Vice Alckmin chamou as tarifas de 'injustas e descabidas', destacando que os EUA têm superávit comercial com o Brasil e que o Pix não prejudicou empresas de cartão de crédito. Governo anunciou expansão do programa Brasil Soberano com linhas de crédito para empresas afetadas e estuda aplicação da Lei de Reciprocidade para retaliar barreiras comerciais.
Governo Lula rebate EUA e classifica argumentos para tarifaço como falsos
Os argumentos são desculpa para aplicar tarifas
Por que o governo insiste tanto que os argumentos americanos são falsos? Não seria mais simples aceitar que há desacordos legítimos?
Porque o governo vê isso como uma questão de fatos. Se o Pix realmente prejudicasse as empresas de cartão de crédito, os números mostrariam isso. Mas cresceram. Se o desmatamento fosse o problema, por que caiu? O governo está dizendo: vocês estão usando pretextos.
Mas aqui está a questão: quem define o que é um argumento falso? Os EUA têm sua própria interpretação sobre como o Pix afeta a concorrência. O crescimento do mercado de cartões não refuta necessariamente a alegação de que o Pix criou uma vantagem injusta. São perspectivas diferentes sobre o mesmo fato.
E quanto à acusação de interferência eleitoral? O governo tem evidências de que Bolsonaro ou seus aliados pediram essas tarifas?
O governo não apresentou evidências diretas. Está fazendo uma conexão lógica: por que Trump faria isso agora, em 2026, se não fosse para ajudar um aliado político no Brasil? Mas é uma inferência, não uma prova.
Exatamente. E é importante notar que o governo disse isso sem nomear Bolsonaro. Eles deixaram implícito. Isso é retórica política, não investigação jornalística. Não sabemos se há contato direto ou se é apenas alinhamento de interesses.
O programa Brasil Soberano vai realmente ajudar? R$ 15 bilhões já foram liberados e agora vão expandir, mas não sabemos quanto.
É um amortecedor, não uma solução. As empresas precisam de mercados, não apenas de crédito. Se as tarifas permanecerem, o crédito apenas adia o problema. Mas mostra que o governo está tentando fazer algo.
E há um risco político aqui. Se o programa não funcionar, o governo será acusado de ineficácia. Se funcionar bem demais, pode parecer que está subsidiando setores que deveriam se adaptar. É um equilíbrio delicado.
A Lei de Reciprocidade é uma ameaça real ou apenas retórica?
O governo foi cauteloso na coletiva. Disse que aplicará se for o caso e de maneira estudada. Isso sugere que não querem escalar ainda, que estão deixando espaço para negociação.
Ou estão reconhecendo que retaliar pode prejudicar setores brasileiros que dependem de importações americanas. A Lei de Reciprocidade é uma arma, mas armas machucam quem as dispara também.
Der Puls
- Tarifas de 25% dos EUA atingem 18% das exportações brasileiras (US$ 7,4 bilhões em 2024)
- Vice Alckmin: EUA têm superávit de US$ 424,5 bilhões com Brasil nos últimos 15 anos
- Governo anuncia expansão do programa Brasil Soberano com linhas de crédito para empresas afetadas
- Mercado de cartões de crédito cresceu mesmo após lançamento do Pix, segundo governo
Vice Alckmin chamou as tarifas de 'injustas e descabidas', destacando que os EUA têm superávit comercial com o Brasil e que o Pix não prejudicou empresas de cartão de crédito. Governo anunciou expansão do programa Brasil Soberano com linhas de crédito para empresas afetadas e estuda aplicação da Lei de Reciprocidade para retaliar barreiras comerciais.
O governo Lula criticou as novas tarifas de 25% dos EUA contra produtos brasileiros, classificando os argumentos como falsos e injustos. O vice Alckmin e ministros rebateram acusações sobre Pix, desmatamento e comércio digital.
Na manhã de quinta-feira, o governo Lula reuniu seus principais nomes econômicos e diplomáticos para uma resposta coordenada: as tarifas de 25% que os Estados Unidos acabavam de impor aos produtos brasileiros não tinham justificativa legítima. O vice-presidente Geraldo Alckmin foi direto. Chamou a medida de injusta e descabida, e apontou um fato que o governo considera central: os EUA acumularam superávit comercial de US$ 424,5 bilhões com o Brasil nos últimos 15 anos. Se havia desequilíbrio, não era a favor do Brasil.
A controvérsia girava em torno de argumentos que Washington havia apresentado meses antes. Em junho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos havia divulgado um relatório sugerindo tarifas contra o Brasil, citando três áreas problemáticas: políticas sobre comércio digital, certas tarifas brasileiras e desmatamento ilegal. O Pix, o sistema de pagamento instantâneo que revolucionou o mercado financeiro brasileiro, foi especificamente mencionado como uma prática irrazoável que supostamente prejudicava empresas norte-americanas de cartões de crédito. Alckmin rebateu esse ponto com dados: o mercado de cartões de crédito cresceu mesmo após o Pix ser lançado. O desmatamento caiu. Os argumentos, disse ele, eram falsos.
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, expandiu a defesa do Pix. Explicou que o sistema é referência internacional e representa o futuro do sistema financeiro global. Quanto ao mercado de cartões, quem perdeu espaço não foram as empresas de crédito, mas o dinheiro em espécie e os cheques. Galípolo foi claro: os argumentos americanos eram desculpas para aplicar tarifas. Inicialmente, Washington havia invocado a questão da balança comercial, argumento que não se sustentava diante dos números.
O governo também acusou a oposição brasileira de estar por trás da decisão americana. Márcio Elias Rosa, ministro da Indústria, Comércio e Serviços, afirmou que as tarifas representavam desrespeito claro do governo dos EUA e que foram causadas por pessoas que queriam usar as medidas para fins eleitorais. Sem nomear Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, o governo deixou claro quem tinha em mente. Dario Durigan, ministro da Fazenda, foi mais direto ainda, classificando a sobretaxa de 25% como interferência externa indevida no processo eleitoral brasileiro.
O chanceler Mauro Vieira havia respondido mais cedo ao secretário de Estado americano Marco Rubio, chamando suas declarações de inaceitáveis e ofensivas. Vieira argumentou que o que incomodava Washington era o fato de o Brasil não ter cedido às demandas que considerava irrazoáveis durante as negociações. O governo havia recusado abrir totalmente setores como química e automotivo sem contrapartidas que protegessem a indústria nacional.
As tarifas anunciadas na noite de quarta-feira atingem 18% das exportações brasileiras aos EUA, aproximadamente US$ 7,4 bilhões em valores de 2024, antes da primeira rodada de taxação. Alguns produtos foram poupados, como carne bovina e café, mas a maioria dos setores exportadores foi afetada. A medida se baseava na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que permite aos EUA investigar práticas comerciais de outros países e aplicar sanções.
Em resposta, o governo anunciou a expansão do programa Brasil Soberano, que oferece linhas de crédito a empresários afetados. O valor ainda não foi determinado e será definido após diálogo com as empresas, explicou Durigan. Isso se soma aos R$ 15 bilhões já liberados em julho para exportadores atingidos pela rodada anterior de tarifas e pela guerra no Oriente Médio. O governo também estuda a aplicação da Lei de Reciprocidade, que permite ao Brasil retaliar barreiras comerciais consideradas injustas, embora tenha adotado tom mais cauteloso durante a coletiva, dizendo que a medida será adotada se for o caso e de maneira estudada, para não prejudicar setores da economia brasileira.
Bemerkenswerte Zitate
Os argumentos da seção 301 são falsos. Não tem justificativa. Mesmo com o Pix, o mercado de cartões de crédito cresceu. O desmatamento caiu.— Vice-presidente Geraldo Alckmin
O que embalou a decisão do governo norte-americano foi o desejo de interferir na política brasileira.— Márcio Elias Rosa, ministro da Indústria, Comércio e Serviços