Desemprego entre jovens americanos com diploma universitário atingiu 5,8% em 2025, maior nível desde 2012, com quase 120 mil demissões associadas à IA no país. Profissionais juniores em atendimento, marketing, análise de dados e desenvolvimento de software são os mais afetados pela substituição por agentes de IA nas empresas.
Geração Z se revolta contra avanço desenfreado da IA nos empregos
O discurso mudou para fazer uso consciente da IA
Por que jovens como Michaël Trazzi decidiram fazer greve de fome especificamente contra a IA?
Porque viram suas perspectivas de carreira desaparecerem. Não é abstrato para eles — é o emprego que não conseguem, a vaga que foi automatizada antes mesmo de poderem ocupá-la.
Mas a IA realmente está substituindo pessoas em massa, ou as empresas estão usando isso como desculpa para cortar custos?
Provavelmente os dois. A IA é real e funciona, mas muitas demissões têm mais a ver com equilibrar contas do que com substituição genuína. É mais fácil culpar a tecnologia.
Por que então empresas como Amazon e Meta estão recuando?
Porque descobriram que o custo é alto demais e que funcionários desmotivados não produzem bem. A moral caiu, as pessoas estão usando as ferramentas de forma inútil só para parecer produtivas.
Karlla Martins foi demitida pela IA, mas agora quer usar a mesma IA em seu negócio. Isso não é contraditório?
Não. Ela entendeu que para um pequeno negócio, a IA é uma ferramenta de sobrevivência, não de ganância. Quando você não tem recursos para contratar, a automação deixa de ser um luxo e vira necessidade.
O que muda se as grandes empresas recontratarem profissionais juniores?
Muda tudo. Significa que o mercado está corrigindo uma ilusão — a de que a IA poderia fazer tudo sozinha. Profissionais ainda importam. O que está em questão agora é em que proporção e sob quais condições.
El Pulso
- Desemprego entre jovens americanos com diploma universitário atingiu 5,8% em 2025, maior nível desde 2012
- Quase 120 mil demissões associadas à IA nos EUA desde 2025
- Profissionais juniores em atendimento, marketing, análise de dados e desenvolvimento de software são os mais afetados
- Amazon cancelou ranking de IA; Duolingo e Meta recuaram em políticas agressivas; Ford recontratou 350 engenheiros
Desemprego entre jovens americanos com diploma universitário atingiu 5,8% em 2025, maior nível desde 2012, com quase 120 mil demissões associadas à IA no país. Profissionais juniores em atendimento, marketing, análise de dados e desenvolvimento de software são os mais afetados pela substituição por agentes de IA nas empresas.
Jovens ao redor do mundo protestam contra a automação por IA que reduz vagas de entrada no mercado. Empresas começam a recuar em políticas agressivas de adoção após custos elevados e queda na moral dos funcionários.
Em um sábado de julho em São Francisco, mais de trezentas pessoas se reuniram nas ruas para protestar contra o avanço da inteligência artificial. À frente deles estava Michaël Trazzi, um homem de trinta anos que desde a adolescência vinha observando com preocupação o crescimento da automação. Três anos atrás, decidiu que era hora de agir de forma mais radical. No setembro anterior, Trazzi e dois outros ativistas fizeram uma greve de fome em frente aos escritórios da Anthropic e do Google DeepMind, em um ato que chamaram de "Pare a corrida da IA". Ele se tornou o rosto de um movimento que está crescendo globalmente: uma geração de jovens profissionais revoltados com o espaço que a inteligência artificial está ocupando em suas vidas e carreiras.
Nos Estados Unidos, onde a maioria dos protestos liderados por Trazzi ocorre, o mercado de trabalho para recém-formados ficou mais competitivo e hostil. A automação reduziu drasticamente as vagas operacionais e eliminou funções que tradicionalmente eram preenchidas por profissionais em início de carreira. Segundo Trazzi, até mesmo graduados de universidades de elite como Stanford e Berkeley enfrentam dificuldades para encontrar emprego após a formatura. Os números confirmam essa percepção: a taxa de desemprego entre jovens americanos de vinte e dois a vinte e sete anos com diploma universitário chegou a aproximadamente cinco vírgula oito por cento em dois mil vinte e cinco, o maior nível para esse grupo desde dois mil doze, excluindo o período da pandemia. A organização americana Alliance for Secure AI calcula que quase cento e vinte mil demissões associadas à inteligência artificial ocorreram no país desde dois mil vinte e cinco.
No Brasil, não existem números consolidados sobre desemprego de recém-formados causado especificamente pela IA, mas há sinais de que o problema está aumentando, ainda que em menor escala. Gabriel Gatto, consultor em recursos humanos e especialista em inteligência artificial, explica que em alguns casos empresas que antes contratavam duas ou três pessoas para executar determinadas atividades agora conseguem os mesmos resultados com apenas um profissional apoiado por ferramentas de IA. As áreas mais afetadas nos cargos de entrada incluem atendimento ao cliente, suporte administrativo, produção de conteúdo, marketing operacional, análise inicial de dados e desenvolvimento de software em níveis mais juniores. Quem ocupava essas vagas conhece bem essa realidade.
Karlla Martins, uma dentista de vinte e nove anos, estava nos últimos períodos da faculdade quando estagiava em uma rede odontológica no norte de Minas Gerais. Seu trabalho consistia em atender pacientes, direcioná-los para os profissionais conforme a disponibilidade e o problema relatado, além de remarcar consultas. Após quatro meses, sua chefe comunicou que precisaria desligar Karlla e outros seis colegas. A razão: a empresa havia decidido implementar um novo sistema de relacionamento com o cliente em que um agente de IA assumiria todas as funções que ela desempenhava. Apesar do ressentimento inicial, Karlla hoje cogita implementar o mesmo sistema que a substituiu quando abrir sua própria clínica. "É mais eficiente. No começo não vou ter condições de contratar funcionários, então vejo como uma alternativa para pequenos negócios", diz ela.
Nem todos que foram demitidos pelas mesmas razões concordam com o discurso de eficiência da automação. Uma profissional do setor de marketing, de vinte e quatro anos, que pediu para ter sua identidade preservada, discorda que a IA tenha capacidade de executar todas as tarefas que ela desempenhava. Ela havia trabalhado na empresa por dois anos e era a única responsável por gerenciar a marca, desde cuidar das redes sociais até a reputação da companhia. Quando recebeu a notícia de sua demissão, foi informada de que a IA ocuparia sua vaga.
Mas algo parece estar mudando nas corporações. Uma profissional que trabalha em um banco relata que o uso de IA era amplamente incentivado pela empresa até o começo do ano, mas houve uma virada. "O discurso mudou para 'precisamos fazer uso consciente da IA'. Restringiram o nosso acesso por quantidade de tokens mensal", conta ela. A estratégia de implementar IA sem moderação ficou datada em alguns escritórios. A Amazon cancelou seu ranking de uso de IA após descobrir que funcionários estavam usando a ferramenta para demandas sem utilidade no trabalho apenas para burlar sua posição na lista. O Duolingo também recuou na decisão de avaliar desempenho com base na adoção de IA. Até a Meta, que havia entrado na tendência de maximizar o uso de tokens, começou a oferecer lanches gratuitos e aumentou o orçamento para viagens e eventos na tentativa de agradar funcionários. O CTO da empresa, Andrew Bosworth, admitiu em um memorando interno que a moral da companhia está "provavelmente a pior que já esteve" em meio a demissões em massa e políticas agressivas de IA.
Algumas gigantes do setor estão revertendo suas estratégias. A Ford recontratou e promoveu trezentos e cinquenta engenheiros. A IBM, após anunciar a extinção de algumas funções e o desligamento de milhares de vagas, anunciou que planeja triplicar a entrada de profissionais juniores. A Uber limitou o uso de algumas ferramentas de IA depois de consumir seu orçamento anual para a ferramenta em apenas quatro meses. Fábio Cassettari, sócio-diretor da Career Group, uma empresa de recolocação de mercado e avaliação, oferece uma perspectiva importante: nem todas as empresas que cortam vagas planejam substituir os profissionais por agentes de IA. "As demissões não estão acontecendo só para substituir o profissional. Elas acontecem porque a conta precisa fechar. O custo precisa diminuir", diz ele. Na avaliação do especialista, a IA ainda não está efetivamente substituindo profissionais em larga escala no Brasil. As demissões atuais estariam mais relacionadas à redução de custos para equilibrar as contas em meio aos milhões destinados à tecnologia.
Citas Notables
Uma pessoa que estudou em Stanford ou Berkeley está com dificuldade de achar um trabalho quando sai da faculdade— Michaël Trazzi, ativista
As demissões não estão acontecendo só para substituir o profissional. Elas acontecem porque a conta precisa fechar— Fábio Cassettari, sócio-diretor da Career Group