "Ninguém me falou sobre esses efeitos colaterais."
O caso de Maddy não é isolado. Uma investigação da BBC descobriu um mercado paralelo florescente de semaglutida ilícita vendida através das redes sociais, em salões de beleza em Manchester e Liverpool, e por correio em kits que chegam com agulhas, pó branco e líquido para misturar. A demanda explodiu depois que o Ozempic — originalmente aprovado apenas para diabetes tipo 2 — virou o "tratamento secreto de Hollywood" para perda de peso. Enquanto isso, farmácias no Reino Unido enfrentavam escassez do medicamento para pacientes diabéticos que realmente precisavam dele.
Quando a BBC comprou semaglutida não licenciada de vários vendedores e enviou para testes de laboratório, os resultados foram perturbadores. Embora a maioria contivesse semaglutida, dois frascos de diferentes vendedores não continham nada do princípio ativo. Quase todos — incluindo os do perfil Lip King — traziam menos da dose completa que havia sido anunciada. Os vendedores tentam contornar a lei rotulando o produto como "impróprio para consumo humano" ou "apenas para fins de pesquisa", mas especialistas em direito público apontam que essas advertências não têm validade legal se o produto está sendo vendido para uso humano.
Os riscos vão além da inconsistência. Tilly, de 22 anos, comprou semaglutida no TikTok e acidentalmente injetou o dobro da dose que deveria. Os frascos ilegais não têm as travas de segurança que vêm nos medicamentos oficiais. Ela recebeu instruções vagas — quando pediu ajuda, foi direcionada para um grupo do Facebook. "Senti a pior ressaca de todas", relatou. "Era como se estivesse com uma dor de cabeça muito forte. Fiquei enjoada e estressada por ter tomado demais."
Barbara McGowan, endocrinologista que trabalhou em estudos sobre semaglutida para obesidade, é clara sobre o perigo: medicamentos licenciados passam por controles de qualidade "muito rigorosos" antes da aprovação. Aqueles comprados fora da cadeia legal "podem estar injetando qualquer coisa". Os excipientes — os outros ingredientes que acompanham o medicamento — podem ser potencialmente tóxicos, causar reações anafiláticas, alergias ou problemas de saúde significativos. Além disso, medicamentos como a semaglutida causam efeitos colaterais importantes em alguns pacientes e exigem acompanhamento médico adequado, não apenas uma prescrição.
As autoridades regulatórias estão cientes. A MHRA do Reino Unido relata ter recebido notificações de pessoas hospitalizadas após usar canetas falsas de Ozempic — mais de 300 unidades foram apreendidas desde janeiro. A agência promete usar seus poderes para proteger o público e processar aqueles que colocam a saúde em risco. Mas enquanto isso, vendedores como Dale Dennis, um personal trainer que vende frascos de 10 miligramas de Ozempic não licenciado através do WhatsApp, continuam operando. Quando a BBC tentou entrevistá-lo, ele cancelou e enviou uma mensagem com um palavrão, seguida de um comentário sobre quanto ganha por semana.
O que Maddy e Tilly experimentaram — e o que centenas de outras pessoas estão experimentando — é o resultado de uma procura desesperada por uma solução rápida encontrando um vácuo regulatório. O medicamento funciona. As pessoas querem emagrecer. E há quem esteja disposto a vender qualquer coisa, em qualquer concentração, sem nenhuma supervisão médica, contanto que o lucro seja rápido.
Citações Notáveis
Fiquei literalmente arrasada, chorando para minha mãe. Ninguém me falou sobre esses efeitos colaterais.— Maddy, 32 anos, após sofrer complicações graves
Você pode estar injetando qualquer coisa. Não sabemos o que são os excipientes — os outros ingredientes que acompanham o medicamento, que podem ser potencialmente tóxicos e prejudiciais.— Barbara McGowan, endocrinologista