Na manhã de 10 de fevereiro de 2026, os rendimentos dos títulos públicos brasileiros subiram discretamente, mas de forma reveladora: a inflação de janeiro veio mais resistente do que o esperado, e as indicações do ministro Haddad para o colegiado do Banco Central geraram desconforto no mercado financeiro. São dois sinais que, juntos, falam de algo maior — a dificuldade de calibrar o futuro quando tanto a trajetória dos preços quanto a composição das instituições permanecem em aberto. O mercado, como sempre, responde a essa incerteza exigindo mais para emprestar.
Falas de Haddad e IPCA pressionam taxas do Tesouro Direto para cima
Quando a inflação sobe e o futuro do BC fica incerto, o mercado exige mais rendimento
Por que as falas do Haddad sobre os diretores do BC causam tanta reação no mercado? Não é uma decisão que já estava esperada?
Esperada sim, mas o mercado tinha esperança de que fossem nomes mais alinhados com a visão tradicional de política monetária. Quando Haddad sugere dois economistas acadêmicos, o mercado interpreta como risco de mudança na forma como o BC vai pensar.
Mas espera — Haddad disse que são apenas sugestões para avaliação. O presidente ainda pode escolher outras pessoas. Quanto dessa reação é baseada em algo concreto e quanto é especulação sobre o que pode acontecer?
Ótima pergunta. É especulação, sim. Mas no mercado de renda fixa, especulação sobre riscos futuros é tudo que importa. Os investidores estão precificando a possibilidade de mudança.
E o IPCA? Isso é mais concreto, certo? Os números já saíram.
Sim. O IPCA de janeiro mostrou inflação em serviços mais alta do que o confortável. Isso reduz a margem para cortes agressivos de juros.
Mas reduz a margem — não elimina a possibilidade de cortes. O Spyer mesmo disse que um corte de 0,25 ponto em março fica mais provável. Então por que os títulos subiram tanto?
Porque os dois fatores se reforçam. Inflação mais alta mais incerteza sobre o BC é igual a mercado que quer mais rendimento.
E para o investidor que está pensando em comprar agora? Esses rendimentos mais altos são bons ou ruins?
Depende do que você acha que vai acontecer. Se acha que a inflação vai cair e o BC vai cortar juros, rendimentos altos agora são ótimos — você está travando uma taxa alta. Se acha que a inflação vai ficar alta e os cortes vão ser pequenos, esses rendimentos podem não compensar.
É por isso que o mercado está dividido. Alguns veem oportunidade, outros veem risco.
El Pulso
- O IPCA de janeiro surpreendeu negativamente, com serviços intensivos em mão de obra pressionando a inflação e reduzindo o espaço para um corte mais agressivo da Selic em março.
- As indicações de Haddad para diretorias do BC — um secretário do próprio Ministério da Fazenda e um professor universitário — provocaram rejeição no mercado, que teme um colegiado mais acadêmico e menos alinhado à prática monetária.
- Títulos prefixados de longo prazo, como o Tesouro Prefixado 2032, registraram alta nas taxas, sinalizando que os investidores estão exigindo mais retorno para carregar incerteza sobre o futuro dos juros.
- A probabilidade de um corte de 0,5 ponto percentual na Selic em março diminuiu, enquanto a de um corte menor, de 0,25 ponto, ganhou força entre analistas.
- O mercado precifica simultaneamente dois riscos: inflação mais lenta para ceder e um BC potencialmente menos previsível — combinação que empurra rendimentos para cima nos papéis mais longos.
Na manhã de 10 de fevereiro de 2026, os rendimentos dos títulos públicos brasileiros subiram discretamente, mas de forma reveladora: a inflação de janeiro veio mais resistente do que o esperado, e as indicações do ministro Haddad para o colegiado do Banco Central geraram desconforto no mercado financeiro. São dois sinais que, juntos, falam de algo maior — a dificuldade de calibrar o futuro quando tanto a trajetória dos preços quanto a composição das instituições permanecem em aberto. O mercado, como sempre, responde a essa incerteza exigindo mais para emprestar.
Na terça-feira, 10 de fevereiro, os rendimentos dos títulos do Tesouro Direto subiram em resposta a dois eventos que, juntos, aumentaram a incerteza sobre o rumo da política monetária brasileira. O primeiro foi o IPCA de janeiro, que mostrou pressão robusta em serviços dependentes de mão de obra — justamente o componente que mais pesa nas decisões do Banco Central. O segundo foi o ministro Fernando Haddad, que durante a CEO Conference Brasil 2026, em São Paulo, voltou a falar sobre o processo de indicação dos novos diretores do BC.
Haddad havia confirmado, na semana anterior, dois nomes: Guilherme Mello, secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, e Tiago Cavalcanti, professor de economia em Cambridge e na FGV-SP. A recepção do mercado foi fria. Agentes financeiros temem que o colegiado do BC se torne mais acadêmico e menos sensível às dinâmicas práticas da política monetária — um risco que, somado à inflação resistente, pesa diretamente sobre as expectativas de juros.
O conselheiro Pablo Spyer, da ANCORD, resumiu o efeito: a chance de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em março cresceu, enquanto a de um corte de 0,5 ponto encolheu. Nos títulos, o Tesouro Prefixado 2032 subiu para 13,37%, e os papéis atrelados ao IPCA de prazo mais longo também operaram com rendimentos levemente maiores. A lógica é simples: quanto mais distante o vencimento, mais incerteza o investidor carrega — e mais retorno ele exige para aceitar esse peso.
Na terça-feira, 10 de fevereiro, os investidores que compraram títulos públicos encontraram rendimentos mais altos do que no dia anterior — uma mudança pequena em números, mas significativa no que revela sobre o mercado. Dois fatores pressionaram as taxas para cima: dados de inflação que chegaram mais tensos do que o esperado e declarações do ministro da Fazenda sobre quem vai dirigir o Banco Central nos próximos anos.
O IPCA de janeiro trouxe notícias que complicam a vida de quem trabalha com política monetária. Os preços subiram de forma robusta em áreas que importam muito para as decisões de juros — especialmente serviços que dependem intensamente de mão de obra. Isso não impede que o Banco Central comece a cortar a taxa Selic em março, mas reduz o espaço confortável para fazer isso. Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, explicou que a probabilidade de um corte de 0,25 ponto percentual aumentou, enquanto a chance de um corte maior, de 0,5 ponto percentual, diminuiu se a inflação continuar pressionada.
Ao mesmo tempo, Fernando Haddad, ministro da Fazenda, falou sobre o processo de escolha dos próximos diretores do BC durante a CEO Conference Brasil 2026, promovida pelo BTG Pactual em São Paulo. Ele deixou claro que a decisão final cabe ao presidente, mas que costuma consultar pessoas da área econômica antes de indicar nomes. "Quando a gente sugere um nome para o Banco Central é para avaliação", disse Haddad durante o painel sobre cenário econômico.
Na semana anterior, Haddad havia confirmado duas sugestões: Guilherme Mello, secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, e Tiago Cavalcanti, professor de economia na Universidade de Cambridge e na FGV-SP. Essas indicações provocaram reação negativa no mercado financeiro. Boa parte dos agentes rejeita os nomes por temer que o colegiado do BC fique mais acadêmico e mais afastado das preocupações do mercado e da prática da política monetária.
Os números dos títulos refletem essa tensão. O Tesouro Prefixado 2032, que oferece uma taxa fixa de juros, subiu para 13,37% na terça-feira, ante 13,36% no fechamento anterior. Entre os títulos atrelados à inflação, o Tesouro IPCA+ 2032 oferecia IPCA mais 7,62% naquele dia, ligeiramente abaixo dos 7,60% de segunda-feira. A mudança é pequena em pontos percentuais, mas concentrada: títulos de longo prazo, que carregam mais incerteza sobre o futuro, operavam com rendimentos maiores.
O que o mercado está precificando é uma combinação de dois riscos. Primeiro, a inflação pode não cair tão rápido quanto esperado, o que significaria cortes de juros menores ou mais lentos. Segundo, a composição do próximo colegiado do BC pode levar a decisões diferentes das que o mercado financeiro preferiria. Quando essas duas incertezas aparecem ao mesmo tempo, os investidores exigem mais rendimento para emprestar dinheiro ao governo — é a forma que o mercado tem de se proteger.
Os títulos prefixados de longo prazo, que vencem em 2032, 2037 e além, carregam essa incerteza de forma mais intensa. Quanto mais longe no futuro, mais coisas podem mudar, e mais o investidor quer ser compensado por esperar. É por isso que os rendimentos subiram mais nos papéis de prazo mais longo, enquanto os títulos atrelados à Selic, que acompanham as decisões do BC mês a mês, permaneceram relativamente estáveis.
Citas Notables
Para a política monetária, o resultado não impede o início do ciclo de cortes da Selic, mas reduz o grau de conforto do Banco Central— Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD
Quando a gente sugere um nome para o Banco Central é para avaliação— Fernando Haddad, ministro da Fazenda