Gerhard Schröder, ex-chanceler alemão com laços pessoais e comerciais profundos com Moscou, retornou de uma visita a Vladimir Putin afirmando que o Kremlin estaria disposto a negociar o fim da guerra na Ucrânia. A declaração, feita em agosto de 2022, ecoa uma tensão antiga da diplomacia europeia: a linha tênue entre manter canais de diálogo e legitimar aqueles que os outros condenam. Num momento em que a Alemanha enfrentava crise energética e seu próprio partido tentava expulsá-lo, Schröder insistia que a utilidade de uma ponte, por mais controversa que seja, não deve ser medida apenas pela si
Ex-chanceler alemão diz que Putin quer negociar fim da guerra na Ucrânia
É bom que ainda haja alguém mantendo os canais abertos
Schröder estava realmente em Moscou como turista, ou essa viagem tinha propósito diplomático desde o início?
Ele primeiro disse que estava de férias, depois confirmou que se reuniu com Putin. O Kremlin depois revelou que discutiram gás e obstáculos ao fornecimento. Parece que a narrativa de "férias" foi uma simplificação inicial.
Mas ninguém confirma que Putin disse explicitamente que quer negociar. Schröder ouviu isso, relatou isso, mas não há transcrição, não há declaração do Kremlin confirmando essa disposição. É a interpretação de Schröder de uma conversa privada.
E quanto à questão do gás? Schröder diz que é técnico e burocrático, mas a Alemanha diz que os russos não apresentaram documentação. Quem está certo?
O Kremlin culpa a turbina em manutenção. A Alemanha diz que a turbina está pronta. Schröder relata que ambos os lados se culpam mutuamente. Ninguém está oferecendo prova de quem está bloqueando o quê.
Exatamente. E há um conflito de interesse óbvio aqui — Schröder tem laços financeiros com empresas de energia russas. Quando ele fala sobre Nord Stream 2, ele está falando como diplomata ou como alguém com interesse econômico?
Ele deixou a Rosneft em maio, certo?
Sim, após pressão do seu próprio partido. Mas ele continua próximo a Putin e continua argumentando que manter esses canais abertos é útil.
A questão é: útil para quem? Para a Alemanha? Para a Ucrânia? Ou para manter a possibilidade de negócios futuros com a Rússia?
O Pulso
- Schröder voltou de Moscou com uma mensagem que Kiev recebeu com desconfiança e Berlim com embaraço: Putin, segundo ele, quer negociar.
- Sem apresentar evidências concretas, o ex-chanceler sugeriu que o acordo do Mar Negro poderia ser expandido como base para um cessar-fogo — uma proposta vaga num conflito de contornos brutais.
- O Kremlin confirmou o encontro e revelou que Schröder também pediu esclarecimentos sobre o corte de gás russo à Europa, numa missão que misturava diplomacia informal com interesses energéticos.
- Schröder defendeu o Nord Stream 2 como solução para a crise de abastecimento alemã, aumentando as suspeitas de que seus esforços serviam tanto à Rússia quanto à Alemanha.
- Dentro do SPD, a paciência esgotou-se: o partido tentava expulsá-lo enquanto ele se apresentava como o único disposto a falar com Putin.
Gerhard Schröder, ex-chanceler alemão com laços pessoais e comerciais profundos com Moscou, retornou de uma visita a Vladimir Putin afirmando que o Kremlin estaria disposto a negociar o fim da guerra na Ucrânia. A declaração, feita em agosto de 2022, ecoa uma tensão antiga da diplomacia europeia: a linha tênue entre manter canais de diálogo e legitimar aqueles que os outros condenam. Num momento em que a Alemanha enfrentava crise energética e seu próprio partido tentava expulsá-lo, Schröder insistia que a utilidade de uma ponte, por mais controversa que seja, não deve ser medida apenas pela simpatia que inspira.
Gerhard Schröder voltou de Moscou com uma mensagem que logo enfureceria Kiev e dividiria ainda mais o SPD: ele havia encontrado Putin e afirmava que o Kremlin estava aberto a negociações para encerrar a guerra na Ucrânia. "A boa notícia é que o Kremlin quer uma solução negociada", declarou à revista Stern. A afirmação era simples, mas carregada de peso político — e desprovida de evidências sólidas.
Schröder sugeriu que o acordo mediado pela ONU e pela Turquia para reabrir rotas no Mar Negro poderia servir de base para um cessar-fogo gradualmente ampliado. Ambos os lados teriam de fazer concessões, argumentou, sem detalhar em que termos Putin havia comunicado essa suposta disposição. Quando questionado sobre por que mantinha contato com o líder russo em plena guerra, respondeu que afastar-se pessoalmente não ajudaria ninguém — manter os canais abertos era, na sua visão, um serviço útil.
O Kremlin confirmou o encontro e revelou que Schröder também pediu a Putin que esclarecesse a situação do fornecimento de gás à Europa. Moscou culpava problemas técnicos com uma turbina; a Alemanha dizia que a turbina estava pronta, mas que os russos não apresentavam a documentação necessária. O ex-chanceler disse ter perguntado diretamente se o corte tinha motivação política — e Putin teria negado.
Schröder foi além e defendeu que a Alemanha reconsiderasse sua posição sobre o Nord Stream 2, gasoduto concluído mas nunca ativado por causa da guerra. Sem ele, o país arcaria com consequências enormes numa crise energética que se aprofundava após décadas de dependência do gás russo. Argumentou ainda que Alemanha e França tinham responsabilidade especial em buscar o fim do conflito — e que pouco estava sendo feito nessa direção.
As declarações chegaram num momento em que o SPD tentava expulsá-lo do partido. Após semanas de pressão, Schröder havia deixado a presidência da Rosneft em maio, mas sua insistência em preservar a amizade com Putin e em se oferecer como intermediário continuava gerando reações furiosas entre os social-democratas alemães e, sobretudo, em Kiev.
Gerhard Schröder, ex-chanceler da Alemanha que governou de 1998 a 2005, voltou de Moscou com uma mensagem que logo enfureceria Kiev e dividiria ainda mais seu próprio partido em casa. Ele havia visitado Vladimir Putin na semana anterior e, em entrevista à revista alemã Stern, afirmou ter ouvido do presidente russo que o Kremlin está aberto a negociações para encerrar a guerra na Ucrânia. A declaração era simples, mas carregada de peso político: "A boa notícia é que o Kremlin quer uma solução negociada."
Schröder, que mantém uma amizade pessoal com Putin e continuou ligado a empresas de energia russas controladas pelo Kremlin após deixar o cargo, não apresentou evidências sólidas para sua afirmação. Ele sugeriu apenas que o acordo intermediado pela ONU e pela Turquia para reabrir rotas marítimas no Mar Negro poderia servir como base para um cessar-fogo gradualmente expandido. Ambos os lados, argumentou, precisariam fazer concessões. Mas o ex-chanceler não ofereceu detalhes sobre como Putin havia comunicado essa disposição ou sob quais condições.
Quando questionado sobre por que mantinha contato próximo com o líder russo em plena guerra, Schröder respondeu com uma lógica que seus críticos considerariam conveniente. Ele havia condenado a invasão repetidas vezes, disse, mas afastar-se pessoalmente de Putin não ajudaria ninguém. Ao contrário: manter os canais de comunicação abertos com a Rússia durante o conflito era útil, na sua visão. "É bom que ainda haja alguém mantendo os canais de comunicação com a Rússia abertos durante o conflito atual," afirmou.
O Kremlin confirmou o encontro e revelou que Schröder havia levantado uma questão prática: o corte recente no fornecimento de gás para a Europa. Moscou atribuía a redução a uma turbina em manutenção; a Alemanha dizia que a turbina estava pronta para ser enviada, mas que os russos não haviam apresentado a documentação necessária. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, informou que Schröder pediu a Putin que esclarecesse a situação e explicasse a posição russa. Em outra entrevista, à Radio Free Europe, Schröder disse ter perguntado se o corte tinha motivação política. Putin respondeu que não havia nenhum anúncio político para conter o fluxo de gás — era um problema técnico e burocrático, com ambos os lados culpando um ao outro.
O ex-chanceler também abordou o gasoduto Nord Stream 2, que havia sido concluído no ano anterior mas nunca entrou em funcionamento por causa da guerra. Ele sugeriu que a Alemanha reconsiderasse sua posição sobre o projeto. Se o país não quisesse usar o Nord Stream 2, teria que arcar com as consequências, e elas seriam enormes. "Se as coisas ficarem realmente apertadas, existe esse gasoduto e, com os dois gasodutos Nord Stream, não haveria problema de abastecimento para a indústria alemã e para as famílias alemãs," disse à Stern. A Alemanha enfrentava uma crise energética após depender do gás russo por décadas.
Schröder também argumentou que a Alemanha e a França tinham uma responsabilidade especial em tentar encerrar a guerra na Ucrânia. "Não está acontecendo o suficiente no momento nessa frente," afirmou, acrescentando que era claro que nada aconteceria sem conversas. Essas declarações chegavam em um momento em que seu próprio partido, o SPD, tentava expulsá-lo. Em maio, após semanas de pressão, ele havia deixado o cargo de presidente da Rosneft, a estatal petrolífera russa. Mas sua insistência em manter a amizade com Putin e sua disposição de servir como intermediário continuavam gerando reações furiosas entre os social-democratas alemães e, especialmente, no governo ucraniano.
Citações Notáveis
A boa notícia é que o Kremlin quer uma solução negociada— Gerhard Schröder, em entrevista à revista Stern
É bom que ainda haja alguém mantendo os canais de comunicação com a Rússia abertos durante o conflito atual— Gerhard Schröder, justificando sua amizade contínua com Putin