Se conseguem controlar Gotlândia, conseguem controlar o Mar Báltico
Gotlândia, com 60 mil habitantes a 275 km de Kaliningrada, é estratégica para controlar o Mar Báltico e rotas marítimas fundamentais, tornando-se alvo potencial da Rússia. Centenas de recrutas, incluindo jovens como Ella Adman de 19 anos, cumprem serviço militar obrigatório de 15 meses para defender a ilha, com cerca de 4.500 militares prontos para mobilização.
- Gotlândia tem 60 mil habitantes e fica a 275 km de Kaliningrada
- Cerca de 4.500 militares prontos para mobilização em caso de ataque
- Serviço militar obrigatório de 15 meses para recrutas como Ella Adman, de 19 anos
- Planos de defesa suecos (2025-2030) incluem ataque surpresa a Gotlândia como cenário prioritário
A ilha sueca de Gotlândia intensifica preparativos militares e civis para enfrentar um possível ataque russo, considerado cenário prioritário nos planos de defesa da Suécia até 2030, após a entrada do país na NATO.
A ilha sueca de Gotlândia, com pouco mais de 60 mil habitantes espalhados pelo seu território no centro do Mar Báltico, transformou-se numa das peças mais críticas da estratégia defensiva europeia. Situada a apenas 275 quilómetros de Kaliningrada — o enclave russo fortemente militarizado entre a Polónia e a Lituânia — a ilha tornou-se alvo de uma remilitarização acelerada que ganhou ritmo após a invasão russa da Ucrânia e consolidou-se com a entrada da Suécia na NATO. Nos planos de defesa suecos para o período entre 2025 e 2030, um ataque surpresa a Gotlândia figura como um dos cenários prioritários para preparação militar. Se tal acontecer, a estratégia passa por defender a ilha e manter a população no território sempre que possível.
A importância geográfica de Gotlândia é simples e brutal: quem controla a ilha controla as rotas marítimas e aéreas fundamentais do Mar Báltico. O coronel Andreas Gustafsson, comandante das forças terrestres suecas na região, resumiu a questão com clareza: se Moscovo conseguisse dominar Gotlândia, conseguiria dominar todo o Mar Báltico. Por isso, afirmou, a Suécia precisa de manter o controlo — não apenas pelos seus interesses, mas pelo bem da NATO. As autoridades militares suecas reconhecem que, embora uma invasão convencional imediata não seja considerada provável, a possibilidade não pode ser descartada, especialmente se um eventual cessar-fogo ou acordo de paz na Ucrânia permitisse à Rússia deslocar tropas para outras frentes. O risco, segundo Gustafsson, é que a Rússia se torne desesperada: quanto maior a pressão sobre Moscovo, maior poderá ser a tentação de agir.
A preparação militar é visível nas ruas de Gotlândia através dos rostos dos jovens recrutas. Ella Adman, com 19 anos, terminou o ensino secundário há apenas alguns meses e nunca tinha pegado numa arma. Hoje cumpre serviço militar obrigatório, transporta uma espingarda de assalto e prepara-se para a sua primeira missão oficial em Estocolmo, onde participará na segurança da família real sueca. Os 15 meses de formação militar exigem dias de treino que podem ultrapassar as 16 horas, uma realidade que a surpreendeu inicialmente. Mas a experiência mudou a sua perspetiva: descobriu do que é capaz e quão forte se pode tornar. Ella integra o regimento P18, reinstalado em Gotlândia em 2018, depois de ter sido encerrado em 2005, numa altura em que a ameaça russa parecia distante. Desde então, e sobretudo após fevereiro de 2022, o efetivo militar na ilha cresceu rapidamente e os exercícios conjuntos com forças da NATO tornaram-se frequentes. Em caso de mobilização total, cerca de 4.500 militares seriam destacados para proteger a ilha.
Mas a preparação vai muito além das forças armadas. Nas várias localidades de Gotlândia, os habitantes organizam-se em grupos de preparação comunitária para enfrentar situações de emergência prolongadas. Eva Rinbald, médica e residente numa zona rural da ilha, criou um desses grupos no seu bairro. Os moradores começaram por identificar recursos disponíveis — reservas de água, eletricidade, meios de comunicação — e estão agora a mapear poços e outras fontes de abastecimento. Na propriedade onde Eva vive, existem hortas, árvores de fruto, galinhas, patos, painéis solares e sistemas de recolha de água da chuva. O objetivo é garantir autonomia caso as ligações ao exterior sejam interrompidas. Está também prevista a criação de um centro comunitário onde os residentes possam encontrar abrigo, aquecimento, carregar telemóveis, cozinhar e receber informação durante uma crise.
A Agência Sueca para a Proteção Civil e Preparação de Emergências considera Gotlândia como um modelo para o restante país. A insularidade torna a região particularmente vulnerável ao corte de abastecimentos, mas também permite testar soluções que poderão ser aplicadas noutras zonas da Suécia. Entre as medidas em preparação estão exercícios de evacuação interna, reforço da capacidade hospitalar para responder a vítimas em massa, formação para lidar com munições não detonadas e equipas especializadas para operações em edifícios destruídos. Segundo Mikael Frisel, diretor-geral da agência, a defesa da ilha depende tanto da presença militar como da capacidade dos civis resistirem durante um conflito. A situação mundial é séria, afirmou, e o Mar Báltico é uma área onde a Europa está muito próxima da Rússia, com incidentes tanto acima quanto abaixo da superfície. Gotlândia, com os seus recrutas jovens e as suas comunidades a mapear poços e painéis solares, representa a realidade de uma Europa que se prepara para um conflito que espera não ter de enfrentar.
Notable Quotes
Se conseguem controlar a Gotlândia, também conseguem controlar o Mar Báltico. É por isso que precisamos de manter o controlo — pela Suécia, mas também pelo bem da NATO— Coronel Andreas Gustafsson, comandante das forças terrestres suecas em Gotlândia
Tu descobres do que és capaz e do quão forte te tornas— Ella Adman, recruta de 19 anos em serviço militar obrigatório
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que Gotlândia é tão importante para a Rússia? Parece apenas uma ilha sueca.
Porque quem controla Gotlândia controla o Mar Báltico inteiro. As rotas marítimas e aéreas passam por ali. Se a Rússia conseguisse dominar a ilha, teria o poder sobre toda a região.
Mas a Suécia não é membro da NATO agora? Isso não deveria ser suficiente proteção?
Deveria, teoricamente. Mas os suecos não querem depender apenas disso. Querem estar preparados para defender a ilha eles próprios, porque sabem que se a Rússia decidir testar a NATO, Gotlândia é um alvo óbvio.
Essa rapariga, a Ella, parece muito jovem para estar a treinar com armas.
Tem 19 anos. Há alguns meses estava no ensino secundário. Mas a Suécia tem serviço militar obrigatório, e agora precisam de pessoas. O que é interessante é que ela diz que a experiência a mudou — descobriu de que é capaz.
E as pessoas comuns? Como é que vivem com isto?
Estão a organizar-se. Grupos de vizinhos a mapear poços, a plantar hortas, a instalar painéis solares. Estão a preparar-se para viver sem ligações ao exterior. É uma forma de resistência civil.
Resistência? Isso soa a guerra já começou.
Não começou. Mas a Suécia está a dizer: se começar, nós estamos prontos. E não é apenas o exército. São as pessoas, as comunidades, a infraestrutura. Tudo preparado.