Brasil atinge recorde de 83,5 milhões de pessoas com contas em atraso, representando mais de 50% da população adulta com média de R$ 6.877 em dívidas. Especialistas recomendam priorizar contas essenciais, consultar CPF gratuitamente em birôs de crédito e buscar programas federais com descontos de até 90% antes de aceitar primeiras ofertas.
Especialistas orientam renegociar dívidas impagáveis; confira estratégias
Sem ajuda especializada, será muito difícil sair dessa situação
Por que uma pessoa como Barbara, que tinha uma vida organizada, chega a esse ponto?
Porque a vida não segue o planejamento. Uma doença grave, especialmente sem cobertura de saúde, consome tudo. Ela precisava se tratar, então usou o que tinha. Quando o que tinha acabou, usou crédito. E o crédito tem juros.
Mas 83,5 milhões de pessoas? Isso não é só má sorte individual.
Não. É um sistema onde o crédito é oferecido como solução para tudo, mas os juros crescem mais rápido que a capacidade de pagar. Quando você está fragilizado, o banco oferece mais crédito. É predatório.
E por que as pessoas não veem isso vindo?
Porque acontece devagar. Uma parcela aqui, outra ali. Você pensa que vai resolver no mês que vem. Mas os juros não descansam. De repente, você está pagando R$ 1.882 por mês e ainda assim não sai do buraco.
O Desenrola Brasil resolve?
Ajuda muito. Reduz juros, estende o prazo, torna a dívida respirável. Mas é um remédio, não uma cura. A pessoa ainda precisa pagar. O que muda é que agora ela consegue.
E a Lei do Superendividamento?
É um escudo. Garante que você não perca a casa, que tenha comida na mesa enquanto reorganiza as dívidas. Protege o mínimo vital. Mas poucos sabem que existe.
Então a solução é informação?
Informação e ajuda especializada. Sozinho, você aceita a primeira oferta ruim que chega. Com ajuda, você negocia de verdade.
The Pulse
- 83,5 milhões de brasileiros com contas em atraso em 2026, mais de 50% da população adulta
- Dívida total superior a R$ 570 bilhões, média de R$ 6.877 por pessoa
- Cartão de crédito representa 27% de todas as dívidas registradas
- Desenrola Brasil oferece descontos de 30% a 90% com taxa máxima de 1,99% ao mês
- Lei do Superendividamento de 2021 garante plano único com preservação de renda mínima vital
Brasil atinge recorde de 83,5 milhões de pessoas com contas em atraso, representando mais de 50% da população adulta com média de R$ 6.877 em dívidas. Especialistas recomendam priorizar contas essenciais, consultar CPF gratuitamente em birôs de crédito e buscar programas federais com descontos de até 90% antes de aceitar primeiras ofertas.
Com 83,5 milhões de brasileiros inadimplentes e dívidas totalizando R$ 570 bilhões, especialistas orientam sobre renegociação de débitos através de programas como Desenrola Brasil e Lei do Superendividamento.
Barbara Louise Sant'Anna Boaventura tinha 42 anos quando a vida mudou de rumo. Uma aposentadoria precoce por problemas de saúde reduziu sua renda em 60%, e sem convênio médico, ela começou a pagar exames, remédios e consultas com o cartão de crédito. Quando um câncer na língua exigiu tratamento dentário e ósseo complexo, os empréstimos vieram em seguida. Hoje, aquela reserva que ela havia juntado para comprar uma casa própria se foi. Os insumos importados para continuar os cuidados odontológicos consumiram o resto. Ela negocia com o banco uma dívida que chegou a R$ 120 mil, incluindo juros, e paga mensalmente R$ 1.882 ao banco mais dez prestações de R$ 500 do cartão. Para completar o orçamento, ela organiza vaquinhas e rifas nas redes sociais.
O caso de Barbara não é exceção. Em 2026, o Brasil atingiu um recorde preocupante: 83,5 milhões de pessoas com contas em atraso, mais de 50% da população adulta. O valor total das dívidas ultrapassa R$ 570 bilhões, com uma média de R$ 6.877 por pessoa. O cartão de crédito responde por 27% de todas essas dívidas registradas. Uma doença grave, a perda do emprego, um divórcio ou a morte de um provedor podem transformar uma dívida controlável em algo impagável. O que determina o limite não é o tamanho do débito em si, mas o tamanho do orçamento de quem deve.
Especialistas identificam um sinal de alerta claro: quando o consumidor começa a usar crédito novo para cobrir parcelas antigas. Segundo Guilherme Oliveira, especialista em educação financeira da Serasa, é um ciclo que ultrapassa o quanto a pessoa consegue realmente assumir. Viviane Fernandes, pesquisadora do Idec, aponta que quando o devedor está fragilizado, procura o banco em busca de solução e, em vez de aliviar a situação, recebe ofertas de mais crédito para cobrir a pendência. Isso se torna um círculo vicioso onde a dívida cresce até virar uma bola de neve. A situação desestrutura a vida: afeta o sono, a alimentação, as relações sociais. Sem orientação, a pessoa aceita qualquer acordo para se livrar da pressão, mesmo que desfavorável.
O primeiro passo é conhecer o tamanho real da dívida. Qualquer pessoa pode consultar seu CPF gratuitamente em birôs como Serasa, na internet, para ter dimensão do que deve antes de negociar. Pelo aplicativo ou site da Serasa é possível acessar ofertas de negociação e o Feirão Limpa Nome, com descontos que chegam a 90% no aplicativo e até 99% nos feirões. Quem prefere atendimento presencial pode ir a uma das 7 mil agências dos Correios, parceiras da Serasa. Vale lembrar que a negativação não é automática: o credor cobra, envia um aviso com dez a 20 dias para regularizar, e só depois solicita a inclusão no cadastro. O processo costuma levar semanas, então débitos muito recentes podem não aparecer ainda.
Os especialistas recomendam priorizar moradia, alimentação e contas básicas como luz, água, aluguel ou financiamento do imóvel, que podem resultar em perda do bem ou corte de serviço essencial. Claudia Yoshinaga, professora da FGV, destaca dois sinais de alerta: deixar de pagar contas essenciais e passar meses quitando apenas o valor mínimo da fatura do cartão. Quanto antes buscar ajuda, melhor, e não se deve aceitar a primeira oferta na hora de fechar acordo.
Para quem ganha até R$ 8.105 por mês, existe o novo Desenrola Brasil, programa federal que renegocia dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal com descontos de 30% a 90%, taxa máxima de 1,99% ao mês e parcelamento em até 48 vezes. Segundo Josilmar Cordenonssi, professor de economia do Mackenzie, as condições tendem a ser bem melhores do que tentar renegociar sozinho. Usar o FGTS também faz sentido: o fundo rende pouco comparado aos juros do cartão, e no Desenrola é possível usar até 20% do saldo.
Quando o endividamento foge do controle, a recomendação é buscar ajuda especializada em locais como Procon, Defensoria Pública e Cejusc. Núcleos jurídicos de faculdades também são indicados, pois há profissionais capacitados para avaliar contratos, identificar práticas abusivas e evitar que o consumidor aceite acordos prejudiciais. Viviane enfatiza que sem ajuda especializada, será muito difícil a pessoa sair dessa situação.
A Lei do Superendividamento, de 2021, oferece uma proteção importante. Ela permite propor um plano único de pagamento para todas as dívidas, com garantia de parte da renda para cobrir o básico. Em casos extremos, o consumidor pode reorganizar todas as dívidas de consumo em uma audiência com os credores. O pedido pode ser feito pelo devedor, desde que seja pessoa física e de boa-fé. A lei preserva parte da renda para o mínimo vital (moradia, alimentação, saúde, transporte e contas essenciais) e autoriza medidas como suspensão de cobranças, reorganização de parcelas e exclusão dos cadastros de inadimplentes se o acordo for homologado. Foi pensada para dar ao consumidor algo similar a uma recuperação judicial: um ambiente que o proteja para, nessas situações extremas, ter acesso à justiça e a um tratamento digno.
Notable Quotes
É aquele ciclo que ultrapassa o quanto a pessoa consegue assumir— Guilherme Oliveira, especialista em educação financeira da Serasa
É muito desproporcional o poder de convencimento de um banco frente a uma pessoa fragilizada pela dívida, que já se sente culpada— Viviane Fernandes, pesquisadora do Idec