Em maio de 2021, a Índia se encontrava no cruzamento de duas crises simultâneas: a maior média de mortes diárias por Covid-19 do mundo e o avanço silencioso de um fungo raro com taxa de mortalidade devastadora. Nova Deli estendia seu lockdown pela quinta vez, enquanto o país acumulava quase 300 mil mortes e mais de 8 mil casos de mucormicose — lembrando que as grandes tragédias raramente chegam sozinhas, e que a vulnerabilidade humana, quando ignorada, se multiplica.
Índia enfrenta surto de fungo negro enquanto Covid mata 4 mil por dia
Quatro mil mortes por dia enquanto um fungo raro mata metade de quem infecta
Por que o fungo negro apareceu justamente agora, durante a pandemia de Covid?
O fungo sempre existiu no ambiente, mas pessoas com Covid-19 têm o sistema imunológico enfraquecido. Quando você está se recuperando de uma infecção viral grave, seu corpo fica vulnerável a outras infecções oportunistas. É como abrir uma porta que deveria estar fechada.
E por que a Índia em particular?
A Índia tinha o maior número de casos ativos de Covid do mundo naquele momento. Quanto mais pessoas infectadas, mais pessoas com imunidade comprometida. Além disso, o clima tropical e úmido favorece o crescimento de fungos. É uma combinação de fatores.
A taxa de mortalidade de 50% a 94% é realmente tão alta?
Sim. Depende de quando o fungo é detectado e tratado. Se descoberto cedo, as chances melhoram. Mas muitas pessoas chegam ao hospital em estágios avançados. E o medicamento, a Anfotericina B, não é fácil de conseguir em quantidade suficiente.
O lockdown estava funcionando?
Os números de novos casos começavam a cair, o que sugeria que sim. Mas quatro mil mortes por dia continuavam acontecendo. O lockdown compra tempo, mas não resolve o problema fundamental: o país não tinha vacinas suficientes para proteger a população.
Qual era o maior obstáculo?
A vacinação. Com 1,4 bilhão de pessoas e apenas 150 milhões com a primeira dose, a Índia estava muito longe de criar uma barreira de imunidade. Enquanto isso, o vírus continuava circulando, criando mais vítimas e mais pessoas vulneráveis a infecções secundárias como o fungo negro.
El Pulso
- Com mais de 4 mil mortes diárias, a Índia tornou-se o epicentro global da pandemia, superando qualquer outro país em ritmo de óbitos naquele momento.
- Um segundo inimigo emergiu nas sombras: o fungo negro, a mucormicose, atingiu 8,8 mil pessoas — sobretudo diabéticos e imunossuprimidos — com taxa de mortalidade que pode chegar a 94%.
- Nova Deli, metrópole de 30 milhões de habitantes, decretou sua quinta prorrogação de lockdown, impondo toque de recolher, fechamento de comércios e transporte reduzido em tentativa desesperada de conter o colapso.
- O governo distribuiu estoques emergenciais do antifúngico Anfotericina B e o embaixador indiano na Rússia buscou ajuda internacional, revelando os limites do sistema de saúde diante da crise dupla.
- Com apenas 150 milhões de primeiras doses aplicadas em uma população de 1,4 bilhão, a vacinação lenta deixava o país exposto a novas ondas e às complicações infecciosas que a pandemia continuava a gerar.
Em maio de 2021, a Índia se encontrava no cruzamento de duas crises simultâneas: a maior média de mortes diárias por Covid-19 do mundo e o avanço silencioso de um fungo raro com taxa de mortalidade devastadora. Nova Deli estendia seu lockdown pela quinta vez, enquanto o país acumulava quase 300 mil mortes e mais de 8 mil casos de mucormicose — lembrando que as grandes tragédias raramente chegam sozinhas, e que a vulnerabilidade humana, quando ignorada, se multiplica.
Em um domingo de maio de 2021, a Índia vivia uma crise sanitária de proporções históricas. O país registrava a maior média de mortes diárias por Covid-19 do mundo — mais de quatro mil óbitos a cada vinte e quatro horas —, acumulando quase 300 mil mortes e 28 milhões de casos confirmados. Arvind Kejriwal, ministro-chefe de Deli, anunciou a quinta prorrogação do lockdown na capital, estendendo as restrições até 31 de maio. Restaurantes, comércios não essenciais e centros comerciais permaneciam fechados; o toque de recolher vigorava das 22h às 5h; o transporte público operava com capacidade reduzida.
Mas havia uma segunda ameaça crescendo nas sombras da pandemia. O ministro Sadananda Gowda revelou que o país já contabilizava mais de 8.800 casos de mucormicose, o chamado fungo negro — uma infecção fúngica rara com taxa de mortalidade entre 50% e 94%. Transmitida por esporos ambientais ou por ferimentos na pele, a doença atingia com força desproporcional diabéticos e pacientes com imunidade comprometida, incluindo sobreviventes da Covid-19. Gujarat liderava os casos com 2.281 infecções, seguido de Maharashtra com 2.000.
Em resposta, o governo distribuiu estoques emergenciais de Anfotericina B, o antifúngico padrão, calculados proporcionalmente ao número de infectados em cada estado. O embaixador indiano na Rússia foi além: iniciou consultas com especialistas russos em busca de alternativas terapêuticas, sinalizando que a Índia reconhecia precisar de ajuda internacional.
Ao fundo de tudo isso, a vacinação avançava em ritmo insuficiente. Apenas 150 milhões de pessoas haviam recebido a primeira dose em um país de quase 1,4 bilhão de habitantes. A imunidade coletiva permanecia distante, e a Índia seguia exposta — não apenas a novas ondas do vírus, mas às complicações que surgem quando uma crise sanitária se prolonga além do que qualquer sistema de saúde consegue suportar.
No domingo de maio, a Índia enfrentava uma crise sanitária sem precedentes. O país registrava a maior média de mortes diárias do mundo — mais de quatro mil pessoas perdendo a vida a cada vinte e quatro horas por Covid-19. Simultaneamente, um surto de infecção fúngica rara começava a se desenhar como uma ameaça secundária, mas igualmente grave. Arvind Kejriwal, ministro-chefe de Deli, anunciou naquele dia que o lockdown na capital seria estendido até 31 de maio, a quinta prorrogação desde que as restrições começaram em 19 de abril. A decisão refletia a tentativa desesperada de conter um vírus que parecia fora de controle.
Os números contextualizavam a magnitude do desastre. A Índia havia acumulado mais de 28 milhões de casos confirmados de Covid-19 e quase 300 mil mortes. Em comparação global, apenas os Estados Unidos tinham registrado mais óbitos. A média diária de novos casos havia começado a cair — de quase 400 mil no dia 8 de maio para cerca de 260 mil uma semana depois — mas o país continuava sendo o epicentro global da pandemia. Nova Deli, com seus 30 milhões de habitantes na região metropolitana, havia confirmado 1.415.219 casos desde o início da pandemia e 23.013 mortes. Naquele fim de semana, a capital registrava aproximadamente 1.600 novas infecções a cada dia.
O lockdown na capital impunha restrições severas. Restaurantes, lojas de produtos não alimentícios e centros comerciais permaneciam fechados. Empresas privadas foram obrigadas a adotar trabalho remoto. Um toque de recolher funcionava das 22 horas às 5 da manhã. Reuniões e aglomerações foram proibidas, e o transporte público operava com capacidade reduzida. Algumas atividades essenciais — organizações governamentais, hospitais, polícia, bombeiros, supermercados, bancos e provedores de internet — continuavam funcionando, oferecendo algum alívio à população confinada.
Mas havia outro problema emergindo nas sombras da pandemia. Sadananda Gowda, ministro indiano de Produtos Químicos e Fertilizantes, anunciou naquele mesmo domingo que o país havia registrado mais de 8.800 casos de mucormicose, conhecida popularmente como fungo negro. A infecção fúngica apresentava uma taxa de mortalidade assustadora, variando entre 50% e 94% dependendo do estágio da doença. O fungo se transmitia através do contato com esporos no ambiente ou pela penetração através de ferimentos na pele. Pessoas com diabetes e sistema imunológico comprometido — incluindo aqueles em recuperação de Covid-19 — eram particularmente vulneráveis. Gujarat liderava o número de casos com 2.281 infecções, seguido de perto por Maharashtra com 2.000. Andhra Pradesh, Madhya Pradesh e Rajastão também enfrentavam situações graves.
O governo indiano respondeu alocando 23.680 frascos adicionais de Anfotericina B, o medicamento antifúngico padrão, para todos os estados e territórios. A distribuição foi calculada com base no número total de pacientes infectados em cada região. Mesmo assim, a situação permanecia precária. O embaixador indiano na Rússia havia iniciado consultas com especialistas russos sobre possíveis métodos de tratamento para a mucormicose, sinalizando que a Índia buscava ajuda internacional para lidar com a complicação infecciosa.
A vacinação contra a Covid-19 avançava lentamente. Embora a Índia tivesse aplicado a primeira dose em cerca de 150 milhões de pessoas, o país com a segunda maior população do planeta — quase 1,4 bilhão de habitantes — estava longe de alcançar números significativos de imunidade coletiva. Em doses aplicadas, apenas Estados Unidos e China estavam à frente, mas a proporção em relação à população era insuficiente. A Índia permanecia vulnerável a novas ondas de infecção e às complicações que a pandemia trazia consigo.
Citas Notables
Consultei muitas pessoas e a opinião geral favoreceu a prorrogação do bloqueio por uma semana— Arvind Kejriwal, ministro-chefe de Deli
Um total de 23.680 frascos adicionais de Anfotericina B foram alocados para todos os estados e territórios— Sadananda Gowda, ministro indiano de Produtos Químicos e Fertilizantes