Estudo identifica cinco estratégias para combater hesitação vacinal no Brasil

Cada população sofre barreiras diferentes para se vacinar
Pesquisadora explica por que estratégias genéricas não funcionam contra hesitação vacinal.
Mark

Então o estudo está dizendo que não existe uma solução única para a hesitação vacinal?

Mimi

Exatamente. O trabalho analisou 48 revisões sistemáticas e a conclusão é que as cinco estratégias funcionam melhor quando combinadas e adaptadas. Cada comunidade tem barreiras diferentes.

Luke

Mas o estudo não especifica qual combinação funciona melhor em qual contexto, certo? São recomendações gerais baseadas em revisões de literatura.

Mark

E quanto à desinformação? Como se combate isso nas redes sociais?

Mimi

O estudo recomenda que autoridades e profissionais respondam a conteúdos falsos e divulguem informações científicas em linguagem acessível. Mas a ênfase é em prevenir, não em corrigir depois.

Luke

Prevenir é ideal, mas como você monitora e previne desinformação em escala? O estudo menciona "políticas regulatórias" mas não detalha o que isso significa na prática.

Mark

E os profissionais de saúde — eles estão preparados para isso?

Mimi

Aí entra a capacitação contínua. O estudo recomenda treinamentos sobre imunização e habilidades de comunicação. Um especialista entrevistado disse que o profissional não deve esperar o paciente perguntar — deve recomendar ativamente.

Luke

Isso pressupõe que os profissionais têm tempo e recursos para fazer isso. Em muitas unidades públicas, a realidade é diferente.

Mark

O Brasil está realmente saindo dessa crise de vacinação?

Mimi

Há sinais positivos. Saiu da lista dos 20 países com mais crianças zero-dose. Mas o sarampo voltou nas Américas e a cobertura vacinal ainda está abaixo da meta.

Luke

E esses 52 casos importados de sarampo — quantos foram transmitidos localmente? O texto não deixa claro se há circulação comunitária ou se são apenas casos importados.

  • A hesitação vacinal não é uniforme: cada comunidade carrega obstáculos distintos — desconfiança, desinformação, barreiras logísticas —, e campanhas genéricas continuam falhando justamente por ignorar essas diferenças.
  • O ressurgimento do sarampo nas Américas, com transmissão endêmica reestabelecida no Canadá e 52 casos importados já registrados no Brasil em 2026, torna urgente o que poderia parecer apenas um debate acadêmico.
  • Profissionais de saúde são identificados como peça-chave negligenciada: a recomendação direta durante o atendimento influencia decisões, mas muitos ainda esperam o paciente perguntar em vez de avaliar ativamente o calendário vacinal.
  • Prevenir a desinformação antes que ela se dissemine é apontado como mais eficaz do que corrigi-la depois — uma inversão de lógica que desafia a resposta reativa dominante nas políticas públicas atuais.
  • O Brasil saiu da lista dos 20 países com mais crianças sem vacinação básica, mas a cobertura da tríplice viral ficou em 93,1% em 2025 — abaixo da meta de 95% necessária para barrar a reintrodução do sarampo.

Em um momento em que doenças antes controladas voltam a circular nas Américas, pesquisadores brasileiros oferecem uma resposta estruturada à hesitação vacinal: não há atalho único, mas cinco frentes complementares que, combinadas e adaptadas a cada realidade cultural, podem reconstruir a confiança perdida entre populações e imunizantes. O estudo, encomendado pelo Ministério da Saúde e baseado em 48 revisões sistemáticas de uma década, chega quando o Brasil celebra avanços frágeis — e enfrenta o retorno silencioso do sarampo ao continente.

Um estudo publicado na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde mapeou 48 revisões sistemáticas sobre vacinação em adultos e gestantes realizadas entre 2012 e 2024, analisando imunizantes contra Covid, influenza, HPV, hepatite B, coqueluche e pneumococo. Encomendado pelo Ministério da Saúde para orientar políticas públicas, o trabalho conclui que nenhuma estratégia isolada resolve a hesitação vacinal — o sucesso exige combinar cinco abordagens adaptadas às realidades de cada grupo.

A primeira frente é repensar a comunicação: campanhas genéricas falham porque cada comunidade enfrenta obstáculos distintos. O estudo recomenda considerar características socioculturais, usar linguagem acessível, oferecer informações em diferentes idiomas para migrantes e envolver lideranças comunitárias e religiosas. A segunda estratégia é combater a desinformação — preferencialmente antes que ela se dissemine, pois corrigi-la depois é muito menos eficaz. A terceira frente é a capacitação contínua de profissionais de saúde, que devem recomendar vacinas ativamente durante o atendimento, sem esperar que o paciente pergunte. A quarta estratégia é ampliar o acesso físico: horários estendidos, fins de semana, unidades móveis e oferta em escolas e empresas reduzem barreiras logísticas que muitas vezes são confundidas com recusa. A quinta frente é específica para gestantes: esclarecer dúvidas sobre efeitos adversos e oferecer doses durante o pré-natal e nas maternidades.

O estudo chega em um momento de recuperação frágil. Em 2026, o Brasil saiu da lista dos 20 países com maior número de crianças sem nenhuma dose de vacina básica — eram 255 mil em 2024 e caíram para 50 mil em 2025. Mas o sarampo ressurgiu nas Américas: Guatemala, México, Estados Unidos, Peru e Canadá concentravam 99,5% dos casos confirmados em 2026, e o Canadá perdeu o status de livre da circulação endêmica da doença. No Brasil, 52 casos importados foram registrados até outubro, e a cobertura da primeira dose da tríplice viral ficou em 93,1% em 2025 — abaixo da meta de 95%. Quando doenças se tornam raras, parte da população deixa de reconhecer sua gravidade, tornando a recuperação das coberturas vacinais uma tarefa ao mesmo tempo urgente e cada vez mais difícil de comunicar.

Pesquisadores brasileiros identificaram um caminho para enfrentar a hesitação vacinal que vai além de campanhas genéricas. Um estudo publicado segunda-feira na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde mapeou 48 revisões sistemáticas realizadas entre 2012 e 2024 sobre intervenções para aumentar a adesão à vacinação em adultos e gestantes, analisando dados sobre imunizantes contra Covid, influenza, HPV, hepatite B, coqueluche e pneumococo. O trabalho, encomendado pelo Ministério da Saúde para orientar políticas públicas, aponta que nenhuma estratégia isolada resolve o problema — o sucesso depende de combinar cinco abordagens diferentes, cada uma adaptada às realidades específicas de quem se pretende alcançar.

A primeira frente é repensar como se comunica sobre vacinação. Campanhas genéricas não funcionam porque cada comunidade enfrenta obstáculos distintos. O estudo recomenda considerar características socioculturais, oferecer informações em idiomas diferentes para migrantes, usar linguagem clara sobre segurança dos imunizantes e envolver lideranças comunitárias e religiosas. Influenciadores digitais também podem ampliar o alcance. Ana Paula da Costa Marques, professora de microbiologia do Instituto de Biociências da UFMS e uma das autoras, explica que as estratégias precisam ser pensadas para "as características do grupo que se pretende trabalhar e qual é o objetivo". Não existe solução única.

Combater desinformação é a segunda estratégia. Autoridades e profissionais de saúde podem responder a conteúdos falsos nas redes sociais e divulgar informações científicas em linguagem acessível, mas o estudo enfatiza que é mais eficaz prevenir a disseminação de mentiras do que tentar corrigi-las depois que já circulam amplamente. Marques é clara: "É muito melhor prevenir a desinformação do que trabalhar nela depois que ela já foi disseminada". Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, acrescenta que a falta de confiança nas vacinas, nos profissionais e nas instituições afasta pessoas da imunização, tornando essencial identificar os fatores específicos que interferem na vacinação em cada localidade.

A terceira frente envolve capacitação contínua de profissionais de saúde. Treinamentos devem cobrir conhecimentos sobre imunização e habilidades de comunicação para que os profissionais conversem com a população de forma clara e acolhedora. A recomendação direta durante o atendimento influencia decisões de se vacinar. Rosane Orth Argenta, gestora de saúde e CEO da Saúde Livre Vacinas, rede privada de clínicas de imunização, frisa que o profissional não deve esperar o paciente perguntar: "Ele precisa avaliar o calendário vacinal e recomendar as vacinas indicadas". O vínculo entre profissional e paciente importa, assim como estar bem informado para responder dúvidas tanto nas unidades de saúde quanto nas redes sociais.

A quarta estratégia é ampliar o acesso físico à vacinação. Nem toda hesitação é recusa — muitas vezes é barreira logística. Pessoas deixam de se vacinar por falta de tempo para ir a uma unidade de saúde. Horários estendidos, atendimento aos fins de semana, unidades móveis e oferta de doses em escolas, empresas e universidades reduzem esses obstáculos. A quinta frente é específica para gestantes e puérperas: esclarecer dúvidas sobre possíveis efeitos adversos para mãe e bebê, oferecer vacinas durante o pré-natal e nas maternidades com orientações e materiais explicativos. Marques reforça que quanto mais o profissional de saúde indicar e recomendar vacinação durante o acompanhamento gestacional, melhor.

Este estudo chega em um momento de recuperação da vacinação infantil no Brasil. Em 2026, o país saiu da lista dos 20 com maior número de crianças "zero-dose" — aquelas que não receberam a primeira dose da pentavalente, que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e infecções por Haemophilus influenzae tipo b. Em 2025, 50 mil crianças estavam nessa situação, queda significativa ante 255 mil em 2024. Mas a recuperação é frágil. Sarampo ressurgiu nas Américas: Guatemala, México, Estados Unidos, Peru e Canadá concentravam 99,5% dos casos confirmados em 2026. Em novembro de 2025, a transmissão endêmica foi restabelecida no Canadá, levando a região a perder o status de livre da circulação endêmica do sarampo em meio ao crescimento do movimento antivacina.

No Brasil, até 5 de outubro foram registrados 52 casos importados de sarampo — 41 em São Paulo, dez no Amazonas e um no Rio de Janeiro. O país mantém o status de livre da circulação endêmica, recuperado em novembro de 2024, mas a cobertura da primeira dose da tríplice viral chegou a apenas 93,1% em 2025, abaixo da meta de 95%. Para Marques, a recuperação das coberturas vacinais é urgente diante do risco de reintrodução de doenças que deixaram de circular. Quando doenças se tornam raras, parte da população deixa de reconhecer sua gravidade e os riscos da queda da imunização.

É muito melhor prevenir a desinformação do que trabalhar nela depois que ela já foi disseminada
— Ana Paula da Costa Marques, professora de microbiologia da UFMS
O profissional não deve apenas esperar que o paciente pergunte sobre a vacinação. Ele precisa avaliar o calendário vacinal e recomendar as vacinas indicadas
— Rosane Orth Argenta, CEO da Saúde Livre Vacinas
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