No cruzamento entre regulação financeira e suspeita de corrupção, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, prestou depoimento à Polícia Federal descrevendo resistências internas que teriam retardado a fiscalização do Banco Master — instituição envolvida em uma transação bilionária com o Banco de Brasília. Dois ex-servidores da autarquia, apontados como consultores informais do controlador do banco em troca de propina, foram afastados, enquanto a investigação busca distinguir incompetência institucional de conivência deliberada. O caso coloca em xeque a integridade dos mecanismos de sup
Galípolo relata à PF reuniões tensas com servidores do BC suspeitos de favorecer Master
esgotou seu repertório de palavrões ao exigir relatórios
Por que Galípolo precisou depor à Polícia Federal? Ele é vítima ou está sendo investigado?
Ele foi ouvido como testemunha. Seu nome apareceu no depoimento de Paulo Souza, um dos servidores suspeitos. Galípolo estava descrevendo reuniões que teve com esses dois funcionários sobre relatórios que não chegavam.
Mas há algo importante aqui: Galípolo designou uma equipe paralela porque desconfiava deles. Isso significa que ele já suspeitava de algo naquela época, ou é só uma precaução normal?
Ele mesmo disse que tinha dúvidas sobre se a equipe original teria deixado passar o problema ou agido de má-fé. Então sim, havia suspeita.
E quanto aos atrasos que Galípolo relata? A defesa de Souza diz que a equipe já tinha identificado irregularidades em setembro de 2024.
Exatamente. Souza alega que sua equipe propôs a liquidação do Master em março de 2025, e a proposta chegou à 23ª versão em outubro de 2025 sem decisão. Então a questão não é se havia atraso — havia — mas quem era responsável por ele.
E aí entra a acusação de Souza contra Aquino, o diretor atual. Souza diz que Aquino pediu para "jogar parado" enquanto Galípolo passava pela sabatina no Congresso.
Então Aquino pode estar envolvido também?
Segundo Souza, sim. Mas Aquino foi quem comunicou a Galípolo sobre as inconsistências. Isso o coloca numa posição estranha — ou ele estava protegendo o Master e depois se arrependeu, ou Souza está tentando desviar culpa.
E a defesa de Souza nega tudo isso. Diz que não há amparo documental para a narrativa de atrasos deliberados.
Então no fim, quem está certo?
Ainda não sabemos. A investigação continua. O que temos são acusações de um lado, negações do outro, e um depoimento de Galípolo descrevendo reuniões tensas — mas tensas não é o mesmo que prova de crime.
El Pulso
- Galípolo revelou que precisou recorrer a linguagem intempestiva em reuniões internas para obter relatórios básicos sobre carteiras de crédito do Master avaliadas em R$ 12 bilhões — sinal de resistência institucional incomum.
- Dois servidores de alto escalão foram afastados após a PF concluir que serviam como consultores informais do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, recebendo propina enquanto ocupavam posições de fiscalização.
- Um dos afastados acusou o atual diretor de fiscalização de ordenar que a equipe 'jogasse parado' durante o período de sabatina de Galípolo no Congresso, sugerindo que a janela política foi usada para paralisar a supervisão.
- Desconfiando da equipe original, Galípolo criou um grupo paralelo de análise — admitindo publicamente que não sabia se o problema era negligência ou má-fé.
- As defesas dos servidores contestam a narrativa, apontando que irregularidades foram identificadas em setembro de 2024 e que uma proposta de liquidação chegou à 23ª versão sem decisão da Diretoria Colegiada do BC.
No cruzamento entre regulação financeira e suspeita de corrupção, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, prestou depoimento à Polícia Federal descrevendo resistências internas que teriam retardado a fiscalização do Banco Master — instituição envolvida em uma transação bilionária com o Banco de Brasília. Dois ex-servidores da autarquia, apontados como consultores informais do controlador do banco em troca de propina, foram afastados, enquanto a investigação busca distinguir incompetência institucional de conivência deliberada. O caso coloca em xeque a integridade dos mecanismos de supervisão que deveriam proteger o sistema financeiro — e os cidadãos que nele confiam.
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, foi à Polícia Federal na semana passada para depor como testemunha em uma investigação que toca o coração da supervisão financeira brasileira. Em depoimento, descreveu reuniões carregadas de tensão com dois ex-servidores da autarquia — Paulo Souza e Belline Santana — nas quais teria chegado ao limite da paciência ao exigir relatórios sobre carteiras de crédito vendidas pelo Banco Master ao Banco de Brasília em uma operação de R$ 12 bilhões.
A investigação da PF aponta que Souza e Santana funcionavam, na prática, como consultores informais de Daniel Vorcaro, então controlador do Master, recebendo propina em troca de tratamento favorável à instituição. Ambos foram afastados de seus cargos após as acusações virem à tona. Galípolo foi convocado porque seu nome surgiu no próprio depoimento de Souza à PF.
Nesse depoimento, Souza acusou Ailton de Aquino, atual diretor de fiscalização, de ter orientado a equipe a 'jogar parado' enquanto Galípolo passava pela sabatina no Congresso, em setembro de 2024. Galípolo, por sua vez, afirmou que foi o próprio Aquino quem o alertou sobre inconsistências no Master — e que, diante da desconfiança sobre a equipe original, optou por montar um grupo paralelo de análise, reconhecendo não saber se o problema era omissão ou conivência.
As defesas dos servidores rejeitam a narrativa de atrasos deliberados. A de Santana afirma que o depoimento de Galípolo não apontou qualquer irregularidade concreta. A de Souza argumenta que a equipe já havia identificado problemas em setembro de 2024 e proposto a liquidação do Master em março de 2025 — proposta que chegou à 23ª versão em outubro do mesmo ano sem que a Diretoria Colegiada do BC tomasse uma decisão. O Banco Central não comentou. A investigação segue aberta, com a pergunta central ainda sem resposta: houve demora deliberada — e quem, afinal, dela se beneficiou?
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, compareceu à Polícia Federal na terça-feira passada para descrever o que chamou de reuniões tensas com dois servidores da autarquia — Paulo Souza, ex-diretor de fiscalização, e Belline Santana, ex-chefe de supervisão bancária. Segundo a transcrição do depoimento, Galípolo relatou que nessas reuniões, ocorridas no ano anterior, chegou a "esgotar seu repertório de palavrões" ao exigir a entrega de relatórios sobre as carteiras de crédito que o Banco Master havia vendido ao Banco de Brasília. A venda ocorreu em 2025 e movimentou R$ 12 bilhões.
O contexto que levou Galípolo à delegacia envolve uma investigação mais ampla. A Polícia Federal aponta que Souza e Santana atuavam, na prática, como "consultores informais" do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Master, e que teriam recebido propina em troca de favorecer a instituição financeira. Os dois foram afastados de seus cargos neste ano após essas acusações virem à tona. Galípolo foi ouvido como testemunha porque seu nome apareceu no depoimento que o próprio Souza prestou à PF.
No depoimento de Souza, ele acusou Ailton de Aquino, atual diretor de fiscalização do BC, de "omissão". Segundo Souza, em setembro de 2024 o Banco Central havia decidido fazer uma análise das carteiras do Master. Naquele momento, porém, Galípolo estava em processo de sabatina no Congresso Nacional para assumir a presidência da autarquia. Souza alegou que Aquino teria orientado a equipe para "jogar parado" — ou seja, não avançar — enquanto Galípolo passava pela aprovação legislativa.
Galípolo, em seu depoimento, explicou que desconfiava da atuação dos dois servidores. Ele relatou que foi o próprio Aquino quem o comunicou sobre as inconsistências nas carteiras do Master. Diante dessa desconfiança, Galípolo designou uma equipe paralela para analisar o caso, reconhecendo que havia dúvidas sobre se a equipe original, que supervisionava o banco há muito tempo, teria realmente deixado passar o problema ou se teria agido de má-fé.
A defesa de Santana respondeu à reportagem afirmando que o depoimento de Galípolo "não apontou qualquer indício concreto de irregularidade" no exercício das funções do servidor. A defesa de Souza, por sua vez, contestou a narrativa de atrasos deliberados, argumentando que não há amparo documental para essa afirmação. Segundo a nota da defesa, a equipe de Souza já havia identificado irregularidades em setembro de 2024 e proposto a liquidação do Master em março de 2025. A proposta chegou à sua 23ª versão em outubro de 2025 sem que a Diretoria Colegiada do BC tomasse uma decisão.
O Banco Central, como representante de Galípolo e Aquino, não comentou a reportagem. A investigação da Polícia Federal continua em andamento, com a questão central sendo se houve, de fato, uma demora injustificada na fiscalização do Master e se essa demora beneficiou a instituição financeira e seus controladores.
Citas Notables
Houve reuniões em que ia escalando, e até se exaltando muitas vezes, pedindo que pudessem fazer a entrega do que vinha sendo pedido ao longo daquele período— Gabriel Galípolo, em depoimento à Polícia Federal
A defesa de Souza argumenta que sua equipe já havia identificado irregularidades em setembro de 2024 e proposto a liquidação do Master em março de 2025— Defesa de Paulo Souza