Após dois meses de silêncio, os Estados Unidos retomaram seus ataques letais a embarcações no Pacífico Oriental, matando dois indivíduos acusados de narcotráfico — um gesto que revela menos sobre o combate às drogas do que sobre a reconfiguração do poder americano na América Latina. A pausa coincidiu com eleições que trouxeram ao poder líderes alinhados a Washington, sugerindo que a guerra às drogas funciona também como linguagem diplomática. Com o secretário de Defesa sinalizando operações em terra firme, o que se desenha não é apenas uma ofensiva contra cartéis, mas uma nova arquitetura de i
EUA retomam bombardeios no Pacífico após trégua de dois meses
Operações em terra significam incursões diretas em países soberanos
Por que o timing deste ataque importa tanto? Dois meses é muito tempo para uma pausa.
Porque coincide com uma mudança completa no tabuleiro político. Maduro foi capturado em janeiro. Depois disso, não havia mais o mesmo inimigo óbvio. Os EUA precisavam de novos aliados, e eles chegaram—Espriella, Fujimori, Noboa. Agora que estão no poder, o ataque volta.
Mas o fentanil não passa por aqui, certo? Então qual é realmente o objetivo?
A narrativa é sobre drogas, mas a estratégia é sobre poder. Os EUA estão consolidando influência numa região que estava se afastando. Cada ataque é uma demonstração de capacidade, uma mensagem para aliados e adversários.
Espriella mal assumiu e já autorizou operações militares americanas em solo colombiano. Isso não é uma capitulação?
É mais que isso. É uma escolha deliberada. Espriella é ultradireitista, alinhado com Trump. Para ele, ter os EUA operando na Colômbia é uma forma de consolidar seu próprio poder contra grupos que ele considera ameaças.
E a Venezuela? Como um regime anti-imperialista aceita operações americanas?
Porque a Venezuela está sob controle americano, mesmo que mantenha a retórica. Maduro foi capturado em Caracas. O regime que está lá agora é mais dócil. Aceitar operações americanas é uma forma de demonstrar lealdade.
Hegseth falou em expandir para terra firme. O que isso significa na prática?
Significa que os ataques aéreos a barcos são apenas o começo. Operações em terra significam incursões diretas, possivelmente com tropas americanas, em países soberanos. É uma escalada significativa.
The Pulse
- Depois de dois meses sem ataques, o Comando Sul dos EUA destruiu uma lancha no Pacífico Oriental e matou dois homens, retomando uma ofensiva que já acumula ao menos 220 mortes desde setembro do ano passado.
- A justificativa oficial aponta para o narcotráfico, mas especialistas contestam: o fentanil que abastece a crise americana chega principalmente pelo Caribe, tornando a rota do Pacífico um alvo de peso simbólico mais do que estratégico.
- A pausa nas operações coincidiu com a eleição de líderes pró-Trump na região — Espriella na Colômbia, Fujimori no Peru, Noboa no Equador —, revelando que os ataques obedecem também a uma lógica política, não apenas militar.
- O secretário de Defesa Pete Hegseth visitou o Panamá em agosto e anunciou que a mesma lógica dos ataques marítimos seria aplicada 'em terra firme', e semanas depois o novo presidente colombiano autorizou operações militares conjuntas em solo nacional.
- O que emerge não é apenas uma campanha antidrogas, mas uma expansão silenciosa da presença militar americana em países que, um a um, abriram suas fronteiras à influência de Washington.
Após dois meses de silêncio, os Estados Unidos retomaram seus ataques letais a embarcações no Pacífico Oriental, matando dois indivíduos acusados de narcotráfico — um gesto que revela menos sobre o combate às drogas do que sobre a reconfiguração do poder americano na América Latina. A pausa coincidiu com eleições que trouxeram ao poder líderes alinhados a Washington, sugerindo que a guerra às drogas funciona também como linguagem diplomática. Com o secretário de Defesa sinalizando operações em terra firme, o que se desenha não é apenas uma ofensiva contra cartéis, mas uma nova arquitetura de influência continental.
Numa segunda-feira de agosto, o Comando Sul dos Estados Unidos anunciou ter destruído uma lancha no Pacífico Oriental. Duas pessoas morreram. O vídeo divulgado mostrava o que se tornou rotineiro: uma embarcação atingida por um projétil, depois chamas. Sem apresentar evidências além da gravação, os militares descreveram a operação como um golpe preciso contra o narcotráfico.
Este ataque retoma um padrão iniciado em setembro do ano anterior, que já deixou ao menos 220 mortos. O general Francis Donovan usou linguagem familiar — 'narcoterroristas', 'veneno mortal', 'precisão letal' — mesmo quando os fatos não sustentam toda a narrativa. Especialistas lembram que o fentanil, droga no centro da crise de saúde pública americana, chega principalmente pelo Caribe. A rota do Pacífico é, segundo eles, marginal.
O timing não é acidental. A pausa de dois meses coincidiu com uma transformação política na América Latina: Abelardo de la Espriella foi eleito na Colômbia, Keiko Fujimori venceu no Peru, Daniel Noboa governa o Equador. Todos abriram, de formas diferentes, portas para a presença militar americana. Em março, a Casa Branca lançou o 'Escudo das Américas', reunindo líderes de direita em torno do combate ao tráfico. O Equador firmou parceria para operações conjuntas. Até a Venezuela, sob controle americano após a captura de Maduro em janeiro, aceitou operações em seu território.
Mas as parcerias não pareceram suficientes. Em agosto, Pete Hegseth visitou o Panamá e sinalizou que os ataques a embarcações teriam 'o mesmo efeito em terra'. Semanas depois, o ataque ao Pacífico ocorreu. Espriella já se reuniu com Hegseth para autorizar operações militares conjuntas em solo colombiano. O que se anuncia, nas palavras do secretário de Defesa, é levar a luta contra as organizações criminosas para a terra firme — com a Colômbia, o Equador e outros parceiros como palco.
Dois meses de silêncio terminaram numa segunda-feira de agosto quando o Comando Sul dos Estados Unidos anunciou ter destruído uma lancha no Pacífico Oriental. Duas pessoas morreram no ataque, acusadas pelos militares americanos de serem narcotraficantes. O vídeo divulgado mostrava o que se tornou familiar: uma embarcação em movimento atingida por um projétil, depois chamas. Sem apresentar qualquer evidência além da gravação, a unidade militar descreveu a operação como um golpe preciso contra o tráfico de drogas que supostamente flui pela região.
Este ataque retoma um padrão que começou em setembro do ano anterior e já deixou um rastro de pelo menos 220 mortos. O general Francis Donovan, comandante da unidade, usou linguagem que ecoa nas ruas americanas: falou em "narcoterroristas", em "veneno mortal" chegando às comunidades dos EUA, em "precisão letal" e "determinação absoluta". A retórica é consistente, mesmo quando os fatos não sustentam toda a narrativa. Especialistas apontam que o fentanil—o opioide que alimenta a crise de saúde pública americana—passa principalmente pelo Caribe, não por esta rota do Pacífico. A quantidade que transita por aqui é, segundo eles, irrisória.
O timing do ataque não é acidental. A pausa de dois meses coincidiu com uma transformação política na América Latina. Em 21 de junho, quando o último ataque havia sido anunciado, Abelardo de la Espriella foi eleito presidente da Colômbia. Ele é um ultradireitista alinhado com Donald Trump. Desde então, a região se reconfigurou. Keiko Fujimori venceu as eleições no Peru com uma plataforma de segurança pública dura. Daniel Noboa governa o Equador. Todos eles, de formas diferentes, abriram portas para a presença militar americana.
A estratégia americana mudou de forma. No início, entre setembro e outubro do ano anterior, os ataques concentravam-se no Caribe, perto da Venezuela. O alvo era claro: Nicolás Maduro, então no poder. Washington enviou o USS Gerald Ford, o maior porta-aviões do mundo, para as proximidades da costa venezuelana. Maduro colocou suas tropas em alerta. Depois, em janeiro deste ano, os EUA capturaram Maduro em Caracas. Houve uma pausa de três semanas nos ataques. Desde então, a frequência caiu, mas não parou.
O que mudou foi a natureza das parcerias. Em março, a Casa Branca lançou o "Escudo das Américas", uma iniciativa que reuniu líderes latino-americanos alinhados à direita para combater o tráfico de drogas. No mesmo mês, os EUA anunciaram uma parceria com o Equador para operações conjuntas. Até mesmo a Venezuela, que mantém uma retórica anti-imperialista mas está sob controle americano, aceitou operações dos EUA em seu território. Em junho, o Comando Sul matou Niño Guerrero, líder da organização criminosa Tren de Aragua, no estado de Bolívar.
Mas as parcerias, ao que parece, não têm sido suficientes. No dia 12 de agosto, durante uma visita ao Panamá, Pete Hegseth, secretário de Defesa de Trump, sinalizou uma expansão. Disse que os ataques aos barcos de narcotráfico teriam "o mesmo efeito em terra". Semanas depois, o ataque ao Pacífico ocorreu. Espriella, o novo presidente colombiano, já se reuniu com Hegseth em agosto para autorizar operações militares conjuntas em solo colombiano. O que vem a seguir, segundo as palavras do secretário de Defesa, é levar a luta contra as organizações de narcotráfico para a terra firme, com o Equador, a Colômbia e outros parceiros.
Notable Quotes
Não permitiremos que narcoterroristas operem impunemente no hemisfério ocidental nem que seu veneno mortal chegue às comunidades americanas— General Francis Donovan, Comando Sul dos EUA
Realizaremos operações conjuntas com nossos aliados na região, incluindo os EUA. A segurança dos equatorianos é nossa prioridade— Daniel Noboa, presidente do Equador