Classificação abriria caminho para intervenções militares americanas no Brasil e sanções a instituições financeiras, ferindo soberania nacional. Diplomacia brasileira trabalha nos bastidores com Congresso americano para evitar medida; chanceler pediu a Rubio para aguardar encontro Lula-Trump.
Governo Lula vê trama de bolsonaristas para classificar facções como terroristas
Para a gente é bom que esse assunto mantenha a tensão
Por que o governo brasileiro acredita que isso é uma trama bolsonarista e não apenas uma decisão técnica do Estado americano?
Porque o padrão é claro. Esses mesmos grupos tentaram prejudicar o Brasil com tarifas e sanções no ano passado, fracassaram, desapareceram da influência, e agora ressurgem com uma nova estratégia — desta vez usando segurança pública como arma. É a continuidade de uma tática.
Mas o que você tem de concreto? Beattie foi nomeado, sim, mas há declarações públicas dele pedindo essa classificação, ou estamos falando de conversas nos bastidores?
Conversas nos bastidores. Nenhuma declaração oficial. O que temos é o histórico de Beattie atacando o STF, sua participação em eventos de nacionalistas brancos, e o fato de que a movimentação começou logo depois que ele entrou no cargo.
E a parte técnica já está pronta, segundo o que você reportou. Isso significa que pode acontecer a qualquer momento?
Teoricamente sim. Rubio pode enviar ao Congresso quando quiser. Mas há dúvidas se a ideia vai prosperar. O Brasil está trabalhando nos bastidores com deputados e senadores, principalmente democratas, para bloquear.
Quanto dessa "dúvida" vem de fontes brasileiras tentando se tranquilizar? Você tem alguma fonte americana dizendo que há resistência real no Congresso?
Não. As fontes americanas que falam sobre o processo técnico não comentam sobre perspectivas políticas. É um vazio.
E se isso for aprovado? Qual é o risco real para o Brasil?
Intervenções militares americanas em território nacional e sanções contra instituições financeiras brasileiras. Ferindo a soberania.
Historicamente, os EUA classificaram facções de outros países como terroristas e não invadiu. Qual é a base para essa previsão específica?
É uma extrapolação do governo brasileiro sobre o que poderia acontecer. Não há precedente direto de classificação de facções brasileiras.
Então a verdadeira aposta aqui é sobre a relação pessoal entre Lula e Trump?
Exatamente. Se a química entre eles é tão boa quanto dizem, Lula consegue barrar isso antes do encontro. Se não conseguir, é sinal de que a Casa Branca está se afastando.
El Pulso
- Classificação abriria caminho para intervenções militares americanas e sanções a instituições financeiras
- Darren Beattie, assessor de Trump para Brasil, nomeado em fevereiro com histórico de ataques ao STF
- Chanceler Mauro Vieira pediu a Marco Rubio para aguardar encontro Lula-Trump antes de decisão
- Parte técnica do processo já está pronta; decisão política está com Rubio e aval final com Trump
Classificação abriria caminho para intervenções militares americanas no Brasil e sanções a instituições financeiras, ferindo soberania nacional. Diplomacia brasileira trabalha nos bastidores com Congresso americano para evitar medida; chanceler pediu a Rubio para aguardar encontro Lula-Trump.
Governo Lula vê articulação entre apoiadores de Bolsonaro e radicais trumpistas para classificar PCC e Comando Vermelho como terroristas, visando criar embaraços diplomáticos em ano eleitoral.
O governo brasileiro está convencido de que uma articulação entre apoiadores do ex-presidente Bolsonaro e figuras radicais da extrema-direita trumpista está por trás da movimentação para classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A avaliação no Palácio do Planalto e no Itamaraty é que essa iniciativa, capitaneada pelo Departamento de Estado sob comando de Marco Rubio, representa uma tentativa deliberada de criar uma armadilha diplomática em um ano eleitoral, com o objetivo de prejudicar Lula antes das eleições de outubro.
Se levada adiante, a classificação abriria caminho para intervenções militares norte-americanas em território brasileiro e permitiria a aplicação de sanções contra instituições financeiras do país, ferindo diretamente a soberania nacional. Diplomatas brasileiros, em conversas reservadas, descrevem a movimentação como um "balão de ensaio" de "talibãs do Maga" — referência ao movimento Make America Great Again — que já haviam tentado prejudicar o Brasil através de tarifas e sanções contra autoridades, estratégias que fracassaram no ano passado. Segundo fontes do Itamaraty, esses grupos perderam influência nas decisões da Casa Branca após esses fracassos, mas "ressuscitaram" nas últimas semanas, especialmente no entorno de Rubio.
Um dos nomes centrais nessa articulação é Darren Beattie, assessor sênior do presidente americano para políticas relacionadas ao Brasil, nomeado para o cargo no final de fevereiro. Beattie tem histórico de ataques ao Supremo Tribunal Federal e ao governo brasileiro, além de participação em eventos de nacionalistas brancos. Outra figura envolvida é Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho, neto do ex-presidente da ditadura militar, que admitiu à reportagem que o objetivo é criar embaraço na relação diplomática entre os dois países. "Para a gente é bom que esse assunto mantenha a tensão entre os dois países", afirmou.
O governo brasileiro montou uma contra-ofensiva para evitar a medida. No sábado, o chanceler Mauro Vieira telefonou para Rubio e pediu que o secretário de Estado não tome decisões sobre o tema antes do encontro entre Lula e Trump, cuja data ainda não foi marcada. A Embaixada do Brasil em Washington também tem agido nos bastidores, com encontros com deputados e senadores, principalmente democratas, para evitar a aprovação caso Rubio envie a proposta ao Congresso. De acordo com funcionários do governo americano, a parte técnica do processo já está pronta; o próximo passo seria o envio ao Congresso, uma decisão política que está nas mãos de Rubio, seguida do aval final de Donald Trump.
A diplomacia brasileira identificou essa tática de usar segurança pública para provocar atritos entre Brasília e Washington desde outubro do ano passado, logo após a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha no Rio de Janeiro. Na época, o senador Flávio Bolsonaro, agora pré-candidato à Presidência, chegou a defender em rede social a atuação de aeronaves militares americanas na Baía de Guanabara. A partir daí, o governo brasileiro decidiu agir de forma propositiva, pautando o combate ao crime organizado como tema central nas conversas com Trump, defendendo medidas de cooperação bilateral para combater lavagem de dinheiro, tráfico de armas e investigação de chefes de organizações criminosas.
O Ministério da Justiça já preparou um dossiê com iniciativas de combate ao crime organizado para apresentar a Trump. Até fevereiro deste ano, auxiliares de Lula apostavam que a boa relação pessoal com o presidente americano seria suficiente para barrar iniciativas de interferência no Brasil durante o período eleitoral. De lá para cá, porém, a popularidade de Lula caiu enquanto Flávio Bolsonaro subiu nas pesquisas. Integrantes do governo avaliam que a associação entre o atraso da reunião Lula-Trump e a nova onda de influência dos radicais do Maga pode esfriar a relação entre os presidentes, descrita por ambos como de "química excelente" após contatos presenciais e telefônicos. A decisão americana sobre como classificar as facções brasileiras servirá de termômetro da postura da Casa Branca em relação ao governo Lula até as eleições.
Citas Notables
Para a gente é bom que esse assunto mantenha a tensão entre os dois países— Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho, neto do ex-presidente da ditadura militar
Já produziram o tarifaço e os prejuízos do ano passado. Seguem tentando causar dano a qualquer custo. Só mudou o assunto, depois que o tarifaço naufragou— Fonte do Itamaraty, sob reserva