Futebol e política se misturam? Candidatos usam clubismo na disputa presidencial

Torcedor de verdade não abandona seu time na tristeza
Reflexão sobre a lealdade clubística como metáfora de compromisso político e pessoal.
Mark

Então você está sugerindo que um eleitor poderia votar em alguém apenas porque torce para o mesmo time?

Mimi

Não é sugestão, é observação. Vimos Lula fazer uma doação para o Corinthians enquanto presidente. Isso mostra que a coisa é real, não teórica.

Luke

Mas uma doação de R$ 1.013 é um gesto simbólico. Não sabemos se influencia voto. Seria importante ter dados.

Mark

E por que os candidatos usam essa estratégia se não acreditam que funciona?

Mimi

Porque futebol move emoção. Política também. Quando você mistura as duas, toca algo profundo nas pessoas.

Luke

Verdade, mas há uma diferença entre usar uma estratégia e ela realmente funcionar. Bolsonaro veste camisas de 30 times — isso é tão transparente que pode até perder credibilidade.

Mark

Zema abandonou o Atlético-MG. Isso não é estranho para um político?

Mimi

Muito. Um torcedor de verdade não faz isso. Mas Zema decidiu que a decepção com o time era maior que a lealdade. É uma escolha pessoal.

Luke

Ou uma escolha política calculada. Não sabemos qual foi a motivação real.

Mark

Então no fim, ninguém realmente sabe se isso influencia eleições?

Mimi

Exatamente. Por isso o colunista sugere que isso deveria ser estudado cientificamente. É uma lacuna real.

  • A doação de R$ 1.013 do presidente Lula a uma campanha de torcedores do Corinthians acende um alerta ético: quando o cargo mais alto do país se mistura à paixão clubística, o favorecimento — mesmo simbólico — torna-se questão pública.
  • Candidatos presidenciais transformaram o clubismo em ferramenta de sedução eleitoral, com Bolsonaro vestindo camisas de dezenas de times para não deixar nenhum torcedor sem espelho.
  • A ruptura de Zema com o Atlético-MG e a migração de Milei do Boca para o River expõem como a lealdade ao time — valor quase sagrado para o torcedor raiz — pode ser sacrificada por conveniência política ou pessoal.
  • Pesquisadores eleitorais ainda não mediram cientificamente o peso do clubismo nas urnas, deixando uma lacuna significativa na compreensão do comportamento do eleitor brasileiro.
  • A suposta máxima de que futebol e política não se misturam revela-se, a cada eleição, uma ficção conveniente — a intersecção existe, opera e pode estar decidindo votos em silêncio.

No Brasil, onde o futebol é quase uma religião cívica, a filiação clubística de candidatos presidenciais deixou de ser curiosidade biográfica para se tornar estratégia eleitoral deliberada. Desde a doação simbólica de Lula ao Corinthians até Bolsonaro vestindo camisas de dezenas de times, a fronteira entre paixão esportiva e cálculo político revela algo mais profundo sobre como identidades coletivas moldam escolhas democráticas. A pergunta que nenhuma pesquisa ainda ousou fazer com rigor científico permanece suspensa no ar: o coração que bate por um clube também decide por quem votar?

Se o Datafolha quisesse ir além do óbvio em suas pesquisas eleitorais, poderia fazer uma pergunta aparentemente ingênua: você votaria em um candidato porque ele torce para o seu time? A resposta racional seria não — afinal, desigualdade, saúde e corrupção não têm nada a ver com a camisa que alguém veste no fim de semana. Mas há razões para suspeitar que uma parcela considerável de eleitores responderia sim.

A suspeita ganhou contornos concretos no início de 2025, quando o presidente Lula fez uma transferência de R$ 1.013 para ajudar torcedores organizados do Corinthians a reduzir a dívida do clube com sua arena em Itaquera. O valor é simbólico; o gesto, problemático. Quem ocupa a principal autoridade política do país não deveria destinar sequer um centavo a um time específico. Não é ilegal, mas envolve favorecimento — e isso basta para ser questionável.

Lula é declaradamente corintiano, com carinho especial pelo Vasco como segundo time. A informação ganha peso quando se lembra que Flávio Bolsonaro, um dos principais adversários nesta eleição, é justamente vascaíno. Já Jair Bolsonaro, que se diz palmeirense e simpatizante do Botafogo, não hesita em vestir camisas de dezenas de outros clubes — estratégia clara de agradar o maior número possível de eleitores.

Os demais candidatos relevantes também carregam suas filiações: Cury torce pelo Santos de Pelé, Caiado é flamenguista — e o Flamengo é o clube mais popular do Brasil —, Renan Santos apoia o São Paulo. Romeu Zema, por sua vez, abandonou o Atlético-MG após decepções e hoje não veste camisa de nenhum clube, uma decisão quase herética aos olhos do torcedor raiz, para quem a lealdade é indissolúvel.

Essa lógica de ruptura encontrou seu exemplo mais dramático na Argentina, onde Javier Milei migrou do Boca Juniors para o River Plate, alegando discordância com a política interna do clube. O episódio ilustra por que a máxima 'futebol e política não se misturam' é, na prática, uma falácia. A intersecção existe, opera — e deveria ser investigada com o rigor que uma eleição presidencial merece.

Se o Datafolha quisesse aprofundar suas pesquisas eleitorais, poderia fazer uma pergunta simples aos brasileiros que irão às urnas: você votaria em um candidato porque ele torce para o seu time? A resposta racional deveria ser não. Futebol é paixão, é entretenimento. As questões que realmente importam ao país — desigualdade, saúde, educação, segurança, corrupção, desemprego, habitação, inflação — não têm nada a ver com qual camisa alguém veste nos fins de semana. Ainda assim, há razões para suspeitar que uma parcela considerável de eleitores responderia sim, apostando que o clubismo de quem chega ao poder poderia trazer algum benefício, seja para a sociedade ou para o próprio time.

Esse cenário é improvável, mas não impossível. A história oferece poucos exemplos de líderes que realmente agiram em favor de seu clube de coração enquanto ocupavam o cargo máximo. Um deles aconteceu no Brasil recentemente. No início de 2025, o presidente Lula, aos 80 anos, fez uma transferência bancária de R$ 1.013 para ajudar uma campanha de torcedores organizados do Corinthians que buscavam reduzir a dívida do clube com sua arena em Itaquera. O valor é simbólico, mas o gesto é problemático. Quando se ocupa a principal autoridade política do país, não se deveria destinar nem um centavo a um time de futebol. Não é ilegal, mas é questionável porque envolve favorecimento. Se a mesma quantia fosse distribuída a todos os clubes brasileiros registrados — mais de 1.200 — talvez fizesse mais sentido.

Lula é declaradamente corintiano, embora diga ter carinho especial pelo Vasco da Gama como seu segundo time. Essa informação ganha relevância quando se sabe que Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e aos 45 anos um dos principais adversários de Lula nesta eleição, é justamente torcedor do Vasco. O ex-presidente Jair Bolsonaro, por sua vez, afirma-se palmeirense e simpatizante do Botafogo, mas não hesita em usar camisas de dezenas de outros clubes — Flamengo, Fluminense, Atlético-MG, Bahia, Internacional, Grêmio. É uma estratégia clara: tentar agradar o máximo possível de eleitores, independentemente de suas preferências futebolísticas.

Os demais candidatos com relevância nas pesquisas também carregam suas filiações clubísticas. Augusto Cury, do Avante, com 67 anos, declarou torcer para o Santos de Pelé. Ronaldo Caiado, do PSD, aos 76 anos, é flamenguista — e o Flamengo é o clube mais popular do Brasil. Renan Santos, da Missão, com 42 anos, torce para o São Paulo. Romeu Zema, do Novo, aos 61 anos, era atlético-mineiro, mas abandonou o Galo após decepções e hoje não veste camisa de nenhum clube. É uma decisão curiosa, quase herética aos olhos de um torcedor de verdade. Um torcedor autêntico, aquele que é raiz, permanece com seu time "na alegria e na tristeza, na saúde e na doença", em um compromisso indissolúvel. Deixar de torcer é uma ruptura rara. Pior ainda é trocar de time, especialmente por um rival.

Esse tipo de traição aconteceu na Argentina, onde o presidente Javier Milei, que era um seguidor fervoroso do Boca Juniors, passou a apoiar o River Plate. Ele alegou discordância com a política interna do Boca como justificativa. Esses exemplos ilustram por que a máxima "futebol e política não se misturam" é, na verdade, uma falácia. A intersecção existe, está presente, e deveria ser objeto de acompanhamento científico. Seria valioso saber se essa mistura realmente faz diferença em um evento tão crucial quanto uma eleição presidencial.

Futebol é entretenimento e paixão. Não tem relação direta com as questões mais pertinentes ao Brasil
— Colunista
Torcedor, torcedor de verdade, raiz, não faz isso: está com o time 'na alegria e na tristeza, na saúde e na doença' para sempre
— Colunista
Möchten Sie die ganze Geschichte? Das Original lesen bei Folha de S.Paulo ↗
Kontakt FAQ