Na fronteira entre a genética e a fisiologia muscular, a FDA aprovou o apitegromabe — o primeiro medicamento a agir diretamente sobre a degradação do músculo, bloqueando a miostatina em pacientes com atrofia muscular espinhal. A aprovação não apenas oferece esperança a crianças que vivem com uma das doenças genéticas mais devastadoras da infância, mas também aponta para um horizonte mais amplo: a preservação da massa muscular em tratamentos de emagrecimento. Como tantas conquistas científicas, ela chega carregada de promessas e de perguntas — sobre acesso, custo e os limites do que ainda preci
FDA aprova primeiro medicamento que bloqueia perda muscular em atrofia espinhal
Bloqueia o freio natural do crescimento muscular
Por que essa aprovação importa tanto? Já não temos tratamentos para atrofia muscular espinhal?
Temos, mas eles funcionam de forma diferente. Os tratamentos existentes tentam consertar o defeito genético que causa a doença. Este novo medicamento não tenta consertar nada — ele ataca o problema pelo lado oposto, bloqueando uma proteína que degrada o músculo. Para pacientes em estágio avançado que já estão em outros tratamentos, isso oferece uma segunda frente de ataque.
Mas quanto dessa melhora vem realmente do novo medicamento versus do tratamento que eles já estavam recebendo? O estudo incluiu apenas pacientes que já estavam em terapia aprovada para o gene SMN2. Não há um grupo de controle que receba apenas o apitegromabe.
Isso é uma limitação real. Mas o ponto é que mesmo com o tratamento existente, muitos pacientes continuam com limitações severas. Este medicamento mostrou que você pode melhorar ainda mais quando combina as duas abordagens.
E quanto ao uso em obesidade? Parece promissor.
Os dados preliminares são interessantes. As pessoas que receberam o medicamento junto com tirzepatida perderam praticamente o mesmo peso total, mas perderam muito menos músculo. Mantiveram 54,9% mais massa muscular do que o grupo placebo.
Mas isso é um estudo de fase 2 com apenas 102 pessoas. Fase 3 ainda não começou. E há uma questão que ninguém está respondendo: será que preservar músculo durante a perda de peso é realmente melhor para a saúde a longo prazo? Ou é apenas uma métrica que parece boa?
É uma pergunta válida. Intuitivamente, parece melhor — você quer perder gordura, não músculo. Mas você está certo: precisamos de dados de longo prazo.
E o custo? 310 mil dólares por ano é muito dinheiro.
É astronômico. Para contexto, isso é mais do que o salário anual de muitas pessoas. Se isso for aprovado para obesidade e as pessoas começarem a usar off-label, você está falando de um medicamento que apenas pessoas muito ricas podem pagar. Isso cria um problema de equidade.
O endocrinologista citado na reportagem também alerta contra o uso off-label sem aprovação formal. Há risco real de que as pessoas usem isso antes de sabermos se é seguro fora do contexto de um estudo controlado.
El Pulso
- Crianças com atrofia muscular espinhal que já recebiam tratamento genético continuavam perdendo função motora — o apitegromabe surge para preencher exatamente essa lacuna, atuando diretamente no músculo.
- Em um estudo de 52 semanas, pacientes que receberam o medicamento tiveram mais do dobro de chance de melhora clinicamente significativa em comparação ao placebo, enquanto o grupo controle apresentou declínio.
- A descoberta de que o remédio preserva 54,9% mais massa muscular durante tratamentos de emagrecimento acendeu o interesse da indústria e de pacientes com obesidade, mesmo antes de qualquer aprovação para esse uso.
- O uso off-label é previsível, mas especialistas alertam para a ausência de estudos de fase 3 em obesidade e para riscos como fraturas graves e danos ao feto.
- O custo estimado de US$ 310 mil por ano transforma uma conquista científica em uma questão de justiça: quem terá acesso real a esse avanço?
Na fronteira entre a genética e a fisiologia muscular, a FDA aprovou o apitegromabe — o primeiro medicamento a agir diretamente sobre a degradação do músculo, bloqueando a miostatina em pacientes com atrofia muscular espinhal. A aprovação não apenas oferece esperança a crianças que vivem com uma das doenças genéticas mais devastadoras da infância, mas também aponta para um horizonte mais amplo: a preservação da massa muscular em tratamentos de emagrecimento. Como tantas conquistas científicas, ela chega carregada de promessas e de perguntas — sobre acesso, custo e os limites do que ainda precisamos aprender.
Na última sexta-feira, a FDA aprovou o apitegromabe — comercializado como Isembyld pela farmacêutica Scholar Rock — como o primeiro medicamento a bloquear diretamente a degradação muscular em pacientes com atrofia muscular espinhal (AME). Diferente dos tratamentos existentes, que tentam corrigir o defeito genético subjacente, o novo medicamento age pelo lado oposto: inibe a miostatina, proteína que naturalmente freia o crescimento e acelera a destruição do músculo.
A AME afeta cerca de uma em cada dez mil crianças e está entre as principais causas genéticas de morte na infância. A doença impede a produção de uma proteína essencial para os neurônios motores, levando ao enfraquecimento progressivo dos músculos. Os tratamentos atuais, focados no gene SMN2, ajudaram muitos pacientes, mas aqueles em estágios mais avançados continuam com limitações severas — e é justamente para eles que o Isembyld representa uma nova possibilidade.
O medicamento foi testado em 188 pacientes entre 2 e 21 anos, todos sem capacidade de caminhar de forma independente e já em uso de terapia aprovada. Após 52 semanas, os que receberam a dose de 10 mg/kg mostraram melhora na função motora, enquanto o grupo placebo apresentou declínio. Os efeitos colaterais incluíram infecções respiratórias, vômitos e um risco aumentado de fraturas graves.
A aprovação também abriu caminho para uma aplicação que vai além da AME: a preservação muscular durante tratamentos de emagrecimento. Em um estudo com 102 adultos com sobrepeso, a combinação do apitegromabe com a tirzepatida resultou em uma retenção 54,9% maior de massa muscular em comparação ao placebo, com apenas 14,6% da perda de peso proveniente de massa magra. Os resultados foram publicados na revista Nature Medicine.
Ainda assim, a aprovação para uso em obesidade depende de estudos de fase 3, e especialistas como o endocrinologista Ramon Marcelino, da USP e do Hospital Sírio-Libanês, alertam contra o uso off-label sem evidências consolidadas de segurança. O obstáculo mais concreto, porém, pode ser o preço: cerca de US$ 310 mil por ano — aproximadamente 1,7 milhão de reais — uma cifra que coloca em xeque a real acessibilidade dessa conquista científica.
Na última sexta-feira, a agência reguladora americana aprovou um medicamento que funciona de forma completamente diferente de tudo que existia antes para tratar a atrofia muscular espinhal. O apitegromabe, comercializado como Isembyld pela farmacêutica Scholar Rock, não tenta consertar o defeito genético que causa a doença. Em vez disso, ele ataca o problema pelo lado oposto: bloqueia uma proteína chamada miostatina que naturalmente degrada o músculo.
A miostatina funciona como um freio no crescimento muscular. Ela reduz a fabricação de novas proteínas nos músculos, acelera a destruição das que já existem e inibe as células-tronco responsáveis pelo reparo e crescimento. O novo medicamento se liga à forma inativa dessa proteína e a impede de ser ativada, impedindo assim a cascata de degradação. Alguns animais nascem naturalmente sem miostatina — certas raças de gado, por exemplo — e desenvolvem uma musculatura extraordinariamente desenvolvida. O remédio tenta replicar parcialmente esse efeito.
A atrofia muscular espinhal é uma doença genética rara que afeta aproximadamente uma em cada dez mil crianças nascidas vivas e está entre as principais causas genéticas de morte na infância. Ela ocorre quando um defeito no gene SMN1 impede a produção de uma proteína essencial para a sobrevivência dos neurônios motores — as células nervosas que saem da medula espinhal e enviam sinais aos músculos para se contrairem. Sem essa proteína, esses neurônios deixam de funcionar. O músculo para de receber estímulos, enfraquece e atrofia progressivamente.
Os tratamentos existentes focam em um gene de reserva chamado SMN2, que normalmente produz uma versão defeituosa da proteína faltante. Essas terapias corrigem esse defeito, permitindo que o corpo produza quantidade suficiente para manter os neurônios motores vivos. Elas melhoraram significativamente os resultados para muitos pacientes, mas aqueles com a doença em estágio mais avançado continuam apresentando limitações motoras substanciais — muitos não conseguem caminhar ou se mover de forma independente. Por isso, um medicamento que atua diretamente no músculo, em vez de no sistema nervoso, preenche uma lacuna importante.
O Isembyld foi testado em um estudo de 52 semanas que incluiu 188 participantes com idades entre 2 e 21 anos, todos incapazes de se mover ou caminhar independentemente e já recebendo um tratamento aprovado para o gene SMN2. Os pacientes foram divididos aleatoriamente em três grupos: um recebeu a dose de 10 mg/kg do novo medicamento, outro recebeu 20 mg/kg, e um terceiro recebeu placebo. Todos receberam infusões intravenosas uma vez a cada quatro semanas durante aproximadamente um ano. A análise principal focou em 156 pacientes entre 2 e 12 anos. Os resultados mostraram que aqueles que receberam a dose de 10 mg/kg demonstraram melhora na função motora ao final de um ano, enquanto os pacientes do grupo placebo apresentaram declínio. Os participantes do grupo de tratamento tiveram mais do dobro de probabilidade de apresentar uma melhora clinicamente significativa em comparação com o placebo.
Os efeitos colaterais mais comuns foram infecções do trato respiratório superior, vômitos, tosse, outras infecções virais, dor de cabeça, gastroenterite e faringite. Um risco aumentado de fraturas, incluindo fraturas graves, foi observado em pacientes tratados com o medicamento. Além disso, ele pode causar danos ao feto e afetar a função reprodutiva.
A aprovação para a atrofia muscular espinhal abre uma porta para outra aplicação: preservar massa muscular durante o uso de medicamentos para emagrecimento. A Scholar Rock já começou a testar o apitegromabe em combinação com a tirzepatida, o princípio ativo do Mounjaro. Em um estudo com 102 adultos com sobrepeso ou obesidade, um grupo recebeu apenas tirzepatida durante 24 semanas, enquanto outro recebeu a combinação com apitegromabe administrado por infusão intravenosa a cada quatro semanas. Ao final do estudo, a perda total de peso foi semelhante entre os dois grupos, mas a composição dessa perda foi radicalmente diferente. No grupo que recebeu apitegromabe, apenas 14,6% da redução de peso veio de perda de massa magra, comparado com 30,2% no grupo placebo. Em termos práticos, as pessoas que receberam o novo medicamento perderam 1,9 kg menos de músculo, o que representou uma retenção 54,9% maior de massa muscular. O medicamento foi bem tolerado, com taxas semelhantes de eventos adversos entre os dois grupos. Esses resultados foram publicados na revista científica Nature Medicine.
Mas a aprovação oficial da FDA — ou de outras agências regulatórias como a Anvisa — para o uso do apitegromabe em obesidade ainda depende de testes de fase 3. A Scholar Rock busca parcerias para realizar essa última fase de estudos. Enquanto isso, o uso off-label é previsível, mas pode esbarrar em um obstáculo significativo: o custo. Segundo a agência Reuters, o tratamento deve custar aproximadamente 310 mil dólares por ano — cerca de 1,7 milhão de reais — para um paciente típico. Especialistas alertam para a necessidade de cautela. O endocrinologista Ramon Marcelino, doutor pela Faculdade de Medicina da USP e membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês, ressalta que não há neste momento nenhuma indicação aprovada de inibidores de miostatina para obesidade, e o uso fora da bula sem estudos que comprovem segurança não é recomendado. Há ainda outros medicamentos em desenvolvimento com o mesmo objetivo, como o bimagrumabe, cujos resultados de fase 2 foram publicados em Nature Medicine em março deste ano, indicando que seu uso com a semaglutida eleva o emagrecimento para uma perda de 22,1% do peso após 72 semanas, com menos de 10% dessa perda sendo de massa muscular.
Citas Notables
A aprovação do primeiro inibidor da miostatina abre caminho para uma nova abordagem da obesidade, em que o objetivo deixa de ser apenas o número na balança e passa a ser a composição do corpo: perder gordura e preservar músculo— Ramon Marcelino, endocrinologista e doutor pela Faculdade de Medicina da USP
Não há, neste momento, nenhuma indicação aprovada de inibidores de miostatina para obesidade, e o uso fora da bula, sem estudos que comprovem segurança, não é recomendado— Ramon Marcelino