Guerra de preços das canetas emagrecedoras transforma mercado farmacêutico e pressiona ações

A EMS não apenas entrou no mercado — ela o reconfigurou
A estratégia agressiva de precificação da EMS com o Ozivy transformou a dinâmica de rentabilidade de todo o segmento de medicamentos para emagrecimento.
Mark

Por que a EMS decidiu precificar tão agressivamente? Não era arriscado entrar com 54% de desconto?

Mimi

Não era risco — era estratégia. Ao quebrar a barreira de preço, a EMS não apenas capturava clientes que antes não podiam pagar. Ela estabelecia a referência de preço para todos os futuros similares. Quem entra depois tem que competir com aquele número.

Mark

Então a Hypera e outras concorrentes ficam presas nesse piso de preço?

Mimi

Exatamente. A EMS criou um novo mercado, mas fez isso tornando impossível qualquer margem generosa. Todos os que vêm depois herdam esse cenário de margens comprimidas.

Mark

E o mercado paralelo? R$ 11 bilhões é uma cifra enorme. Por que ninguém fala mais sobre isso?

Mimi

Porque é invisível. Canetas importadas ilegalmente, manipulação farmacêutica em larga escala — tudo circula fora dos registros oficiais. Mas quando o preço formal cai, esse mercado perde sua razão de existir. A pessoa que pagava R$ 800 em uma caneta falsificada agora paga R$ 465 na farmácia.

Mark

A RD Saúde está realmente em posição tão forte quanto o Goldman Sachs diz?

Mimi

Está, mas de forma diferente do que era. Ela não vai crescer em margem. Vai crescer em volume e em participação de mercado. Continua dominante nos medicamentos de referência, e isso importa. Mas o lucro por unidade vendida vai ser menor.

Mark

E o SUS? Isso pode ser um game-changer?

Mimi

Pode ser enorme. Se o governo conseguir incorporar esses medicamentos na rede pública, você não está mais falando de um mercado de 25 milhões de caixas. Você está falando de potencialmente centenas de milhões de doses. Mas isso depende de vontade política e orçamento.

Mark

As pílulas vão realmente substituir as canetas?

Mimi

Não substituir — complementar. Nos EUA, as pílulas já representam uma parcela significativa. No Brasil, ainda estamos esperando aprovação. Mas sim, tem gente que não quer injeção. Quando as pílulas chegarem, o mercado se expande novamente.

  • EMS precifica Ozivy a R$ 465, desconto de 54% em relação ao Ozempic original
  • Mercado formal de GLP-1 projetado para R$ 23,1 bilhões em 2027, com 25,5 milhões de caixas vendidas
  • Mercado paralelo estimado em R$ 11 bilhões em 2025, com potencial de conversão de 40% para mercado formal
  • Hypera deve lançar seu similar no final do terceiro trimestre de 2026
  • Projeto piloto do SUS fornece semaglutida para 250 pacientes com obesidade grave no Rio Grande do Sul

EMS precifica Ozivy a R$ 465 (54% abaixo do Ozempic), dobrando o mercado potencial ao alcançar famílias com renda de R$ 5 mil mensais. Mercado formal de GLP-1 deve crescer para R$ 23,1 bilhões em 2027, mas com ticket médio reduzido e margens comprimidas para todos os players.

A estratégia agressiva da EMS com o Ozivy reduz preços em 54% e expande acesso, impulsionando volumes mas pressionando margens para concorrentes como Hypera e afetando projeções de faturamento do setor.

A quebra da patente do Ozempic em outubro de 2025 abriu uma porta que ninguém esperava ver fechada tão cedo. Quando a EMS recebeu a liberação regulatória em março de 2026 para comercializar seu similar de semaglutida, o Ozivy, a empresa não apenas entrou no mercado — ela o reconfigurou. O preço inicial de R$ 465 por caneta representava um desconto de 54% em relação ao medicamento original. Nos primeiros três meses, a empresa oferecia ainda menos: R$ 287 mensais para quem aderisse ao seu programa de fidelização. Essa agressividade de precificação não era tática de mercado comum. Era uma declaração de guerra que transformaria não apenas o segmento de medicamentos para emagrecimento, mas toda a dinâmica de rentabilidade das farmacêuticas brasileiras.

Os analistas do Goldman Sachs, ao revisar suas projeções para o mercado de GLP-1 no Brasil, perceberam que a estratégia da EMS havia alterado fundamentalmente quem poderia acessar esses medicamentos. Antes da concorrência, o preço de entrada de R$ 1.000 limitava o mercado a famílias com renda per capita superior a R$ 10 mil mensais. Com o Ozivy a R$ 465, a barreira caía para R$ 5 mil mensais — dobrando o tamanho do mercado potencial. Para uma família de classe média, esse valor passava a representar cerca de 4% do orçamento mensal com medicamentos, em vez de 10%. A matemática era simples, mas as consequências eram profundas.

Essa expansão de volume veio, porém, com um preço. As projeções para 2027 foram revisadas para baixo em crescimento de receita: de 38% para 32% ao ano. O mercado formal de GLP-1 deveria atingir R$ 23,1 bilhões, mas distribuído em 25,5 milhões de caixas vendidas — significando um ticket médio de apenas R$ 900 por unidade. Todos os concorrentes sentiriam a pressão. O Mounjaro, da Eli Lilly, manteria sua dominância em receita graças à maior eficácia na redução de peso, mas mesmo assim enfrentaria descontos institucionais. O Ozempic original sofreria queda de 30% em volume, forçando a Novo Nordisk a manter seu preço premium enquanto via sua parceira Eurofarma disputar o segmento mais barato com as marcas Poviztra e Extensior. O Wegovy permaneceria estável, beneficiando-se do fato de que os similares concorrentes ainda estavam posicionados apenas na dose de 1mg.

Para a Hypera, que planejava lançar seu próprio similar no final do terceiro trimestre de 2026, o cenário era particularmente desafiador. O Goldman Sachs mantinha sua recomendação em neutro, com preço-alvo de R$ 25 por ação. A análise era clara: o novo produto adicionaria cerca de 5,3% nas receitas brutas da empresa em 2027, capturando aproximadamente 8% de participação de mercado nas vendas de semaglutida — algo em torno de R$ 693 milhões adicionais. Mas não havia expansão de margem à vista. A Hypera importava o produto acabado de parceiros internacionais, o que reduzia suas margens em comparação com a EMS, que importava apenas o insumo ativo e a caneta, fazendo a montagem no Brasil. Além disso, nos primeiros trimestres, a empresa precisaria investir pesadamente em visitação médica e marketing para construir reconhecimento de marca e impulsionar adoção entre prescritores.

Mentre isso, a RD Saúde enfrentava uma situação diferente. Suas ações haviam caído cerca de 25% nos últimos seis meses, enquanto o Ibovespa avançava 5%. O mercado temia que a guerra de preços erodisse completamente as margens do segmento de GLP-1, que já representava uma parcela relevante de suas vendas. O Goldman Sachs, porém, considerava o movimento exagerado. Reduziu suas projeções de lucro líquido para a empresa em 10% para 2026 e 13% para 2027, mas manteve recomendação de compra. A expectativa era que medicamentos GLP-1 representassem 12,5% das vendas da RD Saúde em 2027, ante 8,2% em 2025, com faturamento da categoria atingindo R$ 7,4 bilhões. A rede continuaria com participação dominante nos medicamentos de referência, com cerca de 35% de market share, e aproximadamente 20% nos similares. Mesmo reduzindo o preço-alvo de R$ 28 para R$ 25 por ação, o banco enxergava potencial de valorização superior a 30%.

Um fator frequentemente subestimado nessa equação era o mercado paralelo. Os analistas estimavam que cerca de R$ 11 bilhões em medicamentos circulavam informalmente em 2025, divididos entre canetas importadas ilegalmente e manipulação farmacêutica em larga escala. A Anvisa havia proibido a manipulação de semaglutida sintética no país, mas permitia tirzepatida sob critérios rígidos. Mesmo assim, dados da agência apontavam que o Brasil havia importado mais de 130 kg de insumos de tirzepatida em apenas seis meses — o suficiente para produzir 25 milhões de doses manipuladas. A queda de preços no mercado formal deveria corroer o incentivo financeiro da pirataria, atraindo esses usuários para canais de conformidade. Em uma análise otimista, uma conversão de 40% do mercado informal em 2027 poderia elevar o TAM formal de GLP-1 para perto de R$ 30 bilhões. Se a fiscalização fosse ainda mais intensa, o mercado poderia flutuar até quase R$ 40 bilhões.

Além da dinâmica de preços, duas outras avenidas de crescimento se abriam. A primeira era a inclusão no SUS. O Ministério da Saúde já conduzia um projeto piloto no Rio Grande do Sul fornecendo semaglutida para 250 pacientes com obesidade grave na fila da cirurgia bariátrica. Com o custo do diabetes para o SUS atingindo US$ 45 bilhões em 2024, a queda nos preços industriais poderia facilitar a incorporação gradual da terapia na rede pública. A segunda era a transição para formulações orais. Nos EUA, o Wegovy em comprimidos havia somado 3 milhões de prescrições em junho de 2026, e as pílulas deveriam responder por 40% das receitas globais de medicamentos contra obesidade até 2030. No Brasil, o Wegovy oral aguardava aprovação da Anvisa desde janeiro de 2026, enquanto o orforglipron da Eli Lilly deveria estrear no segundo semestre de 2027. A guerra de preços das canetas havia apenas começado, e suas ondas de choque ainda estavam se propagando pelo mercado.

A estratégia de preços do pioneiro inevitavelmente estabelece uma referência para todos os outros medicamentos similares a serem lançados no Brasil, o que deve aumentar materialmente os volumes enquanto pressiona as margens
— Goldman Sachs
Em uma visão mais otimista, uma conversão de 40% do mercado informal em 2027 poderia levar o mercado formal de GLP-1 em 2027 para mais perto de R$ 30 bilhões
— Goldman Sachs
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