A AfD obteve 44% dos votos na Saxônia-Anhalt, mas precisa negociar com outros partidos para formar governo, pois não tem maioria absoluta. Partidos democráticos mantêm 'firewall' contra coalizão com a AfD, considerada 'comprovadamente de extrema direita' pelos serviços de inteligência alemães.
Extrema direita conquista maior bancada na Alemanha desde a 2ª Guerra
Quanto maior ele fica, mais difícil vai ser impedi-lo
Por que esse resultado é tão significativo historicamente?
É a primeira vez desde o colapso do Terceiro Reich que um partido de extrema direita conquista a maior bancada em um Parlamento alemão. Não é apenas um voto de protesto — é uma mudança estrutural na política do país.
Mas ele não tem maioria absoluta, certo? Precisa negociar.
Exato. Com 39 cadeiras de 42 necessárias, depende de coalizão. Mas o sinal político é claro: 44% dos eleitores votaram nele.
E os outros partidos vão se recusar a trabalhar com a AfD?
Sim, há um acordo chamado Brandmauer — um firewall que os partidos democráticos mantêm. Mas é um acordo frágil quando um partido chega a esse tamanho.
Frágil é a palavra certa. Alguns conservadores já transparecem abertura. Não sabemos se isso vai durar.
Quem é Siegmund? Como ele chegou lá?
Economista que ganhou visibilidade durante a pandemia criticando restrições. Fez campanha no TikTok, apelando a memórias da Alemanha Oriental. Populismo puro.
E funcionou porque a CDU perdeu metade de seus votos de 2021. Merz está fraco.
Exatamente. Isso não é só vitória da AfD — é derrota do governo federal.
O que a AfD quer fazer se chegar ao poder?
Remigração em massa, saída da União Europeia, volta do marco alemão, proibição de médicos estrangeiros. Ideias radicais.
E ninguém sabe se conseguem implementar isso ou se é apenas retórica de campanha.
Verdade. Mas eles não têm histórico de amenizar o discurso. Dizem o que pensam.
E as eleições federais de 2029?
Esse resultado é um aviso. Se a AfD crescer assim em outros estados, pode ser força significativa no Bundestag.
Pode ser. Mas eleições federais são diferentes de estaduais. Ainda há muita água para correr.
O Pulso
- AfD conquistou 44% dos votos na Saxônia-Anhalt em setembro de 2026
- Primeira vez desde a Segunda Guerra que extrema direita alcança maior bancada em Parlamento alemão
- Ulrich Siegmund precisa negociar com outros partidos para formar governo com 39 cadeiras de 42 necessárias
- CDU caiu de votação anterior para 17,5%, aproximadamente metade de 2021
- Participação eleitoral foi de 78%
A AfD obteve 44% dos votos na Saxônia-Anhalt, mas precisa negociar com outros partidos para formar governo, pois não tem maioria absoluta. Partidos democráticos mantêm 'firewall' contra coalizão com a AfD, considerada 'comprovadamente de extrema direita' pelos serviços de inteligência alemães.
Pela primeira vez desde a 2ª Guerra Mundial, a AfD conquistou a maior bancada em eleição estadual na Alemanha, com 44% dos votos na Saxônia-Anhalt, marcando avanço significativo da extrema direita no país.
Na Saxônia-Anhalt, estado no leste alemão, a Alternativa para a Alemanha conquistou 44% dos votos em eleição estadual realizada no início de setembro, marcando a primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial que um partido de extrema direita alcança a maior bancada de um Parlamento no país. O resultado foi esmagador em números, mas não oferece ao partido a governança automática. Ulrich Siegmund, candidato da AfD que conduziu campanha populista apoiada em plataformas como TikTok e em memórias da antiga Alemanha Oriental, precisará negociar com outras legendas para se tornar ministropresidente, cargo equivalente ao de governador em um sistema federativo como o alemão.
Alice Weidel, colíder da AfD, interpretou a votação como um mandato que vai além das fronteiras estaduais, estendendo-se aos outros 15 estados e ao Bundestag, o Parlamento federal, em clara alusão às eleições nacionais previstas para 2029. Ofereceu diálogo com outras forças políticas, postura que encontrou rejeição imediata. Franziska Hoppermann, secretária-geral da CDU do primeiro-ministro Friedrich Merz, respondeu que seu partido não trabalha com extremistas. A CDU, que governava o estado através de Sven Schulze, viu sua votação cair para 17,5%, aproximadamente metade do que havia conquistado em 2021. Verdes, Esquerda e sociais-democratas do SPD também entraram no Parlamento, com 8,9%, 8,6% e 9,2% respectivamente. A BSW, partido que havia ventilado formar governo com a AfD, surpreendeu ao ultrapassar a barreira de 5% com 5,1%.
Com 39 cadeiras projetadas, a AfD fica próxima de seu objetivo de 42, mas ainda dependente de negociações que podem se estender por semanas. Siegmund reafirmou que o partido não abriria mão de suas principais bandeiras em eventuais conversas: imigração, segurança doméstica e reaproximação com a Rússia. Essa postura colide frontalmente com o Brandmauer, a prática estabelecida entre partidos democráticos de não se associarem à AfD. Os serviços de inteligência alemães classificam a legenda como comprovadamente de extrema direita, com integrantes investigados por discurso de ódio e neonazismo.
Embora alguns conservadores transpareçam abertura para coalizão com a AfD, é mais provável que a CDU opte por um governo de minoria, contando com apoio pontual da Esquerda. Esse arranjo, proibido por resolução formal da CDU, já existe em outros estados alemães. Sven Schulze, governador derrotado, parabenizou os rivais em tom que contrastava com lamentos de colegas seus. Para observadores políticos, a votação expressiva de um partido antissistema reflete debilidade do governo Merz. Lars Klingbeil, líder do SPD e vice-premiê, chamou o resultado de sinal para Berlim.
O dia de votação transcorreu com relativa tranquilidade em Magdeburgo, capital estadual, onde o número de policiais nas ruas superava o de manifestantes nos protestos programados. Uma pequena altercação entre militantes da AfD e movimentos sociais foi presenciada, com chegada rápida de agentes. Um funcionário da prefeitura, carregando um bebê com adesivo "FCK, AFD", participava de protesto ao lado da mulher enquanto uma imensa bandeira do arco-íris, símbolo LGBTQIA+ que a AfD promete banir, era estendida na Dom Platz. O servidor, que pediu anonimato por razões profissionais, expressou preocupação: quanto maior o partido fica, mais difícil será impedi-lo. A participação eleitoral foi alta, com 78% de comparecimento, refletindo mobilização da AfD entre indecisos e desiludidos com a CDU.
A AfD, criada por economistas em 2013 durante a crise do euro, ganhou tração com temas controversos e sem pudor em resgatar o passado. Surfou na onda anti-imigração desencadeada pela política de portas abertas de Angela Merkel em 2015, e na contestação de bandeiras de esquerda como ambientalismo, transição energética e direitos de minorias. Siegmund é produto dessa lógica oportunista, sua presença no partido cresceu durante a pandemia quando viralizou criticando restrições governamentais. O partido replica padrões do populismo europeu mas se destaca pela recusa em amenizar prática política ou discurso. Defende forte intervenção em educação e cultura, competências estaduais, mas também ideias radicais de alcance federal: remigração, deportação em massa, proibição de médicos estrangeiros, volta do marco alemão e saída da União Europeia. O resultado na Saxônia-Anhalt sinaliza trajetória que pode se repetir em outros estados e, potencialmente, no Bundestag em 2029.
Citações Notáveis
Não importa o que venha a acontecer nas próximas horas, não importa o que aconteça nos próximos dias, estamos no caminho certo— Ulrich Siegmund, candidato da AfD
Não trabalhamos com partidos extremistas— Franziska Hoppermann, secretária-geral da CDU