Estudo: golpe de Bolsonaro fracassou porque ele nunca buscou maioria no Congresso

Apostou nos militares em vez de negociar com o Legislativo
A escolha estratégica de Bolsonaro de confiar nas Forças Armadas o deixou sem as ferramentas legislativas que líderes autoritários usaram em outros países.
Mark

Por que o estudo diz que Bolsonaro fracassou? Ele foi derrotado nas eleições, mas a tentativa de golpe em si não foi exatamente um fracasso de planejamento—foi um fracasso de execução, certo?

Mimi

Não exatamente. O estudo argumenta que o fracasso foi estrutural. Bolsonaro não tinha as ferramentas legislativas para fazer o que líderes autoritários fizeram em outros países: aprovar leis que enfraquecessem o Judiciário e controlassem a mídia. Sem maioria no Congresso, não pôde fazer isso legalmente.

Luke

Mas espera—o estudo está dizendo que ele fracassou porque não tentou construir maioria, ou que fracassou porque o sistema não permitiria? São coisas diferentes.

Mimi

Ambas. Bolsonaro escolheu não investir em maioria legislativa. Apostou nos militares em vez disso. Mas mesmo que tivesse tentado construir maioria, o sistema fragmentado do Brasil tornaria isso muito mais difícil do que em outros países.

Mark

Então o presidencialismo de coalizão funcionou como um escudo?

Mimi

Funcionou, mas não por design. Funcionou porque Bolsonaro não sabia ou não quis negociar com o Congresso. Lula e FHC sabiam. Dilma começou a não saber. Bolsonaro simplesmente não tentou.

Luke

O estudo menciona que o STF está em crise de legitimidade agora. Isso não enfraquece o argumento? Se o Judiciário estava forte em 2022-2023, mas está fraco agora, qual é a garantia de que funcionará da mesma forma em uma próxima crise?

Mimi

Nenhuma. É exatamente o ponto que Maria Hermínia levanta. O poder do STF depende de as pessoas acreditarem que suas decisões fazem sentido. Quando o tribunal perde legitimidade, perde também sua capacidade de conter.

Mark

E quanto a Flávio Bolsonaro? O estudo oferece alguma previsão?

Mimi

Não. Maria Hermínia diz explicitamente que é uma incógnita. Flávio não tem histórico como legislador importante. Não sabemos como reagiria se tivesse que negociar com o Congresso e falhasse.

Luke

Então o estudo é, no fundo, sobre por que Bolsonaro especificamente fracassou—não sobre por que o Brasil é imune a golpes. Isso é importante deixar claro.

  • Bolsonaro apostou nas Forças Armadas como base de poder, ignorando décadas de evidência de que o presidencialismo de coalizão brasileiro exige negociação constante com dezenas de partidos.
  • Sem maioria no Congresso, ele não pôde fazer o que líderes autoritários na Hungria, Polônia e El Salvador fizeram: aprovar leis que enfraquecem o Judiciário e controlam a mídia de dentro para fora.
  • O STF condenou Bolsonaro a 27 anos de prisão, mas o próprio tribunal enfrenta uma crise de legitimidade que pode comprometer sua capacidade de conter ameaças futuras.
  • Flávio Bolsonaro surge como possível candidato presidencial prometendo indulto ao pai — e ninguém sabe se repetiria os erros do pai ou encontraria um caminho mais eficaz para concentrar poder.

Quando um líder escolhe o quartel em vez do parlamento, revela não apenas uma preferência tática, mas uma incompreensão fundamental das regras do jogo que pretende dominar. O estudo da Fundação FHC mostra que o Brasil resistiu à tentativa de golpe de Bolsonaro não por virtude heroica, mas porque o ex-presidente nunca construiu a maioria legislativa que governos autoritários bem-sucedidos usaram para corroer democracias por dentro. O sistema fragmentado de partidos, o Judiciário independente e uma mídia robusta funcionaram juntos exatamente no momento em que deveriam — revelando que a complexidade institucional, frequentemente vista como fraqueza, pode ser a mais silenciosa das fortalezas.

A Fundação FHC publicou um estudo que explica, de forma estrutural, por que o Brasil resistiu à tentativa de golpe de Jair Bolsonaro. A resposta não está em um único herói institucional, mas em três pilares que funcionaram juntos: um Congresso fragmentado entre dezenas de partidos, um Judiciário independente e uma mídia robusta. Essa combinação é rara — e funcionou exatamente quando deveria.

O Brasil opera sob o presidencialismo de coalizão, um sistema que exige do Palácio do Planalto negociação constante com partidos menores que controlam o Legislativo. FHC e Lula dominavam essa arte. Bolsonaro fez uma escolha diferente: após décadas como deputado federal com atuação marginal, chegou à presidência e apostou nas Forças Armadas — comparecendo a formaturas, protegendo militares na reforma da Previdência, direcionando recursos às corporações. Era uma aposta de que teria os militares ao seu lado para governar ou, se necessário, para executar um golpe.

Essa escolha teve uma consequência não intencional: deixou Bolsonaro sem as ferramentas que líderes autoritários usaram com sucesso em outros países. Na Hungria, na Polônia e em El Salvador, maiorias legislativas permitiram aprovar leis que enfraqueceram o Judiciário e controlaram a mídia. Bolsonaro nunca construiu essa maioria. O sistema fragmentado do Brasil, normalmente visto como fraqueza, tornou-se uma fortaleza justamente porque ele não tinha interesse — nem habilidade — para negociar.

Quando a tentativa de golpe fracassou, o STF condenou Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão. Mas o tribunal enfrenta hoje uma crise de legitimidade sem precedentes, abalado por escândalos internos — o que enfraquece sua capacidade de agir como freio no futuro. E o futuro permanece aberto: Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, é mencionado como possível candidato à presidência, prometendo indulto ao pai. Se eleito, enfrentaria o mesmo Congresso fragmentado. O que faria diante das mesmas negociações que seu pai recusou? É uma incógnita que o Brasil ainda não resolveu.

A Fundação FHC publicou um estudo que oferece uma explicação estrutural para por que o Brasil conseguiu resistir à tentativa de golpe do ex-presidente Jair Bolsonaro. A resposta não está em um único fator heroico, mas em três pilares que funcionaram juntos: um Congresso fragmentado entre dezenas de partidos, um Judiciário independente e uma mídia robusta. O que torna essa combinação rara no mundo é que ela funcionou exatamente quando deveria funcionar—no momento em que um presidente tentou romper as regras.

O Brasil opera sob um sistema chamado presidencialismo de coalizão. Diferentemente de democracias bipartidárias como os Estados Unidos, onde o presidente enfrenta dois grandes blocos, aqui o Palácio do Planalto precisa negociar constantemente com dezenas de partidos menores que controlam o Congresso Nacional. Isso exige uma habilidade política específica: a capacidade de construir alianças, fazer concessões, manter diálogos. Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, cada um à sua maneira, dominavam essa arte. Dilma Rousseff começou a encontrar dificuldades. Bolsonaro, porém, fez uma escolha diferente.

Antes de chegar à presidência, Bolsonaro passou décadas no Congresso como deputado federal, mas sua atuação foi marginal. Nunca construiu uma base sólida, nunca se envolveu em negociações legislativas significativas. Quando eleito presidente, em vez de investir em relações com o Legislativo—como exigia o sistema que herdava—apostou em outro tabuleiro: as Forças Armadas. Comparecia a formaturas militares, protegeu os militares na reforma da Previdência, direcionou recursos para projetos das corporações. A aposta era que teria os militares ao seu lado, tanto para governar democraticamente quanto, se necessário, para executar um golpe.

Essa escolha estratégica teve uma consequência não intencional: deixou Bolsonaro sem as ferramentas legislativas que líderes autoritários em outros países usaram com sucesso. Na Hungria, na Polônia e em El Salvador, governos autoritários aproveitaram maiorias legislativas para aprovar leis que enfraqueceram o Judiciário, controlaram a mídia e consolidaram o poder. Bolsonaro nunca conseguiu construir essa maioria. Sem ela, não pôde fazer o que esses líderes fizeram: corroer a democracia por dentro, legalmente, institucionalmente. O sistema fragmentado do Brasil, que normalmente é visto como uma fraqueza—exigindo negociação constante—tornou-se uma fortaleza justamente porque Bolsonaro não tinha interesse em negociar.

O federalismo brasileiro também funcionou como um freio. Diferentemente de sistemas centralizados, os estados brasileiros mantêm autonomia significativa, impedindo que o poder se concentre inteiramente no governo federal. Mas o federalismo sozinho não explica o resultado. Nos Estados Unidos, o sistema federativo existe, mas Donald Trump conseguiu evitar consequências maiores porque sua coalizão republicana controlava o Legislativo. Bolsonaro não tinha nem isso.

Quando a tentativa de golpe fracassou e Bolsonaro foi derrotado nas eleições, o Judiciário funcionou. O Supremo Tribunal Federal o condenou a 27 anos e três meses de prisão por sua participação na trama golpista. Essa condenação reforçou um ponto central do estudo: instituições independentes importam. Mas há uma sombra sobre esse futuro. O STF enfrenta atualmente uma crise de legitimidade sem precedentes, abalado por escândalos internos. Essa fragilidade institucional enfraquece sua capacidade de agir como fez no governo anterior, justamente quando pode ser necessário agir novamente.

O cenário futuro permanece aberto. Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, é mencionado como possível candidato presidencial e promete conceder um indulto ao pai se eleito. Mas quem é Flávio Bolsonaro como presidente? Sua trajetória no Senado não o marca como um legislador de peso ou um negociador. Se eleito, enfrentaria o mesmo Congresso fragmentado que seu pai enfrentou. Teria que negociar com dezenas de partidos. E se falhasse nessas negociações? Ninguém sabe se recorreria à pressão externa, a mobilizações de apoiadores, ou a algo mais. É uma incógnita que o Brasil ainda não resolveu.

É um sistema que exige capacidade política. Ele funcionou bem com Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Começou a funcionar mal com a Dilma, que não era propriamente uma política habilidosa.
— Maria Hermínia Tavares, cientista política e autora do estudo
A ideia dele é que teria as Forças Armadas a seu lado para o que quisesse, tanto se continuasse democraticamente eleito quanto se quisesse dar um golpe.
— Maria Hermínia Tavares
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