A 336 anos-luz de distância, um exoplaneta gigante chamado HD106906 b move-se numa órbita tão inclinada e alongada que os astrónomos o reconhecem como um espelho vivo do maior enigma do nosso sistema solar: o hipotético Planeta 9. Após 14 anos de observações pelo Telescópio Espacial Hubble, uma equipa da Universidade da Califórnia em Berkeley mediu pela primeira vez a órbita completa deste mundo — 11 vezes mais massivo que Júpiter, a 730 unidades astronómicas das suas estrelas. O que este mundo distante sugere é que a estranheza que suspeitamos existir nos confins do nosso próprio sistema pode
Hubble descobre exoplaneta que se comporta como o misterioso Planeta 9
Uma órbita inclinada e alongada que desafia tudo o que sabemos
Porque é que este exoplaneta distante nos ajuda a compreender algo que não conseguimos nem ver no nosso próprio quintal cósmico?
Porque oferece um exemplo vivo de um processo que acreditamos ter acontecido aqui. O Planeta 9 é apenas uma sombra — sabemos que algo está lá por causa dos seus efeitos gravitacionais. Mas HD106906 b é o mesmo tipo de coisa, só que podemos vê-lo e medi-lo.
Mas espera — o Planeta 9 ainda não foi detetado. Estamos a basear-nos em inferências gravitacionais, certo? Quantas estrelas candidatas existem realmente para ter estabilizado HD106906 b?
O Gaia forneceu várias candidatas, mas a verdade é que ainda não sabemos qual foi. É um trabalho em progresso.
Então o que torna HD106906 b tão especial? Há outros exoplanetas com órbitas estranhas?
A combinação é rara. Uma órbita tão inclinada e alongada, a uma distância tão extrema, com um disco de detritos ao redor — tudo isto junto oferece um laboratório natural para compreender como os planetas podem ser ejetados.
E quanto ao timing? Levou 14 anos de observações do Hubble para medir isto. Quanto tempo levará para encontrar o Planeta 9, se existir?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Poderia estar ali, invisível, durante décadas ainda.
Mas se o Planeta 9 existe e foi ejetado como sugerem, porque é que não vemos mais planetas errantes no nosso sistema solar?
Talvez vejamos, eventualmente. Ou talvez a maioria seja ejetada completamente. O Planeta 9 foi sortudo — uma estrela vizinha o apanhou.
Portanto, estamos a dizer que HD106906 b é uma prova de conceito, não uma prova de que o Planeta 9 existe?
Exatamente. É um exemplo de como este tipo de dinâmica funciona no universo.
Il Polso
- O Planeta 9 nunca foi visto, mas a sua gravidade parece dobrar o comportamento de objetos além de Neptuno — uma ausência que pesa como uma presença.
- HD106906 b orbita as suas estrelas de forma radicalmente inclinada e alongada, violando a regra cósmica que mantém os planetas num mesmo plano, como se tivesse sido arremessado para fora do seu lugar de origem.
- A teoria proposta é um drama de expulsão: o planeta terá sido catapultado para o espaço exterior pelo atrito com o disco de gás e pelas forças gravitacionais das suas estrelas, salvo do exílio eterno por uma estrela vizinha.
- Esta dinâmica de migração e estabilização oferece um modelo concreto para explicar como o Planeta 9 poderia ter sido ejetado por Júpiter e retido nos confins do sistema solar.
- O estudo, publicado no 'The Astronomical Journal', não confirma a existência do Planeta 9, mas transforma a especulação em possibilidade observável — o universo já fez isto antes.
A 336 anos-luz de distância, um exoplaneta gigante chamado HD106906 b move-se numa órbita tão inclinada e alongada que os astrónomos o reconhecem como um espelho vivo do maior enigma do nosso sistema solar: o hipotético Planeta 9. Após 14 anos de observações pelo Telescópio Espacial Hubble, uma equipa da Universidade da Califórnia em Berkeley mediu pela primeira vez a órbita completa deste mundo — 11 vezes mais massivo que Júpiter, a 730 unidades astronómicas das suas estrelas. O que este mundo distante sugere é que a estranheza que suspeitamos existir nos confins do nosso próprio sistema pode não ser exceção, mas padrão.
A 336 anos-luz de distância existe um mundo que se comporta de forma estranha — tão estranha que os astrónomos o veem como um espelho do maior mistério do nosso sistema solar. Uma equipa liderada por Meiji Nguyen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, mediu finalmente a órbita completa do exoplaneta HD106906 b, e o que encontraram oferece pistas sobre um fantasma que há anos assombra a ciência: o Planeta 9.
O Planeta 9 é uma entidade que ninguém viu. A sua presença é sentida apenas gravitacionalmente — certos objetos além de Neptuno comportam-se como se algo muito massivo os estivesse a puxar. HD106906 b foi descoberto em 2013 pelo Telescópio Magalhães, no Chile, mas foram necessários 14 anos de medições do Hubble para revelar como se move. O resultado foi notável: este mundo, 11 vezes mais massivo que Júpiter, orbita a 730 unidades astronómicas das suas duas estrelas, levando 15 mil anos para completar uma volta.
O aspeto mais intrigante não é a distância — é a forma da órbita. Enquanto os planetas do nosso sistema solar dançam aproximadamente no mesmo plano, HD106906 b segue uma trajetória inclinada e alongada, como se Júpiter estivesse inclinado 30 graus em relação aos seus vizinhos. Os astrónomos propõem um drama de expulsão: o planeta terá formado-se perto das suas estrelas, sido desacelerado pelo disco de gás e catapultado para o espaço exterior. Uma estrela próxima terá impedido que se perdesse completamente no cosmos.
E aqui reside a ligação ao Planeta 9. Se algo semelhante aconteceu neste sistema distante, porque não teria acontecido no nosso? O Planeta 9 poderia ter sido ejetado por Júpiter para os confins do sistema solar, estabilizado pela gravidade de uma estrela vizinha. Robert De Rosa, coautor do estudo, sublinhou que a órbita inferida do Planeta 9 apresenta características excêntricas e inclinadas que espelham precisamente o que se vê em HD106906 b. O mistério permanece por resolver — mas o universo já mostrou que este cenário é possível.
A 336 anos-luz de distância, numa região do espaço que nos é praticamente invisível, existe um mundo que se comporta de forma estranha — tão estranha que os astrónomos o veem como um espelho do maior mistério do nosso próprio sistema solar. Uma equipa liderada por Meiji Nguyen, investigador da Universidade da Califórnia em Berkeley, conseguiu finalmente medir a órbita completa deste exoplaneta gigante, denominado HD106906 b, e o que encontraram oferece pistas sobre um fantasma que há anos assombra a comunidade científica: o Planeta 9.
O Planeta 9 é uma entidade que ninguém viu. Nenhum telescópio o detetou. Mas a sua presença é sentida — ou pelo menos, é isso que muitos astrónomos acreditam. Desde há cinco anos, investigadores têm sugerido que, nos confins do nosso sistema solar, para além de Plutão, existe um nono planeta de dimensões colossais. A evidência não é visual, mas gravitacional. Certos objetos que orbitam além de Neptuno comportam-se de formas que só fazem sentido se algo muito massivo — algo comparável a Neptuno — os estivesse a puxar com a sua gravidade. Alguns cientistas especulam que este corpo poderia ser uma anã castanha, uma estrela fria e escura que se esconde nas sombras do espaço.
HD106906 b foi descoberto em 2013 pelo Telescópio Magalhães, no Chile, através de imagem direta — os astrónomos conseguiram vê-lo porque o seu sistema hospedeiro possui um disco peculiar de detritos e gás que o torna visível. Mas durante anos, ninguém sabia como este planeta se movia. Foram necessários 14 anos de medições precisas do Telescópio Espacial Hubble para revelar a sua órbita. O que o Hubble descobriu foi notável: este mundo, 11 vezes mais massivo que Júpiter, orbita a uma distância extraordinária — 730 unidades astronómicas das suas duas estrelas. Para colocar isto em perspetiva, uma unidade astronómica é a distância entre a Terra e o Sol, cerca de 150 milhões de quilómetros. HD106906 b leva 15 mil anos para completar uma volta, movendo-se tão lentamente que está praticamente fora da influência gravitacional das suas estrelas.
Mas o aspeto mais intrigante não é a distância — é a forma da órbita. No nosso sistema solar, todos os planetas orbitam aproximadamente no mesmo plano, como se dançassem sobre uma mesa cósmica. HD106906 b não segue esta regra. A sua órbita é inclinada e alongada, estendendo-se bem para além do disco de detritos que circunda as suas estrelas. Meiji Nguyen explicou que seria como se Júpiter estivesse inclinado 30 graus em relação ao plano onde os outros planetas orbitam — uma anomalia que levanta questões fundamentais sobre como um planeta acaba numa posição tão estranha.
A explicação que os astrónomos propõem é um drama cósmico de migração e expulsão. HD106906 b provavelmente formou-se muito mais perto das suas estrelas, a apenas 3 unidades astronómicas. Mas o atrito com o disco de gás e detritos o desacelerou, fazendo-o aproximar-se lentamente. Num determinado momento, as forças gravitacionais o catapultaram para o espaço exterior. Poderia ter-se tornado um planeta errante, vagueando sozinho no vazio, mas uma estrela próxima estabilizou-o gravitacionalmente, impedindo esse destino. Os dados do satélite Gaia da Agência Espacial Europeia já identificaram várias candidatas a esta estrela salvadora.
E aqui reside a conexão com o Planeta 9. Se algo semelhante aconteceu neste sistema distante, porque não teria acontecido no nosso? O Planeta 9 poderia ter-se formado no interior do nosso sistema solar, mas as interações com Júpiter — o gigante gasoso que domina o nosso próprio sistema — poderiam tê-lo ejetado para os arredores, para além de Plutão. Novamente, a influência gravitacional de uma estrela vizinha poderia tê-lo mantido em órbita, impedindo-o de se perder completamente no cosmos. Robert De Rosa, coautor do estudo e investigador do Observatório Europeu Austral, resumiu a importância da descoberta: a órbita inferida do Planeta 9, baseada nos seus efeitos gravitacionais observáveis, apresenta características excêntricas e inclinadas que espelham precisamente o que se vê em HD106906 b.
O estudo foi publicado no "The Astronomical Journal" e oferece um mapa potencial para compreender como planetas gigantes podem ser expulsos para órbitas extremas. Não prova a existência do Planeta 9 — esse mistério permanece por resolver. Mas mostra que o cenário que os astrónomos imaginam não é apenas especulação teórica. Em algum lugar do universo, está a acontecer exatamente o tipo de dinâmica que poderia explicar o fantasma que assombra o nosso sistema solar.
Citazioni salienti
Seria estranho se, por exemplo, Júpiter estivesse inclinado 30 graus em relação ao plano em que os outros planetas orbitam. Portanto, temos todos os tipos de perguntas sobre como HD106906 b acabou em tal órbita.— Meiji Nguyen, investigador da Universidade da Califórnia em Berkeley
A órbita inferida do Planeta 9 apresenta características excêntricas e inclinadas semelhantes à que estamos a ver com HD106906 b.— Robert De Rosa, coautor do estudo e investigador do Observatório Europeu Austral