Você se imerge no cheiro do americanismo quando joga GTA
Em Moscou, o deputado Vitaly Milonov transformou um videogame em tribuna política, usando o lançamento de GTA 6 para reafirmar sua visão de que a cultura americana exporta violência, sexo e decadência moral. Sua crítica, transmitida em rádio nacional, não é sobre pixels ou jogabilidade — é sobre a velha batalha entre identidades civilizacionais que ele trava há décadas. O paradoxo de condenar o jogo enquanto celebra sua violência como espelho fiel dos conflitos americanos revela menos sobre o jogo e mais sobre a lógica que sustenta certos discursos de resistência cultural.
- Milonov declarou em rádio nacional que GTA 6 carrega o 'cheiro de americanismo' desde sua origem, sem jamais ter evoluído moralmente.
- A tensão se aprofunda quando o deputado, ao mesmo tempo que condena o jogo, sugere que sua violência entre personagens americanos é um reflexo legítimo — e até bem-vindo — da realidade dos EUA.
- A contradição interna de sua posição é flagrante: ele admite que o jogo não converte ninguém, mas insiste em atacá-lo como ameaça cultural.
- A crítica se encaixa numa trajetória política coerente — Milonov é o mesmo arquiteto das leis anti-LGBTQIA+ russas e vice-presidente do Comitê da Duma para Família e Crianças.
- O alvo real não é a Rockstar Games, mas o conjunto de valores ocidentais que Milonov vê como invasão à identidade cultural russa.
Vitaly Milonov, deputado da Duma do Estado pelo partido governista United Russia, usou a rádio Govorit Moskva para atacar GTA 6, descrevendo a franquia como permanentemente impregnada do que chamou de 'cheiro de americanismo'. Para ele, a série nunca demonstrou qualquer evolução moral desde sua primeira versão — apenas repetiu a mesma fórmula de violência e comportamento delinquente.
Sua crítica, porém, carrega uma lógica peculiar. Milonov argumentou que a violência retratada no jogo, por ocorrer entre personagens americanos, é na verdade um reflexo fiel da realidade social dos EUA — onde, segundo ele, 'violência, sexo e drogas realmente imperam'. Chegou a sugerir que, se americanos se destroem mutuamente mesmo que apenas virtualmente, isso seria 'apenas para melhor'.
A contradição não passou despercebida: o próprio deputado admitiu que o jogo dificilmente convenceria alguém racional a adotar aquele estilo de vida. Ainda assim, prosseguiu com a condenação, tratando GTA 6 como símbolo de uma forma de vida ocidental que ameaça os valores tradicionais russos.
Conhecer Milonov é essencial para entender o ataque. Ele é um dos principais arquitetos das leis russas que proibiram a 'propaganda gay' e ocupa a vice-presidência do Comitê da Duma para Família, Mulheres e Crianças. Sua carreira é construída sobre a resistência ao que percebe como influência ocidental corrosiva — e criticar um videogame americano é, para ele, apenas mais um capítulo dessa mesma batalha cultural.
Vitaly Milonov, um dos deputados mais vocais do parlamento russo, entrou na onda de críticas ao GTA 6 — mas com uma perspectiva que só poderia vir de Moscou. Membro da Duma do Estado pelo partido governista United Russia, Milonov usou a rádio Govorit Moskva para desferir ataques ao novo título da Rockstar Games, descrevendo-o como um jogo saturado do que chamou de "cheiro de americanismo". Sua intervenção marca mais um capítulo nas polêmicas que cercam o lançamento, desta vez vindo de dentro do establishment político russo.
Na entrevista, Milonov foi direto. Segundo ele, a série Grand Theft Auto sempre foi, desde sua primeira encarnação, um veículo para violência e comportamento delinquente. A versão mais recente, em sua avaliação, não representa nenhum avanço moral em relação aos títulos anteriores — apenas uma continuação da mesma fórmula de perversão. Para o deputado, a franquia nunca demonstrou qualquer evolução ética ao longo de suas décadas de existência, permanecendo presa aos mesmos temas que a definiram no início.
Mas Milonov foi além da simples condenação moral. Ele argumentou que o jogo, ao retratar a violência em contexto americano e entre personagens americanos, na verdade reflete a realidade social dos Estados Unidos. "Violência, sexo e drogas realmente imperam lá", disse ele, sugerindo que o jogador, ao entrar no mundo de GTA, está se imergindo no que ele vê como a essência cultural americana. Essa observação, embora crítica, carrega uma lógica peculiar: se o jogo mostra a violência americana entre americanos, então, na visão de Milonov, essa violência é um reflexo legítimo de conflitos internos daquele país.
Há uma contradição notável em sua posição. Milonov reconheceu que não acredita que o jogo possa convencer alguém a adotar aquele estilo de vida — uma pessoa racional, argumentou, compreende que se trata de ficção ambientada nos EUA. Ainda assim, ele prosseguiu com a crítica, sugerindo que qualquer violência retratada em GTA é, fundamentalmente, violência entre potenciais inimigos. Sua conclusão foi provocadora: se os personagens americanos se destroem mutuamente, mesmo que apenas no jogo, isso seria "apenas para melhor".
Para entender por que um deputado russo gastaria tempo atacando um videogame, é necessário conhecer Milonov. Ele é uma figura bem estabelecida na política russa, conhecido principalmente por sua campanha agressiva contra os direitos LGBTQIA+ no país. Foi um dos arquitetos das legislações que proibiram a chamada "propaganda gay" na Rússia, e atualmente ocupa o cargo de vice-presidente do Comitê da Duma do Estado para Família, Mulheres e Crianças. Sua carreira política tem sido marcada pela defesa do que ele considera valores tradicionais russos contra o que vê como influência ocidental corrosiva.
Nesse contexto, sua crítica a GTA 6 não é um desvio ocasional. Para Milonov, o universo do jogo representa um conjunto de comportamentos e valores que ele classifica como antitéticos aos princípios tradicionais que defende. O jogo não é apenas entretenimento problemático — é um símbolo de uma forma de vida ocidental que, em sua visão, ameaça a identidade cultural russa. A crítica, portanto, se encaixa perfeitamente em sua trajetória política de resistência ao que ele percebe como americanismo cultural invasivo.
Citas Notables
GTA, desde sua primeira versão, sempre foi sobre violência e hooliganismo. A última versão não difere em nada das anteriores em termos de perversão— Vitaly Milonov, deputado russo
Você se imerge no cheiro do americanismo quando joga GTA— Vitaly Milonov
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que um deputado russo gastaria tempo atacando um videogame americano? Não há questões mais urgentes?
Para Milonov, não é apenas um jogo. É um símbolo. Ele vê GTA como uma janela para valores ocidentais que ele acredita ameaçar a identidade russa. Sua carreira inteira é sobre resistir a essa influência.
Mas ele mesmo disse que as pessoas entendem que é ficção, que é sobre os EUA. Então qual é realmente o problema?
Exatamente — há uma contradição. Ele reconhece que é ficção, mas ainda assim a vê como perigosa. Acho que para ele, a questão não é se as pessoas vão imitar, mas o que o jogo representa culturalmente. É sobre quem controla a narrativa.
Essa coisa dele sobre violência americana contra americanos ser "para melhor" — isso é sarcasmo ou ele realmente acredita nisso?
Provavelmente ambos. Há um cálculo político aí. Ele critica o jogo, mas também sugere que a violência retratada é um problema interno americano, não russo. É uma forma de dizer: isso não é nosso problema, é deles.
E se o jogo fosse lançado na Rússia? Ele teria poder para bloqueá-lo?
Tecnicamente, a Rússia tem mecanismos de censura, mas GTA é grande demais para simplesmente desaparecer. O que Milonov faz é criar pressão política, estabelecer uma narrativa. Isso importa mais do que um bloqueio formal.
Ele representa uma posição ampla na política russa ou é mais isolado?
Ele é um dos rostos mais vocais, mas a posição — defesa de valores tradicionais contra influência ocidental — é bastante mainstream no establishment russo atual. Milonov é apenas mais barulhento sobre isso.