Mais de 20 milhões de brasileiros têm doença renal crônica, mas menos de 5% dos pacientes com creatinina elevada recebem teste complementar de albuminúria. A falta de diagnóstico precoce impede medidas preventivas que poderiam preservar função renal, reduzir complicações cardiovasculares e evitar necessidade de diálise.
Estudo revela subdiagnóstico crítico da doença renal crônica no Brasil
Detectar cedo muda tudo — você pode evitar a diálise
Por que dois testes simples não estão sendo feitos juntos, se ambos são tão importantes?
Porque o sistema de saúde funciona em silos. Um médico vê creatinina elevada e pensa: problema renal. Mas não faz a conexão de que precisa do segundo teste para confirmar e quantificar o dano. É como verificar a pressão arterial mas nunca medir o colesterol.
Mas isso não é ensinado na faculdade de medicina?
Provavelmente é. Mas entre o que se aprende e o que se faz na prática clínica há um abismo. Consultórios lotados, tempo limitado, falta de lembretes no sistema. O conhecimento existe; a execução é que falha.
E se a pessoa não sabe que tem a doença, como isso afeta sua vida?
Ela continua vivendo normalmente até o momento em que não consegue mais. Quando os sintomas aparecem — cansaço extremo, inchaço, dificuldade para respirar — geralmente significa que 70, 80% da função renal já se foi. Aí não há volta. É diálise ou transplante.
Qual é o custo disso para o sistema de saúde?
Imenso. Diálise é cara, exige infraestrutura, máquinas, profissionais especializados. Se você detecta a doença cedo, você evita tudo isso com medicamentos simples e mudanças de estilo de vida. É prevenção versus tratamento de emergência.
Então por que não há uma campanha massiva para isso?
Houve uma campanha nacional de rastreamento, e mesmo assim os números não melhoraram. Isso sugere que o problema não é falta de informação pública, mas falta de mudança na prática clínica. Os médicos precisam ser convencidos a mudar seus hábitos.
O Pulso
- Mais de 20 milhões de brasileiros têm doença renal crônica (10% da população)
- Menos de 5% dos pacientes com creatinina elevada recebem teste complementar de albuminúria
- Mais de 170 mil brasileiros dependem de diálise atualmente
- OMS projeta que DRC será quinta principal causa de morte mundial até 2040
Mais de 20 milhões de brasileiros têm doença renal crônica, mas menos de 5% dos pacientes com creatinina elevada recebem teste complementar de albuminúria. A falta de diagnóstico precoce impede medidas preventivas que poderiam preservar função renal, reduzir complicações cardiovasculares e evitar necessidade de diálise.
Pesquisa com mais de 14 mil pessoas mostra que exames diagnósticos para doença renal crônica raramente são solicitados, deixando milhões de brasileiros sem detecção precoce da condição que afeta 10% da população.
Mais de 14 mil brasileiros participaram de um estudo que expôs um problema silencioso na medicina do país: a doença renal crônica está sendo descoberta tarde demais, ou não está sendo descoberta de jeito nenhum. Os pesquisadores queriam entender por que tantas pessoas com rins doentes não sabem disso, e o que encontraram foi um padrão perturbador de negligência diagnóstica que atravessa consultórios e clínicas de norte a sul.
Os números são assustadores quando você os coloca lado a lado. A Sociedade Brasileira de Nefrologia estima que mais de 20 milhões de brasileiros — cerca de um em cada dez — vivem com doença renal crônica. Desses, mais de 170 mil já precisam de diálise, máquinas que fazem o trabalho que seus rins não conseguem mais fazer. Mas o estudo feito em colaboração com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná sugere que o número real de pessoas em diálise pode ser ainda maior, porque muitos casos nunca foram diagnosticados no primeiro lugar.
O problema está em dois exames simples que deveriam ser rotina. O primeiro mede creatinina no sangue — um indicador de que os rins estão falhando. O segundo testa proteína na urina, um sinal de que o dano já começou. Juntos, esses testes podem pegar a doença cedo, quando ainda há tempo de fazer algo a respeito. Mas a pesquisa revelou que menos de 5% das pessoas que fizeram o teste de creatinina também receberam o teste de proteína. Mesmo depois de uma campanha nacional de rastreamento, o número subiu apenas para abaixo de 7%. Os médicos simplesmente não estão pedindo o segundo exame. Ou não sabem que deveriam. Ou não têm tempo. De qualquer forma, o resultado é o mesmo: diagnóstico perdido.
Isso importa porque a doença renal crônica não dói. Nos estágios iniciais, você não sente nada. Você acorda, vai trabalhar, vive sua vida enquanto seus rins morrem lentamente. Quando os sintomas finalmente aparecem, muitas vezes é tarde demais. A Organização Mundial da Saúde projeta que em 2040 a doença renal crônica será a quinta principal causa de morte no mundo. No Brasil, onde diabetes e hipertensão — os dois maiores fatores de risco — são epidêmicos, o cenário é particularmente sombrio.
Mas aqui está a parte que deveria motivar ação imediata: detectar a doença cedo muda tudo. Quando você sabe que tem doença renal crônica no começo, pode tomar medicamentos, mudar sua dieta, controlar sua pressão arterial, proteger seus rins do dano progressivo. Pode evitar as complicações cardíacas que matam muitos pacientes renais. Pode adiar a diálise por anos, ou talvez evitá-la completamente. Pode viver melhor, mais tempo. Mas isso só funciona se você souber que tem a doença.
O estudo foi publicado no Brazilian Journal of Nephrology e contou com pesquisadores de instituições respeitadas — Universidade Estadual de Campinas, Escola Bahiana de Medicina, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Eles mapearam o subdiagnóstico especificamente entre pessoas de alto risco: aquelas com diabetes, hipertensão, obesidade, histórico familiar de doença renal, tabagismo, ou que tomam medicamentos que prejudicam os rins. Essas são as pessoas que mais precisam de detecção precoce. E são exatamente as pessoas que menos estão recebendo os testes que as salvariam.
O que vem agora é a pergunta incômoda: por que isso está acontecendo? Os testes existem. São baratos. São simples. Mas em consultórios e clínicas por todo o Brasil, médicos estão vendo pacientes diabéticos e hipertensos — os grupos de maior risco — e não estão pedindo o teste de proteína na urina. Talvez seja falta de conhecimento. Talvez seja pressão de tempo. Talvez seja inércia. Qualquer que seja a razão, o resultado é que centenas de milhares de brasileiros estão caminhando para a diálise sem saber, quando poderiam estar sendo tratados.
Citações Notáveis
Identificar a doença renal crônica precocemente pode mudar a trajetória clínica do paciente, abrindo caminho para medidas que preservam a função renal e reduzem complicações cardiovasculares— Pesquisa publicada no Brazilian Journal of Nephrology