Em um momento em que doenças antes controladas voltam a circular nas Américas, pesquisadores brasileiros oferecem uma resposta estruturada à hesitação vacinal: não há atalho único, mas cinco frentes complementares que, combinadas e adaptadas a cada realidade cultural, podem reconstruir a confiança perdida entre populações e imunizantes. O estudo, encomendado pelo Ministério da Saúde e baseado em 48 revisões sistemáticas de uma década, chega quando o Brasil celebra avanços frágeis — e enfrenta o retorno silencioso do sarampo ao continente.
Estudo identifica cinco estratégias para combater hesitação vacinal no Brasil
Cada população sofre barreiras diferentes para se vacinar
Então o estudo está dizendo que não existe uma solução única para a hesitação vacinal?
Exatamente. O trabalho analisou 48 revisões sistemáticas e a conclusão é que as cinco estratégias funcionam melhor quando combinadas e adaptadas. Cada comunidade tem barreiras diferentes.
Mas o estudo não especifica qual combinação funciona melhor em qual contexto, certo? São recomendações gerais baseadas em revisões de literatura.
E quanto à desinformação? Como se combate isso nas redes sociais?
O estudo recomenda que autoridades e profissionais respondam a conteúdos falsos e divulguem informações científicas em linguagem acessível. Mas a ênfase é em prevenir, não em corrigir depois.
Prevenir é ideal, mas como você monitora e previne desinformação em escala? O estudo menciona "políticas regulatórias" mas não detalha o que isso significa na prática.
E os profissionais de saúde — eles estão preparados para isso?
Aí entra a capacitação contínua. O estudo recomenda treinamentos sobre imunização e habilidades de comunicação. Um especialista entrevistado disse que o profissional não deve esperar o paciente perguntar — deve recomendar ativamente.
Isso pressupõe que os profissionais têm tempo e recursos para fazer isso. Em muitas unidades públicas, a realidade é diferente.
O Brasil está realmente saindo dessa crise de vacinação?
Há sinais positivos. Saiu da lista dos 20 países com mais crianças zero-dose. Mas o sarampo voltou nas Américas e a cobertura vacinal ainda está abaixo da meta.
E esses 52 casos importados de sarampo — quantos foram transmitidos localmente? O texto não deixa claro se há circulação comunitária ou se são apenas casos importados.
O Pulso
- A hesitação vacinal não é uniforme: cada comunidade carrega obstáculos distintos — desconfiança, desinformação, barreiras logísticas —, e campanhas genéricas continuam falhando justamente por ignorar essas diferenças.
- O ressurgimento do sarampo nas Américas, com transmissão endêmica reestabelecida no Canadá e 52 casos importados já registrados no Brasil em 2026, torna urgente o que poderia parecer apenas um debate acadêmico.
- Profissionais de saúde são identificados como peça-chave negligenciada: a recomendação direta durante o atendimento influencia decisões, mas muitos ainda esperam o paciente perguntar em vez de avaliar ativamente o calendário vacinal.
- Prevenir a desinformação antes que ela se dissemine é apontado como mais eficaz do que corrigi-la depois — uma inversão de lógica que desafia a resposta reativa dominante nas políticas públicas atuais.
- O Brasil saiu da lista dos 20 países com mais crianças sem vacinação básica, mas a cobertura da tríplice viral ficou em 93,1% em 2025 — abaixo da meta de 95% necessária para barrar a reintrodução do sarampo.
Em um momento em que doenças antes controladas voltam a circular nas Américas, pesquisadores brasileiros oferecem uma resposta estruturada à hesitação vacinal: não há atalho único, mas cinco frentes complementares que, combinadas e adaptadas a cada realidade cultural, podem reconstruir a confiança perdida entre populações e imunizantes. O estudo, encomendado pelo Ministério da Saúde e baseado em 48 revisões sistemáticas de uma década, chega quando o Brasil celebra avanços frágeis — e enfrenta o retorno silencioso do sarampo ao continente.
Um estudo publicado na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde mapeou 48 revisões sistemáticas sobre vacinação em adultos e gestantes realizadas entre 2012 e 2024, analisando imunizantes contra Covid, influenza, HPV, hepatite B, coqueluche e pneumococo. Encomendado pelo Ministério da Saúde para orientar políticas públicas, o trabalho conclui que nenhuma estratégia isolada resolve a hesitação vacinal — o sucesso exige combinar cinco abordagens adaptadas às realidades de cada grupo.
A primeira frente é repensar a comunicação: campanhas genéricas falham porque cada comunidade enfrenta obstáculos distintos. O estudo recomenda considerar características socioculturais, usar linguagem acessível, oferecer informações em diferentes idiomas para migrantes e envolver lideranças comunitárias e religiosas. A segunda estratégia é combater a desinformação — preferencialmente antes que ela se dissemine, pois corrigi-la depois é muito menos eficaz. A terceira frente é a capacitação contínua de profissionais de saúde, que devem recomendar vacinas ativamente durante o atendimento, sem esperar que o paciente pergunte. A quarta estratégia é ampliar o acesso físico: horários estendidos, fins de semana, unidades móveis e oferta em escolas e empresas reduzem barreiras logísticas que muitas vezes são confundidas com recusa. A quinta frente é específica para gestantes: esclarecer dúvidas sobre efeitos adversos e oferecer doses durante o pré-natal e nas maternidades.
O estudo chega em um momento de recuperação frágil. Em 2026, o Brasil saiu da lista dos 20 países com maior número de crianças sem nenhuma dose de vacina básica — eram 255 mil em 2024 e caíram para 50 mil em 2025. Mas o sarampo ressurgiu nas Américas: Guatemala, México, Estados Unidos, Peru e Canadá concentravam 99,5% dos casos confirmados em 2026, e o Canadá perdeu o status de livre da circulação endêmica da doença. No Brasil, 52 casos importados foram registrados até outubro, e a cobertura da primeira dose da tríplice viral ficou em 93,1% em 2025 — abaixo da meta de 95%. Quando doenças se tornam raras, parte da população deixa de reconhecer sua gravidade, tornando a recuperação das coberturas vacinais uma tarefa ao mesmo tempo urgente e cada vez mais difícil de comunicar.
Pesquisadores brasileiros identificaram um caminho para enfrentar a hesitação vacinal que vai além de campanhas genéricas. Um estudo publicado segunda-feira na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde mapeou 48 revisões sistemáticas realizadas entre 2012 e 2024 sobre intervenções para aumentar a adesão à vacinação em adultos e gestantes, analisando dados sobre imunizantes contra Covid, influenza, HPV, hepatite B, coqueluche e pneumococo. O trabalho, encomendado pelo Ministério da Saúde para orientar políticas públicas, aponta que nenhuma estratégia isolada resolve o problema — o sucesso depende de combinar cinco abordagens diferentes, cada uma adaptada às realidades específicas de quem se pretende alcançar.
A primeira frente é repensar como se comunica sobre vacinação. Campanhas genéricas não funcionam porque cada comunidade enfrenta obstáculos distintos. O estudo recomenda considerar características socioculturais, oferecer informações em idiomas diferentes para migrantes, usar linguagem clara sobre segurança dos imunizantes e envolver lideranças comunitárias e religiosas. Influenciadores digitais também podem ampliar o alcance. Ana Paula da Costa Marques, professora de microbiologia do Instituto de Biociências da UFMS e uma das autoras, explica que as estratégias precisam ser pensadas para "as características do grupo que se pretende trabalhar e qual é o objetivo". Não existe solução única.
Combater desinformação é a segunda estratégia. Autoridades e profissionais de saúde podem responder a conteúdos falsos nas redes sociais e divulgar informações científicas em linguagem acessível, mas o estudo enfatiza que é mais eficaz prevenir a disseminação de mentiras do que tentar corrigi-las depois que já circulam amplamente. Marques é clara: "É muito melhor prevenir a desinformação do que trabalhar nela depois que ela já foi disseminada". Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, acrescenta que a falta de confiança nas vacinas, nos profissionais e nas instituições afasta pessoas da imunização, tornando essencial identificar os fatores específicos que interferem na vacinação em cada localidade.
A terceira frente envolve capacitação contínua de profissionais de saúde. Treinamentos devem cobrir conhecimentos sobre imunização e habilidades de comunicação para que os profissionais conversem com a população de forma clara e acolhedora. A recomendação direta durante o atendimento influencia decisões de se vacinar. Rosane Orth Argenta, gestora de saúde e CEO da Saúde Livre Vacinas, rede privada de clínicas de imunização, frisa que o profissional não deve esperar o paciente perguntar: "Ele precisa avaliar o calendário vacinal e recomendar as vacinas indicadas". O vínculo entre profissional e paciente importa, assim como estar bem informado para responder dúvidas tanto nas unidades de saúde quanto nas redes sociais.
A quarta estratégia é ampliar o acesso físico à vacinação. Nem toda hesitação é recusa — muitas vezes é barreira logística. Pessoas deixam de se vacinar por falta de tempo para ir a uma unidade de saúde. Horários estendidos, atendimento aos fins de semana, unidades móveis e oferta de doses em escolas, empresas e universidades reduzem esses obstáculos. A quinta frente é específica para gestantes e puérperas: esclarecer dúvidas sobre possíveis efeitos adversos para mãe e bebê, oferecer vacinas durante o pré-natal e nas maternidades com orientações e materiais explicativos. Marques reforça que quanto mais o profissional de saúde indicar e recomendar vacinação durante o acompanhamento gestacional, melhor.
Este estudo chega em um momento de recuperação da vacinação infantil no Brasil. Em 2026, o país saiu da lista dos 20 com maior número de crianças "zero-dose" — aquelas que não receberam a primeira dose da pentavalente, que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e infecções por Haemophilus influenzae tipo b. Em 2025, 50 mil crianças estavam nessa situação, queda significativa ante 255 mil em 2024. Mas a recuperação é frágil. Sarampo ressurgiu nas Américas: Guatemala, México, Estados Unidos, Peru e Canadá concentravam 99,5% dos casos confirmados em 2026. Em novembro de 2025, a transmissão endêmica foi restabelecida no Canadá, levando a região a perder o status de livre da circulação endêmica do sarampo em meio ao crescimento do movimento antivacina.
No Brasil, até 5 de outubro foram registrados 52 casos importados de sarampo — 41 em São Paulo, dez no Amazonas e um no Rio de Janeiro. O país mantém o status de livre da circulação endêmica, recuperado em novembro de 2024, mas a cobertura da primeira dose da tríplice viral chegou a apenas 93,1% em 2025, abaixo da meta de 95%. Para Marques, a recuperação das coberturas vacinais é urgente diante do risco de reintrodução de doenças que deixaram de circular. Quando doenças se tornam raras, parte da população deixa de reconhecer sua gravidade e os riscos da queda da imunização.
Citações Notáveis
É muito melhor prevenir a desinformação do que trabalhar nela depois que ela já foi disseminada— Ana Paula da Costa Marques, professora de microbiologia da UFMS
O profissional não deve apenas esperar que o paciente pergunte sobre a vacinação. Ele precisa avaliar o calendário vacinal e recomendar as vacinas indicadas— Rosane Orth Argenta, CEO da Saúde Livre Vacinas