Da Baixada Fluminense para a Flórida, Lorena Drumond Teles, 19 anos, carrega em sua trajetória o peso da perda, da escassez e da determinação silenciosa de quem estuda sozinha, sem rede de apoio financeira, mas com uma clareza rara sobre o que quer do mundo. Aprovada em 32 universidades americanas, ela escolheu a Stetson University para pesquisar a cura do Alzheimer — doença que acomete sua avó — e agora enfrenta o último obstáculo: reunir R$ 120 mil para moradia e alimentação antes de embarcar em agosto de 2022. Sua história não é apenas sobre uma jovem que venceu; é sobre o que o talento pre
Estudante de baixa renda da Baixada Fluminense é aprovada em 32 universidades americanas
Estudar no exterior não é um sonho distante, é possível se tornar realidade
Como uma estudante de uma região tão vulnerável consegue se preparar para universidades americanas sem cursos preparatórios?
Lorena usou a internet como ferramenta principal e desenvolveu sua própria metodologia. Ela priorizava disciplinas por urgência e dificuldade, evitando sobrecarregar o cérebro. A técnica Pomodoro — blocos de 25 minutos — ajudava a manter a rotina efetiva durante períodos intensos.
E como ela lidou com a morte do pai justamente durante esse processo crítico?
Foi devastador. Lorena enfrentou picos de depressão e ansiedade enquanto se preparava. Sua mãe se tornou pensionista do INSS, e as dificuldades financeiras aumentaram. Ela teve que abdicar de várias coisas para pagar os testes preparatórios.
Por que escolheu ciências da saúde especificamente?
Quer se especializar em pesquisas sobre a cura do Alzheimer. Sua avó foi diagnosticada com a doença, e Lorena acredita que pode oferecer conforto não só aos pacientes, mas também às famílias que lidam com isso.
A bolsa de US$ 45 mil resolve o problema financeiro?
Não. O dinheiro é depositado diretamente na universidade e não cobre moradia nem alimentação. Ela precisa de R$ 120 mil adicionais para embarcar em agosto. Criou uma vaquinha chamada "Cada Real Conta" e até aquele momento tinha arrecadado menos de 5%.
Qual é o significado dessa aprovação para além de Lorena?
Seus professores dizem que é inspiração para outros jovens da região que sonham estudar no exterior. Mostra que é possível, mesmo sem recursos, se houver educação de qualidade e determinação. Lorena também criou um projeto beneficente ensinando inglês gratuitamente.
Der Puls
- Com bolsa de US$ 45 mil anuais garantida, Lorena ainda precisa de R$ 120 mil para cobrir moradia e alimentação — e havia arrecadado menos de 5% do valor faltante às vésperas do embarque.
- A morte do pai em 2019 desestruturou a família financeiramente e mergulhou Lorena em picos de depressão e ansiedade durante os anos mais decisivos de sua preparação.
- Sem cursos preparatórios, ela construiu sua própria metodologia de estudo — usando a técnica Pomodoro e priorizando disciplinas por urgência — e se candidatou a dezenas de universidades americanas de forma autônoma.
- Para não perder a vaga, Lorena lançou a campanha 'Cada Real Conta', recebendo doações via PIX, e conseguiu parcelar parte das despesas, mas ainda estava longe do necessário.
- Professores que a acompanharam destacam que, além da inteligência, Lorena sempre teve um olhar solidário — qualidade que ela já traduziu em ação ao criar o projeto E4E, oferecendo aulas de inglês gratuitas para jovens e adultos.
Da Baixada Fluminense para a Flórida, Lorena Drumond Teles, 19 anos, carrega em sua trajetória o peso da perda, da escassez e da determinação silenciosa de quem estuda sozinha, sem rede de apoio financeira, mas com uma clareza rara sobre o que quer do mundo. Aprovada em 32 universidades americanas, ela escolheu a Stetson University para pesquisar a cura do Alzheimer — doença que acomete sua avó — e agora enfrenta o último obstáculo: reunir R$ 120 mil para moradia e alimentação antes de embarcar em agosto de 2022. Sua história não é apenas sobre uma jovem que venceu; é sobre o que o talento precisa enfrentar quando nasce longe do privilégio.
Lorena Drumond Teles tem 19 anos e cresceu em Coelho da Rocha, bairro de São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Em julho de 2022, recebeu cartas de aprovação de 32 universidades americanas e escolheu a Stetson University, na Flórida, para estudar ciências da saúde — área que escolheu por querer pesquisar a cura do Alzheimer, doença diagnosticada em sua avó. A bolsa conquistada, de US$ 45 mil anuais, é depositada diretamente na instituição e não cobre moradia nem alimentação. Faltavam R$ 120 mil para ela embarcar em 7 de agosto, e havia arrecadado menos de 5% desse valor.
A trajetória de Lorena foi construída inteiramente com bolsas — no ensino fundamental, no ensino médio integral na Escola Politécnica Federal Joaquim Venâncio da Fiocruz, onde se formou em biotecnologia, e nos seis anos de inglês. Estudou para as candidaturas americanas sozinha, pela internet, sem cursos preparatórios, desenvolvendo sua própria metodologia baseada na técnica Pomodoro e na priorização de disciplinas por urgência e dificuldade.
Em janeiro de 2019, quando tinha 16 anos e já se preparava para candidaturas no exterior, seu pai faleceu. A mãe, fisioterapeuta ocupacional aposentada, tornou-se pensionista do INSS, e problemas de saúde complicaram ainda mais a situação financeira da família. Lorena enfrentou picos de depressão e ansiedade, mas continuou. Em 2021, criou o projeto E4E — English for Everyone —, oferecendo aulas de inglês gratuitas para jovens e adultos.
Professores que a acompanharam descrevem uma jovem perspicaz, curiosa e solidária, que mesmo se destacando sempre ajudou os colegas. Para eles, sua conquista demonstra que estudar no exterior pode ser realidade para quem tem acesso a uma educação de qualidade. Para cobrir os custos restantes, Lorena lançou a vaquinha virtual 'Cada Real Conta', recebendo doações via PIX. Ela mora com a mãe e uma irmã de 13 anos e acredita que sua aprovação já mudou não só sua própria vida, mas também a perspectiva de outros jovens que se sentiram inspirados por sua história.
Lorena Drumond Teles tem 19 anos e vive em Coelho da Rocha, um bairro de São João de Meriti, na Baixada Fluminense — uma das regiões mais pobres e violentas do Rio de Janeiro. No início de julho de 2022, ela recebeu cartas de aprovação de 32 universidades americanas. Escolheu a Stetson University, na Flórida, para estudar ciências da saúde. Mas há um problema: a bolsa que conquistou — US$ 45 mil anuais — é depositada diretamente na instituição e não cobre moradia nem alimentação. Ela precisa de R$ 120 mil para embarcar em 7 de agosto. Até aquele momento, havia arrecadado menos de 5% do valor.
Lorena chegou à Baixada Fluminense aos 5 anos, depois que sua família se mudou de Minas Gerais e Goiás. Descreve a infância como tranquila, marcada por curiosidade e vontade de resolver as coisas do jeito que achava mais efetivo. Tudo mudou em janeiro de 2019, quando seu pai, o geólogo André Luiz Teles da Silva, faleceu. A mãe, fisioterapeuta ocupacional aposentada, tornou-se pensionista do INSS. Apesar de receber um salário considerado bom, questões de saúde tornaram a situação financeira da família complicada. Lorena tinha então 16 anos e estava em pleno processo de preparação para candidaturas a universidades no exterior.
O caminho até as aprovações não foi fácil. Lorena estudou sozinha, pela internet, sem fazer nenhum curso preparatório. Usava amizades como apoio e desenvolveu sua própria metodologia de estudo, baseada em manter a calma e priorizar disciplinas por urgência e dificuldade. Adotou a técnica Pomodoro — trabalhar em blocos de 25 minutos com intervalos curtos — para manter a rotina efetiva durante períodos de maior volume de atividades. Quando recebeu as primeiras cartas de aprovação, sua reação foi de descrença. "O processo de aplicação é bem imprevisível", disse. Depois veio a alegria.
Tainah Silva Galdino, professora de biologia molecular, destacou que Lorena sempre se diferenciou pela curiosidade e vontade de aprender. "Ela é muito perspicaz, inteligente, com um interesse imenso por todas as áreas. Mesmo se destacando, ela sempre foi solidária com os colegas", afirmou. Flávio Paixão, outro educador, ressaltou que além da inteligência, Lorena tinha um olhar solidário, acolhendo colegas que precisavam. Para Tainah, a história de Lorena serve como inspiração: "A conquista dela mostra que estudar no exterior não é um sonho distante, que é possível, sim, se tornar realidade, contanto que haja uma educação de qualidade".
A trajetória acadêmica de Lorena foi construída com bolsas. Concluiu o ensino fundamental como bolsista e estudou no ensino médio integral na Escola Politécnica Federal Joaquim Venâncio, da Fiocruz, onde se formou em biotecnologia. Cursou inglês por seis anos também como bolsista. Escolheu ciências da saúde porque quer se especializar em pesquisas clínicas sobre a cura do Alzheimer — sua avó foi diagnosticada com a doença. "Acredito que, estudando essa área, eu possa dar conforto de vida não só às pessoas que sofrem dessa doença, mas também às que estão imersas nessa rede de apoio", disse.
A morte do pai durante o processo de preparação para as universidades trouxe picos de depressão e ansiedade. Além disso, as dificuldades financeiras a obrigaram a abdicar de várias coisas para arcar com os altos custos dos testes preparatórios. Mesmo assim, continuou. Em 2021, com domínio do inglês, criou o projeto beneficente E4E — English for Everyone — oferecendo aulas de inglês gratuitas para jovens e adultos.
Para resolver o impasse da moradia e alimentação, Lorena lançou uma vaquinha virtual chamada "Cada Real Conta", com a campanha recebendo doações via PIX (lorenaemstetson@gmail.com). Com o dinheiro arrecadado, conseguiu parcelar parte de uma das despesas, mas ainda estava longe do necessário. Ela mora atualmente com a mãe e uma irmã de 13 anos em Coelho da Rocha. "Coelho da Rocha é um bairro legal para viver, se ignorarmos a falta de acesso a saúde, um dos grandes problemas que enfrentamos", comentou. Desde que soube da aprovação, quatro meses antes, sua visão de mundo mudou. "Essa conquista significa muito para mim. Mudou não só a minha vida, mas a de outros jovens que se sentiram inspirados", disse. Lorena esperava chegar aos Estados Unidos com uma nova perspectiva sobre educação, estudando em um país que valoriza os estudos e a ciência.
Bemerkenswerte Zitate
O processo de aplicação é bem imprevisível. Por isso, fiquei surpresa por ter sido aprovada, mas, depois, me senti muito feliz— Lorena Drumond Teles
A conquista dela mostra que estudar no exterior não é um sonho distante, que é possível, sim, se tornar realidade, contanto que haja uma educação de qualidade— Tainah Silva Galdino, professora de biologia molecular