Estudo brasileiro revela que polvos têm dois estados de sono similares aos humanos

Se sonham, devem ser como pequenos videoclipes, não narrativas
Sylvia Medeiros especula sobre a natureza dos possíveis sonhos dos polvos, dados seus ciclos de sono muito breves.
Mark

Como é que pesquisadores conseguem observar o sono de um polvo? Eles não dormem em ambientes muito diferentes dos nossos?

Mimi

Eles observaram os polvos em laboratório, então conseguem controlar as condições. O que é fascinante é que conseguiram ver as mudanças de cor e os movimentos dos olhos — sinais visíveis que indicam os diferentes estágios.

Luke

Mas aí está a questão: como sabemos que isso é realmente sono? Eles têm EEG, atividade cerebral registrada, ou estamos inferindo sono apenas pelos comportamentos?

Mimi

Ótima pergunta. O estudo observou os padrões comportamentais e os ciclos repetitivos. Mas você está certo — a confirmação neurobiológica seria o próximo passo.

Mark

E quanto à ideia de que eles estão sonhando? Isso é especulação ou há evidência?

Mimi

Medeiros foi bem clara: é uma sugestão baseada na semelhança com o sono REM humano. Ela não afirmou que eles sonham, mas que podem estar experimentando algo semelhante.

Luke

E ela mesma disse que se sonham, seria muito diferente de nós — pequenos videoclipes, não narrativas. Então estamos usando a palavra "sonho" de forma bem diferente.

Mimi

Exatamente. É por isso que a pesquisa é tão interessante — abre perguntas que ainda não temos respostas.

Mark

Essa coisa de evolução convergente — quer dizer que a natureza inventou o mesmo tipo de sono duas vezes?

Mimi

Sim. Vertebrados e cefalópodes divergiram há mais de 500 milhões de anos. Se tivessem herdado o padrão de sono do ancestral comum, seria improvável que fosse tão semelhante agora.

Luke

Mas "improvável" não é "impossível". Há outras explicações possíveis que o estudo não descarta?

Mimi

Sempre há. Mas a evolução convergente é a explicação mais parcimonioso com os dados que temos.

  • Polvos da espécie Octopus insularis alternam entre um 'sono quieto' — imóveis, pálidos, pupilas contraídas — e um 'sono ativo' explosivo, com mudanças rápidas de cor, movimentos oculares e espasmos musculares que desafiam tudo o que se sabia sobre o sono em invertebrados.
  • A semelhança com o ciclo REM e não-REM humano é tão marcante que a pesquisadora Sylvia Medeiros levantou a possibilidade de que os polvos estejam sonhando — ainda que seus 'sonhos', com duração de segundos, sejam mais como fragmentos visuais do que narrativas complexas.
  • Com mais de 500 milhões de anos separando vertebrados de cefalópodes, a herança comum não explica a semelhança: os pesquisadores apontam para a evolução convergente, onde a natureza inventou a mesma solução duas vezes, em linhagens completamente independentes.
  • Sidarta Ribeiro, cofundador do Instituto do Cérebro, destaca que o polvo — cognitivamente sofisticado, mas neurologicamente radicalmente diferente de nós — abre uma janela única para compreender como comportamentos complexos podem emergir por arquiteturas cerebrais completamente distintas.
  • O estudo reposiciona o sono não como uma peculiaridade dos vertebrados, mas como uma função biológica de raízes evolutivas muito mais profundas e variadas do que a ciência imaginava.

Em março de 2021, pesquisadores brasileiros revelaram que o polvo — criatura de sangue azul e três corações — dorme em dois estágios distintos que ecoam o sono REM e não-REM dos humanos, apesar de 500 milhões de anos de separação evolutiva. A descoberta, conduzida por cientistas do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, levanta uma questão profunda: se caminhos tão distantes da vida chegaram à mesma solução para o repouso e o sonho, o que isso nos diz sobre a natureza da consciência e da experiência interior? A ciência encontrou, no fundo do oceano, um espelho inesperado da mente humana.

O polvo já era famoso por seus oito braços, três corações e sangue azul. Mas um estudo publicado em março de 2021 por pesquisadores brasileiros revelou algo ainda mais surpreendente: o animal dorme em dois estágios distintos que se assemelham notavelmente ao sono humano.

Observando polvos da espécie Octopus insularis em laboratório, os cientistas mapearam um ciclo repetido: cerca de sete minutos de 'sono quieto' — com o corpo imóvel, a pele pálida e as pupilas contraídas — seguidos por menos de um minuto de 'sono ativo', marcado por mudanças rápidas de cor e textura, movimentos oculares e espasmos musculares. O paralelo com o sono REM e não-REM dos humanos é imediato e perturbador.

Sylvia Medeiros, autora principal e pesquisadora do Instituto do Cérebro da UFRN, sugeriu com cautela que os polvos podem estar sonhando — mas não como nós. Dado que o sono ativo dura apenas alguns segundos, qualquer experiência onírica seria mais próxima de um fragmento visual rápido do que de uma narrativa elaborada.

O que torna a descoberta ainda mais significativa é o que ela revela sobre a evolução. Vertebrados e cefalópodes divergiram há mais de 500 milhões de anos — tempo demais para que esses padrões de sono sejam herança comum. Os pesquisadores concluem que os dois grupos desenvolveram sistemas semelhantes de forma independente, um caso clássico de evolução convergente: a natureza chegando à mesma solução por caminhos completamente diferentes.

Sidarta Ribeiro, cofundador do Instituto do Cérebro e coautor do estudo, ressaltou que o polvo — com sua sofisticação cognitiva e sua arquitetura cerebral radicalmente distinta da nossa — oferece um ponto de comparação único para entender como a natureza gera comportamentos complexos. O sono, essa função biológica aparentemente universal, pode ter raízes evolutivas muito mais antigas e diversas do que se imaginava.

O polvo já impressiona por seus oito braços, três corações e sangue azul. Mas pesquisadores brasileiros acaba de descobrir algo ainda mais notável: o animal dorme de duas formas diferentes, e essas formas se parecem muito com o sono humano.

O estudo, publicado numa quinta-feira em março de 2021, foi conduzido por cientistas do Brasil e observou polvos da espécie Octopus insularis em laboratório. O que encontraram desafia a compreensão anterior sobre o sono nos invertebrados. Já se sabia que polvos dormiam e mudavam de cor enquanto adormeciam. Agora, os pesquisadores mapearam dois estágios distintos: o "sono quieto" e o "sono ativo".

No sono quieto, o polvo fica imóvel. Sua pele empalidece. As pupilas se contraem em fendas finas. É um repouso profundo e aparentemente sem movimento. Mas quando entra no sono ativo, tudo muda. O animal alterna rapidamente sua cor e textura de pele. Seus olhos se movem. As ventosas se contraem. O corpo inteiro se agita com espasmos musculares. Um ciclo típico segue um padrão: cerca de sete minutos de sono quieto, seguido por menos de um minuto de sono ativo. Depois, tudo recomeça.

Esse padrão lembra muito o que os cientistas chamam de sono REM nos humanos — aquele estágio em que os olhos se movem rapidamente, a respiração fica irregular, o coração bate mais rápido, e os músculos ficam paralisados para que não agimos nossos sonhos. O sono não-REM, por contraste, é mais profundo e tem menos atividade onírica. A semelhança entre o ciclo do polvo e o ciclo humano é notável, especialmente considerando que os dois grupos divergiram evolutivamente há mais de 500 milhões de anos.

Sylvia Medeiros, autora principal do estudo e pesquisadora do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sugeriu que os polvos podem estar sonhando — ou experimentando algo muito parecido. Mas ela foi cuidadosa com a interpretação. Se os polvos sonham, disse ela, provavelmente não é como nós. Seus sonhos não seriam narrativas complexas e simbólicas. Dado que o sono ativo dura apenas alguns segundos a um minuto, qualquer sonho seria mais como um pequeno videoclipe ou um GIF — fragmentos rápidos de experiência.

O que torna essa descoberta ainda mais intrigante é o que ela sugere sobre a evolução. Como vertebrados e cefalópodes (o grupo que inclui os polvos) compartilham um ancestral comum tão distante, é improvável que esses padrões de sono similares tenham sido herdados desse ancestral comum. Em vez disso, os pesquisadores argumentam que os dois grupos desenvolveram sistemas de sono semelhantes de forma independente — um fenômeno chamado evolução convergente. Isso significa que a natureza chegou à mesma solução duas vezes, em linhagens completamente diferentes.

Sidarta Ribeiro, coautor do estudo e fundador do Instituto do Cérebro, destacou a importância dessa descoberta para a neurobiologia. O polvo oferece um ponto de comparação único: ele possui características cognitivas sofisticadas semelhantes às de vertebrados, mas com uma arquitetura cerebral radicalmente diferente. Estudar o sono e os sonhos nos polvos, portanto, abre uma janela para compreender como a natureza pode gerar comportamentos complexos por caminhos neurobiológicos completamente distintos. A pesquisa sugere que o sono — essa função biológica fundamental — pode ter raízes muito mais profundas e variadas na evolução do que se pensava antes.

Se os polvos sonham de fato, é improvável que eles experimentem enredos simbólicos complexos como nós fazemos
— Sylvia Medeiros, Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
O polvo oferece um ponto de vantagem para comparação psicológica e neurobiológica com vertebrados, já que possui características cognitivas sofisticadas mas com arquitetura cerebral muito diferente
— Sidarta Ribeiro, coautor do estudo e fundador do Instituto do Cérebro
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