O Brasil se aproxima de um limiar simbólico e preocupante: a dívida pública bruta pode ultrapassar 90% do PIB antes do fim desta década, segundo projeções revisadas pelo próprio Tesouro Nacional. O governo Lula atribui a piora ao custo crescente dos juros, mas o debate mais profundo gira em torno de uma questão que transcende gestões — a capacidade do Estado brasileiro de equilibrar compromissos sociais, obrigações jurídicas e disciplina fiscal sem comprometer o futuro de quem ainda não governa. O que está em jogo não é apenas um número, mas a margem de manobra que as próximas gerações terão p
Governo projeta dívida pública em 90% do PIB em 2029 sob cenário de juros elevados
A dívida ultrapassa 90% em 2029 se o governo usar a margem de tolerância
Por que o governo revisou essas projeções agora, em setembro, se já tinha feito previsões em junho?
O Tribunal de Contas da União determinou que o governo apresentasse não apenas o cenário central da meta fiscal, mas também os extremos — o melhor e o pior caso. Antes, o governo só mostrava o centro, o que subestimava sistematicamente o endividamento.
Mas a razão imediata da piora de 87,9% para 89,6% em 2029 é só os juros mais altos, certo? O governo diz que não aumentou despesas primárias.
Sim, o Tesouro atribui a revisão à incorporação de taxas de juros mais elevadas ao cenário. Mas críticos apontam também para o ritmo de expansão dos gastos federais e o crédito subsidiado.
E qual é o cenário mais pessimista que o governo agora tem que mostrar?
Se o governo usar a margem de tolerância da meta fiscal todos os anos — como tem feito desde 2023 — a dívida ultrapassa 90% em 2029 e atinge 91,1% em 2031. Nesse caso, o próximo presidente não conseguiria nem estabilizar a dívida.
Mas isso é um cenário ilustrativo, não? O governo disse que está comprometido com o centro da meta.
Verdade, o governo chamou de "caráter ilustrativo". Mas o fato de ter que apresentar esse cenário mostra que a trajetória é sensível demais às escolhas de política fiscal.
O que o governo está tentando fazer para evitar esse cenário ruim?
Os ministros da Fazenda e do Planejamento disseram que pretendem buscar um superávit efetivo em 2027. Mas para isso precisam abrir mão da margem de tolerância, o que é juridicamente complicado porque uma emenda de 2019 tornou o Orçamento impositivo.
Então o governo está preso entre a regra fiscal que permite déficits e a realidade de que usar essa permissão piora a dívida de forma insustentável.
Exatamente. Por isso estão discutindo uma nova interpretação jurídica, uma consulta ao TCU, ou até uma PEC após as eleições para ter mais liberdade de congelar gastos.
Der Puls
- A dívida bruta deve saltar de 83,7% para 89,7% do PIB até 2030, uma expansão de seis pontos percentuais que sinaliza endividamento crescente mesmo após o fim do mandato Lula.
- O cenário mais pessimista — se o governo continuar usando a margem de tolerância fiscal — projeta pico de 91,1% do PIB em 2031, inviabilizando qualquer estabilização para o próximo presidente.
- O TCU obrigou o governo a revelar múltiplos cenários após constatar que a apresentação apenas do centro da meta subestimava sistematicamente o endividamento real.
- Ministros da Fazenda e do Planejamento prometem buscar superávit efetivo em 2027, mas uma emenda constitucional de 2019 torna o Orçamento impositivo e limita a capacidade de conter gastos.
- O governo estuda saídas jurídicas e até uma PEC pós-eleitoral para recuperar a liberdade de congelar recursos — sem isso, a banda de tolerância continuará permitindo déficits disfarçados de cumprimento fiscal.
O Brasil se aproxima de um limiar simbólico e preocupante: a dívida pública bruta pode ultrapassar 90% do PIB antes do fim desta década, segundo projeções revisadas pelo próprio Tesouro Nacional. O governo Lula atribui a piora ao custo crescente dos juros, mas o debate mais profundo gira em torno de uma questão que transcende gestões — a capacidade do Estado brasileiro de equilibrar compromissos sociais, obrigações jurídicas e disciplina fiscal sem comprometer o futuro de quem ainda não governa. O que está em jogo não é apenas um número, mas a margem de manobra que as próximas gerações terão para enfrentar crises ainda desconhecidas.
O governo Lula apresentou ao Congresso, junto ao projeto de Lei Orçamentária de 2027, uma revisão significativa de suas projeções fiscais. Os números do Tesouro Nacional apontam que a dívida bruta do governo geral deve alcançar 89,6% do PIB em 2029 e 89,7% em 2030 — uma expansão de seis pontos percentuais nos próximos quatro anos. A administração atual deve encerrar com uma dívida de 83,7% do PIB, alta de 12 pontos desde o início do mandato.
A equipe econômica atribui a deterioração à regularização de precatórios represados e, sobretudo, à alta da Selic, que encarece o refinanciamento de metade dos títulos do Tesouro. Críticos, porém, também apontam o ritmo de expansão dos gastos federais e o uso de recursos para crédito subsidiado. O Ministério da Fazenda afirma que não houve mudança nas hipóteses sobre despesas primárias e que o compromisso fiscal permanece intacto — mas o cenário é consideravelmente mais sombrio que o apresentado em junho, quando o pico projetado era de 87,9% do PIB em 2029.
Há ainda um cenário mais grave, agora de apresentação obrigatória por determinação do TCU: se o governo continuar recorrendo à banda de tolerância fiscal — como fez em todos os anos desde 2023 —, a dívida ultrapassará 90% do PIB já em 2029 e atingirá 91,1% em 2031, tornando impossível qualquer estabilização para o próximo presidente.
O debate central para 2027 é se o governo conseguirá abrir mão dessa margem de tolerância. O PLOA prevê superávit de R$ 18,6 bilhões descontadas as exceções legais, mas uma emenda constitucional de 2019 tornou o Orçamento impositivo, limitando a capacidade de conter gastos. Para contornar esse obstáculo, o governo avalia nova interpretação jurídica, consulta ao TCU e até uma PEC após as eleições — medidas que definirão se o próximo governo terá ou não liberdade real para perseguir o centro da meta fiscal.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva apresentou nesta semana uma revisão significativa de suas projeções fiscais, e o quadro que emerge é mais sombrio do que se esperava alguns meses atrás. A dívida bruta do governo geral — a medida mais abrangente do endividamento público — deve chegar a 89,6% do produto interno bruto em 2029 e a 89,7% em 2030, segundo cálculos do Tesouro Nacional divulgados nas informações complementares do projeto de Lei Orçamentária de 2027, encaminhado ao Congresso na sexta-feira passada. Isso representa uma expansão de seis pontos percentuais ao longo dos próximos quatro anos, um crescimento que, embora menor que o observado na gestão atual, ainda aponta para um endividamento crescente mesmo após o término do mandato de Lula.
O governo atual deve encerrar com uma dívida de 83,7% do PIB, o que significa uma elevação de 12 pontos percentuais desde o início da administração. A equipe econômica atribui essa deterioração a dois fatores principais: a regularização de despesas que ficaram represadas no governo anterior, particularmente as sentenças judiciais conhecidas como precatórios, e a alta na taxa básica de juros, a Selic, que afeta diretamente o custo de refinanciamento de metade dos títulos emitidos pelo Tesouro. Críticos, porém, também apontam para o ritmo acelerado de expansão dos gastos federais e o uso de recursos para turbinar o crédito subsidiado como elementos que contribuem para a trajetória preocupante das contas públicas.
A revisão representa um cenário consideravelmente mais desfavorável que o apresentado há apenas três meses. Em junho, o Tesouro projetava que a dívida bruta alcançaria seu pico de 87,9% do PIB em 2029. Agora, essa estimativa subiu para 89,6% no mesmo ano. O Ministério da Fazenda justificou a mudança pela incorporação de taxas de juros mais altas ao cenário de longo prazo, afirmando que não houve alteração relevante nas hipóteses sobre despesas primárias nem qualquer flexibilização do compromisso fiscal. A pasta ressaltou que as projeções atualizadas ainda apontam para uma eventual estabilização e redução da dívida no horizonte de longo prazo, ainda que em ritmo mais gradual.
Mas existe um cenário ainda mais preocupante que o governo agora é obrigado a apresentar. A meta fiscal brasileira funciona com uma banda de tolerância que, na prática, permite ao governo cumprir a regra com um esforço menor. Para 2027, por exemplo, a meta é um superávit de 0,5% do PIB, que cai para 0,06% após exceções legais. A banda de tolerância permite uma variação de 0,25% para mais ou menos, o que significa que o governo poderia tecnicamente registrar um déficit de até 0,19% do PIB e ainda estar dentro das regras. Se o governo utilizasse sistematicamente essa margem de tolerância nos próximos anos — como de fato tem feito desde a criação do arcabouço fiscal — a dívida bruta ultrapassaria a marca dos 90% do PIB ainda em 2029 e atingiria um pico de 91,1% em 2031. Nesse cenário, o próximo presidente nem conseguiria estabilizar o crescimento da dívida pública.
Essa apresentação de múltiplos cenários é relativamente nova. O Tribunal de Contas da União determinou que o governo apresentasse projeções considerando não apenas o centro da meta fiscal, mas também seus extremos, porque a prática anterior de mostrar apenas o cenário central acabava subestimando sistematicamente o endividamento. O TCU considerou o procedimento inadequado, já que a equipe econômica recorreu à margem de tolerância em todos os anos desde 2023.
O uso ou não dessa banda de tolerância se tornou um ponto central do debate sobre política fiscal para 2027. Diante da crescente preocupação do mercado financeiro com a trajetória da dívida, os ministros Dario Durigan, da Fazenda, e Bruno Moretti, do Planejamento e Orçamento, já declararam que o governo pretende buscar um superávit efetivo nas contas a partir do ano que vem. O PLOA de 2027 prevê um superávit de R$ 18,6 bilhões já descontadas as exceções, mas esse resultado só se sustentará se o governo abrir mão da margem de tolerância. Caso contrário, a banda permitiria um déficit de até R$ 18 bilhões.
O governo enfrenta um desafio técnico e jurídico para alcançar esse objetivo. Uma emenda constitucional de 2019 tornou o Orçamento impositivo, obrigando a execução de todas as despesas a não ser quando há impedimentos técnicos. Isso limita a capacidade do governo de conter gastos para atingir o centro da meta, já que o piso inferior da banda garante o cumprimento da regra. Para mudar essa situação, o governo avalia a adoção de uma nova interpretação jurídica, uma consulta ao TCU e até mesmo a aprovação de uma proposta de emenda à Constituição após as eleições. O que está em jogo é se o próximo governo conseguirá ter liberdade para congelar recursos em caso de frustração de receitas e efetivamente buscar o centro da meta fiscal, ou se continuará operando dentro de uma banda que permite déficits crescentes e uma dívida em trajetória de expansão.
Bemerkenswerte Zitate
As projeções atualizadas seguem apontando para estabilização da DBGG e posterior trajetória de redução no horizonte de longo prazo, ainda que em ritmo um pouco mais gradual em razão do cenário de juros mais elevados.— Ministério da Fazenda
O governo federal permanece comprometido com a convergência ao centro da meta de resultado primário, que continua sendo o parâmetro de referência da política fiscal.— Ministério da Fazenda